sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Microensaio sobre Desinformação


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Renato Sant’Ana

Diferente e muito mais grave do que a simples "falta de informação", a "desinformação" presta-se como instrumento de arbitrariedade e pode acometer pessoas de boa inclinação moral. Como funciona? Veja-se num caso concreto.

Depois da famigerada carta de Antonio Palocci (26/09/2017), o líder do PT na Câmara, Carlos Zaratini, ouvido pela Rádio Gaúcha, agiu como qualquer petista nos dias atuais, sempre que há um microfone: atacou a Lava Jato. Confrontado com o que disse Palocci: "Agora que resolvo mudar minha linha de defesa e falar a verdade, me vejo diante de um tribunal inquisitorial dentro do próprio PT", Zaratini tratou de inverter o sentido das coisas. "Tribunal inquisitorial é o que se faz na Lava Jato", disse. E, completando, fatiou a verdade, entregou uma parte e ocultou o resto: falou que o ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, "embora absolvido duas vezes, ainda permanece preso".

Ora, um dado de realidade é que Vaccari teve duas absolvições em recursos ao TRF-4. Outro é que ele continua preso. Mas haverá nexo entre um e outro? Veja-se a manobra: se, por um lado, é verdade que (eis um dado) Vaccari está preso, cumprindo pena de 21 anos e dois meses de prisão, por outro as duas absolvições evocadas (dado inoportuno) não se referem à decisão que o levou à cadeia.

O que Zaratini faz é citar dois dados, oferecendo a ficção de um conflitante nexo causal, quando a realidade aponta noutra direção: em verdade, as absolvições de Vaccari pressupõem haver plena observância das regras processuais, ninguém sendo condenado sem provas consistentes. Mas, ocultando o essencial e insinuando haver nexo causal entre os dados, ele passa a falsa ideia de que a Lava Jato funciona ao arrepio da lei. (Vaccari tem mais quatro processos contra si.)

Manipular dados para forjar crenças falsas é apenas uma, de várias táticas de desinformação. E, com efeito, o que houve não foi "falsificação", mas "manipulação de dados", visando a incrementar a desinformação da massa ignara, cuja partícula elementar é o "tipo médio", o medíocre desinformado que, embora dotado de bons sentimentos (saliente-se), tem crenças assimiladas (que colaram nele com a goma do sentimentalismo), mas não tem pensamentos elaborados pela abstração, pela análise nem pela construção lógica; que tem percepções (afetadas pela imprecisão dos sentidos), não conceitos elaborados pelo raciocínio sistemático; que tem convicções (tidas por ele como se fossem certezas) sem a grandeza de alma para se deixar tocar pela dúvida que leva a questionamentos; que tem o manejo do que é voz corrente (senso comum), mas não detém o conhecimento objetivo que requer esforço, certa disciplina e honestidade intelectual.

Mas, duas advertências se impõem: por um lado, a desinformação não é exclusividade de nenhuma ideologia. Por outro, existem as duas faces da moeda: numa estão os políticos demagogos (de pigmentações ideológicas diversas) que fomentam a desinformação; na outra, a massa, a turba manipulável que é a projeção do pensamento raso e da volubilidade do "tipo médio".

O político ordinário e seu mais moderno e maior colaborador, o marqueteiro, adoram esse "tipo médio", que, por não ser dado a refletir nem se inquietar com o obscurantismo, não tendo sequer consciência clara de suas limitações, facilmente assimila a desinformação e fica permeável a ideias fabricadas para dominá-lo. Nada há mais útil à política fisiológica, pois, do que ignorantes convictos que absorvam como esponja a falácia populista. Certo é que não existiriam, por um lado, políticos demagogos sem que, por outro, houvesse os ignorantes convictos.

Para finalizar, uma distinção (sendo que, na prática, elas quase sempre estão juntas). A falta de informação contém lacunas que podem ser preenchidas ao surgimento de um desejo de saber - humildade para admitir que não conhece: um exercício de liberdade que desagrada o político demagogo. Já a desinformação é trágica, porque traz uma infundada sensação de completude cognitiva (de não faltar conhecimento) e a presunção de ter autonomia de consciência. Assim, o sujeito desinformado, ao alimentar uma bela e falsa imagem de sua própria qualificação intelectual, tem uma vulnerabilidade que ultrapassa a carência de informação e o predispõe a ser hipnotizado pelo discurso populista.


Renato Sant’Ana é Advogado e Psicólogo.

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