segunda-feira, 9 de outubro de 2017

De acordo com o Público


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Renato Sant’Ana

Acusado de dois delitos (apresentação de falso título acadêmico e uso pessoal de cartões corporativos oficiais), o vice-presidente do Uruguai, Raúl Sendic, teve de renunciar. Aqui vem a surpresa: Ele foi julgado pelo Tribunal de Conduta Política (órgão interno de seu partido, a Frente Ampla), que comunicou que "o quadro geral apresentado pelos atos descritos [do agora ex-vice-presidente] não deixa dúvidas quanto a um modo de atuar inaceitável no uso de dinheiro público". Para o partido, a atuação de Sendic "compromete sua responsabilidade ética e política, com o descumprimento reiterado de normas de controle".

Os mesmos delitos por aqui

Em 2009, a Revista Piauí descobriu que nas páginas do Ministério das Minas e Energia e da Casa Civil havia informações falsas sobre o currículo de Dilma Rousseff (que comandou aqueles órgãos antes de ser presidente). Depois se viu que a falsificação replicava o que havia na Plataforma Lattes do CNPq (que abriga currículos de professores universitários e pesquisadores de pós-graduação): o currículo fraudulento de Dilma tinha até data de conclusão do mestrado, tema da pesquisa, nome do orientador e título da dissertação. Só que ela não é mestre! Detalhe: para inserir dados na Plataforma Lattes, é necessário informar o CPF e uma senha individual. Apesar disso, quando a treta foi descoberta, Dilma limitou-se a dizer: "Não sei quem mexeu lá!".

E no início de 2008, ministros do governo Lula foram flagrados usando "cartões corporativos" (dinheiro público) para pagar despesas privadas - episódio que ficou conhecido como o "escândalo da tapioca". Poucos dias após a denúncia, jantando com 30 industriais, Dilma Rousseff, então ministra de Lula, afirmou que o governo "não ia apanhar calado", prometendo uma devassa nas contas do governo anterior.

E logo um falso (saliente-se, falso) dossiê, com gastos do ex-presidente Fernando Henrique e da ex-primeira-dama Ruth Cardoso, começou a circular. Com a cara lisa, Dilma disse que se tratava de um banco de dados para organizar as despesas com cartão corporativo e responder à CPI dos Cartões - que não tinha sequer sido instalada. E quando ficou provado que aquela falsificação tinha sido fabricada na Casa Civil (que ela chefiava), ela persistiu na mentira: "Banco de dados!".

Guardião da ética

O PT expulsou Antonio Palocci e Delcídio do Amaral. Não pelos crimes de ambos, mas porque desvelaram a organização criminosa do partido. É o mesmo PT que faz homenagens e desagravos a notórios criminosos condenados como José Dirceu e Delúbio Soares.

O Mensalão estourou em 2005. Houve condenações. Penas brandas para grandes crimes, é certo. Mas vários petistas foram para a cadeia. Consequências? Por um lado, embora os estatutos do PT prevejam expulsar quem comete delitos, todos os condenados só receberam afagos. Por outro, a brava gente brasileira reelegeu Lula em 2006 (e Dilma depois), em que pese tudo que aqui se descreve haver ocorrido em seu governo.

Aliás, hoje há vários petistas condenados na Lava Jato e outros tantos sendo processados: todos recebem a proteção do partido.

Sem ilusões

Como o PT, a Frente Ampla é uma agremiação com pretensões revolucionárias e regida pela norma do "vale tudo em nome da revolução", desdenhando quaisquer escrúpulos. No entanto, no "caso Raúl Sendic" não concedeu o protecionismo que o PT oferece a militantes que praticam crimes. Qual será a causa para o tratamento diverso a delitos equivalentes?

Talvez a chave da explicação seja a "opinião pública", a qual os movimentos revolucionários levam em consideração enquanto não conseguem o poder total. É improvável, por exemplo, um governante uruguaio, diante da corrupção, dizer como Lula e Dilma: "Oh, eu não sabia...". É que, com seu temperamento charrua e uma escolaridade mais qualificada do que a brasileira, o povo uruguaio não cai fácil em conversa fiada nem se deixa engrupir com "narrativas" falaciosas. Ao passo que, Como dizia uma personagem da TV, "Brasileiro é muito bonzinho..."

Renato Sant'Ana é Psicólogo e Bacharel em Direito.

Um comentário:

Anônimo disse...

Com a urna eletrônica, não é possível afirmar que a brava gente brasileira elegeu ou reelegeu qualquer desses presidentes.