terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Marambondo


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por H. James Kutscka

O pequeno objeto voador não identificado passou voando velozmente ante meus olhos em direção à parede de tijolos brancos ao lado de minha cama onde sentado tirava minhas calças preparando-me para dormir.

Como provavelmente ocorre à maioria das pessoas não me agrada dormir com desconhecidos no mesmo quarto, principalmente insetos.

Rapidamente descobri o intruso pousado embaixo da aba protuberante de uma estante dupla onde guardo livros.

Era um marimbondo.

Como estava em minha casa de campo não era muito de estranhar, muitas vezes pequenas borboletas eram encontradas na parede atraídas pela luz do abajur no criado mudo.

Estas eram mais letárgicas e eu conseguia com delicadeza retirá-las de onde estavam e soltá-las fora de casa, onde pousariam em algo na escuridão e esperariam o dia amanhecer, talvez o último de suas efêmeras vidas, mas em liberdade.

Também se no meu quarto ficassem dificilmente poderiam fazer algum mal, o tempo que passo por aqui todo final de semana ha mais de 25 anos me fez entendê-las.  Uma vez apagada a luz ficam onde estão até o dia seguinte.

No entanto na parede estava um marimbondo que poderia querer fazer de meu ouvido, ou narina, sua casa, com consequências imprevisíveis, quando eu apagasse a luz. 

O medo está na raiz de todo mal.

Uma atitude mais definitiva havia de ser tomada diante a potencial ameaça, sem os escrúpulos do que seria politicamente correto para com o meio ambiente.

Assim peguei um de meus tênis ao pé da cama e sorrateiramente me aproximei de minha futura vítima. Na qual com todo cuidado apliquei uma pancada seca a semelhante a que se dá com um taco de bilhar na bola branca quando queremos que ela pare no lugar onde tocou seu alvo. Não queria sujar a parede nem a sola de meu tênis.

O objeto e meu ataque caiu duro e preto no piso de lajota embaixo da estante entre o tapete e a parede.

Alvo obtido com absoluto sucesso. Nenhuma mancha na parede nem no solado do tênis.

Podia, se não por respeito até por higiene ter imediatamente retirado   o cadáver de meu quarto, mas por preguiça, (sempre ela) deixei as exéquias para o dia seguinte. 

Terminei de tirar minha calça (ato interrompido pela chegada do intruso), coloquei-a sobre a bolsa que costumo deixar do lado da cama encostada à parede entrei embaixo das cobertas li um pouco e logo adormeci.

Na manhã seguinte evidentemente não lembrei do marimbondo. Ao vestir minha calça para ir tomar o café da manhã senti algo queimar a parte de trás de minha coxa esquerda.

Passei a mão sobre o tecido da calça e detectei uma protuberância pequena a qual detive entre os dedos enquanto tirava minha perna com uma mancha vermelha ardendo no lugar do ataque.

Durante a noite o marimbondo provavelmente mortalmente ferido se arrastara até minha calça, entrara pela perna, se escondera em uma dobra qualquer do tecido grosso de sarja e esperara pacientemente pela oportunidade de vingança, a qual iria lhe custar o que restava de sua vida, já que o esmaguei de maneira definitiva entre meu polegar e indicador na dobra onde e se abrigara tão pronto constatei ser ele a tal protuberância,

Retirei da minha perna que arde até o momento em que escrevo esse relato, o ferrão preto que se sobressaia entre os pelos  em  meio um círculo vermelho.

Esse claramente não era um marimbondo qualquer, com sua bravura e obstinação ganhou meu respeito. Por isso, e somente por isso, rendo minha homenagem a esse inimigo que não se intimidou diante  do tamanho de seu oponente.

Seu espírito deve estar nesse momento no Valhalla dos marimbondos.
Skol!

Se povo de nosso pais oprimido e levado quase à morte pela classe política tivesse a metade da perseverança  deste  marimbondo, poderíamos dar  a eles um pouco  de  seu próprio remédio.

Saúde!


H. James Kutscka é Escritor e Publicitário.

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