terça-feira, 3 de outubro de 2017

Yuri Andropov, o Pai da Dezinformatsiya Soviética Moderna


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo foi transcrito do livro “Desinformação”, de autoria do Tenente-General ION MIHAI PACEPA – ex-Chefe do Serviço de Espionagem do regime comunista da Romênia e principal conselheiro do ditador Nicolae Ceauscescu - e do professor RONALD J. RYCHLAK.

PACEPA desertou para os EUA em julho de 1978, onde passou a escrever seus livros, narrando as atividades do Serviço de Inteligência Romeno e detalhes de importantes operações sigilosas conduzidas por ele, e que influenciaram diretamente alguns momentos históricos decisivos do Século XX.

RONALD J. RYCHLAK é advogado, jurista e professor de Direito Constitucional na Universidade de Mississipi. Também é Consultor da Delegação Permanente da Santa Sé na ONU, e autor de diversos livros.

“O Comunismo não é uma ideologia na qual se acredita, mas sim uma conspiração criminosa na qual se toma parte”.
                 
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Em 1982, Yuri Andropov, o pai da era da dezinformatsiya soviética moderna, tornou-se, ele próprio, o governante da União Soviética, e GLASNOST se tornou também uma política externa soviética. Tão logo estabelecido no Kremlin, o ex-chefe da KGB esforçou-se para se apresentar ao Ocidente como um “comunista moderado” e homem sensível, caloroso e voltado para o Ocidente, que supostamente gostava de um drink ocasional de uísque, lia romances ingleses e amava ouvir Beethoven e jazz americano. Na verdade, Andropov não bebia nada, pois já estava na fase final de uma doença nos rins. O resto do retrato era igualmente falso, como bem sei, tendo conhecido muito bem Andropov. Quanto ao ”moderado”, qualquer chefe da KGB tinha forçosamente as mãos cobertas de sangue.
    
No curto espaço de tempo que lhe restava, o cínico Andropov dedicou sua atenção a projetar sua nova imagem e a promove seu protegido, um jovem profissional comunista, vigoroso e insensível, que estava ocupado, burilando a mesma imagem moderada para si próprio – Mikhail Gorbachev.
    
Gorbachev se apresentou ao Ocidente como Andropov o fez: um homem culturalmente sofisticado e aficionado por ópera ocidental e jazz. O Kremlin sempre soube que essa imagem exerce particular feitiço para o crédulo Ocidente.
    
Acredita-se que Gorbachev fora recrutado pela KGB no início dos anos 1950, quando estudava Direito na Universidade de Moscou, onde espionava seus colegas estrangeiros. Enquanto os arquivos da KGB permanecerem fechados, não poderemos saber de mais detalhes sobre esses anos da vida de Gorbachev. Mas sabemos que após concluir a Faculdade, ele entrou para a Lubyanka, a sede da defesa de Estado, onde viu sob a influência de Andropov. Ambos começara suas carreiras em Stravopol. Andropov conseguiu indicar Gorbachev para o Politiburo, e um biógrafo de Gorbachev chega a descrevê-lo como o “príncipe coroado” de Andropov.
     
Enquanto isso, a admiração do Ocidente pela glasnost de Ceauscescu ganhou tal vida própria, que não podia ser detida. Numa carta, datada de 27 de janeiro de 1983, escrita para Ceauscescu por ocasião de seu aniversário, o presidente Richard Nixon, a quem eu já tinha informado sobre a glasnost de Ceauscescu depois que desertei para os EUA, transbordava:
    
Desde que nos encontramos pela primeira vez e conversamos, em 1967, vi você crescer em estatura como Chefe de Estado. O seu vigor, a sua obstinação, a sua inteligência aguda, e especialmente a sua capacidade de agir habilmente, tanto interna como externamente, colocam-no na primeira linha dos líderes mundiais. Aos 65 anos a maioria das pessoas está pronta para se aposentar, mas para muitos dos maiores líderes os anos mais produtivos e satisfatórios ainda estão por vir. Estou certo de que seus melhores momentos virão na sua segunda década como presidente, na medida em que continue a seguir o rumo ousado, independente, qu estabeleceu para o seu povo.
    
O falecido Secretário de Estado Lawrence Eagleburger, por cujo anticomunismo convicto tenho alta estima, disse-me, em 1988, que Ceauscescu “pode ser louco em relação ao seu próprio povo, mas pode acreditar, general, será ele quem irá quebrar o bloco soviético”. Poucos meses depois, contudo, Ceauscescu foi executado por seu próprio povo ao fim de um julgamento, no qual a as acusações vieram, quase palavra por palavra do meu livro “Horizontes Vermelhos: a verdadeira História dos Crimes, Estilo de Vida e Corrupção de Nicolae Ceauscescu”.
    
Naquela época, no entanto, Washington e o Ocidente haviam mudado de simpatias. Agora era o homem do Kremlin, Mikhail Gorbachev, que era visto como um nascente democrata e vendido como um visionário político. Mas uma vez, a mídia ocidental parecia engolir a sua própria propaganda. A retórica de Gorbachev como “combinar valores comunistas” com “democracia ocidental introduzida desde cima” e “economia de livre mercado centralizada” cativou o mundo. Pilhas do livro “Perestroika: Novo Pensamento para o nosso País e para o Mundo” tomaram o lugar das memórias de Ceauscescu nas vitrines das livrarias.
    
Era coisa demais para as pessoas conseguirem guardar de memória.
    
Em dezembro de 1987, quando Gorbachev, foi a Washington, tive a sensação esquisita de déjà vuao assistir à reencenação da última visita oficial de Ceauscescu aos EUA, em abril de 1978. Eu havia preparado e dirigido aquela visita e, durante a sua encenação propriamente dita, também acompanhara Ceauscescu.
    
Para mim, os dois líderes comunistas eram formidavelmente semelhantes, tanto em aparência como em atos. Ambos eram de baixa estatura – como a maioria dos ditadores. Ambos trouxeram seus chefes de Inteligência Estrangeira consido, como faz maioria dos dirigentes comunistas. Ambos se gabavam de sua história e cultura nacionais, recitando poemas de famosos escritores de seus países.

Ambos eram tidos como fãs de filmes americanos. Ambos caminhavam por Washington com passo firme e braços a balançar, portando sorrisos bem abertos no rosto e idênticos ternos italianos, de corte conservador, impecáveis em seus corpos atarracados. Ambos escolheram vestir roupa de passeio no jantar de traje a rigor na Casa Branca – Ceauscescu sempre dizia que traje a rigor era o símbolo da decadência capitalista, uma opinião que me causou muita dor de cabeça com o protocolo ao longo de suas visitas.
    
Tanto Gorbachev quanto Ceauscescu acolhiam toda e qualquer oportunidade para fotos nos EUA, claramente a indicar que consideravam a mídia americana o meio mais eficiente de cultivar sua imagem internacional. A chegada de Gorbachev foi precedida de uma entrevista para a NBC, assim como a de Ceauscescu o tinha sido por uma para os jornais de Hearst.

Ambos se valeram publicamente de Washington para reafirmar sua devoção ao marxismo, embora ambos tivessem de reconhecer que seus sistemas comunistas passavam por graves problemas (tradução: Mandem Dinheiro). E ambos não tinham vergonha de fazer o Ocidente saber de sua determinação de permanecer no Poder até o fim de suas vidas.
    
Depois de cerimônias formais, assinatura oficial de documentos e a indispensável troca de jantares lautos, Gorbachev mais uma vez trilhou os passos de Ceauscescu, lançando seu feitiço sobre membros do Congresso e empresários americanos de destaque. Ambos os grupos foram freqüentemente úteis a déspotas estrangeiros.
    
Tanto Gorbachev como Ceauscescu vieram a Washington acompanhados de suas esposas, em ambos os casos um ato diplomático até então inédito. Ambas as primeiras damas eram elogiadas como intelectuais por seus méritos. Em Washington, os romenos divulgaram um estudo científico de Elena Ceauscescu, que na verdade tinha por ghost writer o meu DIE. Os soviéticos promoveram a divulgação da tese universitária de Raísa Gorbachev, chegando até a publicar excertos na imprensa americana.

Em sua quarta visita a Washington, Elena Ceauscescu pediu-me que lhe conseguisse um título acadêmico americano. Não foi fácil, mas consegui providenciar uma cerimônia na Blair House paa fazê-la membro honorário da Academia de Ciências de Illinois. Raísa Gorbachev retornou aos EUA em 1990 e foi honrada com uma graduação do Wellesley College amplamente noticiada. 
    
Próximo ao fim de suas visitas, ambos os líderes do bloco oriental tiveram um gostinho da democracia americana em ação. Ceauscecu teve de encarar os milhares de emigrantes romenos e húngaros, que cercaram sua residência no Waldorf Astoria Hotel, em NY, chamando-o de ‘drácula” por suas políticas domésticas ultramarxistas. Gorbachev teve de lidar com uma grande manifestação que cobrava o direito de os judeus emigrarem da URSS.

Essas confrontações fizeram momentaneamene com que ambos os líderes comunistas deixassem suas máscaras risonhas caírem, permitindo um vislumbre de seus dentes de aço. Ao fim, contudo, ambos recuperaram a simpatia do público americano, fazendo seus batedores pararem e mergulhando impulsivamente na multidão para dar apertos de mão.
    
Em retrospecto, era fácil perceber que tudo isso era produto de sofisticados especialistas em dezinformatsiya e de equipes de relações públicas, a empregar todas as suas seguras e enganadoras técnicas de enquadramento.
    
À época, entretanto, ambos os líderes eram tidos como pragmatistas modernos que mereciam ser apoiados. De fato, em muitos círculos acadêmicos e diplomáticos se acreditava que eles realmente estavam – e em profundidade – do lado da América. Argumenta-se que eles necessitavam do apoio dos EUA paa batalhas difíceis e iminentes com os “linha dura” de seus países.
    
Não quero dizer que o poderoso Gorbachev estivesse necessariamente tentando copiar Ceauscescu palavra por palavra e passo por passo, mas o estrondoso sucesso de Andropov como diretor de cena de Ceauscescu era certamente para Gorbachev algo a ser considerado. Parece particularmente significativo que Gorbachev, poucas semanas depois após seu retorno da viagem de 1987, de Washington para casa, discretamente tenha premiado Ceauscescu com a Ordem de Lenin, a mais ala condecoração do bloco soviético, apesar das marcantes diferenças públicas entre os os dois homens. Até onde sei, Ceauscescu foi o único líder do Leste Europeu a quem Gorbachev deu condecoração tão alta.
    
Notei uma única diferença fundamental entre as estratégias de Gorbachev e Ceauscescu para adular o Ocidente. Três meses após Ceauscescu deixar Washington, o chefe em exercício do seu Serviço de Segurança Estrangeiro – este que lhes escreve – recebeu asilo político nos EUA.
    
Esse acontecimento sacudiu a máscara risonha que Ceauscescu usaa em Washington e permitiu que as mais secretas obras de sua máquina glasnost de mentiras fossem postas sobre a mesa, à vista de todos. Do círculo mais próximo de Goarbachev ninguém havia ainda trazido para fora a verdade sobre os métodos de governo do último monarca soviético e sobre a sua ainda admirada glasnost.
    
No começo de 2001, Gorbachev ainda declarava publicamente que a sua glasnost – pela qual ganhou um Prêmio Nobel da Paz e foi escolhido ‘Homem da Década” pela revista Time – estava “levando o país para longe do estado totalitário e em direção da democracia, à liberdade, à abertura. Em março de 2002, contudo, a ex-Primeira Ministra Margaret Thatcher, que notavelmente apoiara a glasnost na década de 1980, lançara a primeira dúvida sobre Gorbachev. Ela admitiu que “o papel de Mikhail Gorbachev, que fracassou completamente em seu objetivo declarado de salvar o comunismo e a União Soviética, foi absurdamente mal compreendido”.  

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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