domingo, 17 de dezembro de 2017

Os sem-terra perante a História – uma entrevista


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja                    

Entrevista de Carlos Ilich Santos Azambuja ao jornalista Sandro Guidalli no início do primeiro mandato do governo Dilma

PERGUNTA: Paira no ar a impressão de que, finalmente, o MST decidiu escancarar seus propósitos que passam longe da realização de uma reforma agrária e culminam na transformação do Brasil numa imensa Cuba. Como o sr. analisa as últimas declarações do JP Stédile, convocando seu "exército" para a guerra contra os produtores rurais?

RESPOSTA: Stedile é  um boquirroto. Passou à arrogância desenfreada desde quando se sentiu apoiado por movimentos internacionais, ONGs estrangeiras, e depois  pelo ministro da Reforma Agrária e pelo presidente do INCRA, seus   companheiros de partido. Mas não me surpreende.

Um pouco de história: o MST foi constituído, em janeiro de 1984, em Cascavel, Paraná, com base em uma série de princípios. Alguns merecem ser recordados para que possamos entender o que hoje está acontecendo: lutar por uma sociedade sem explorados e sem exploradores; acabar com o capitalismo, implantando em seu lugar uma sociedade justa e solidária; articular-se com os   trabalhadores das cidades e com os camponeses dos demais países da América Latina; desenvolver formas massivas de pressão, articuladas com outras formas de luta; fazer com que o acesso à terra seja obtido por meio de pressão e de luta;  e formar quadros, em todos os níveis, para garantir a resistência de massa nas terras conquistadas.

Com base nesses princípios, seguidos durante em todos estes anos sem que a sociedade e os governos se dessem conta, hoje é um segredo de polichinelo que o objetivo final do MST é a transformação e 
ultrapassagem (termo gramsciano que passou a ser utilizado pela esquerda marxista-leninista após o desmantelamento do socialismo real, como sinônimo de derrubar) da sociedade capitalista.

Para atingir esse fim, vem impondo como objetivos táticos a invasão e ocupação de terras em todos os Estados, a organização do modo socialista de produção nas terras
conquistadas, a educação socialista dos militantes assentados, e a ininterrupta formação de quadros nos moldes marxistas-leninistas, tanto no Brasil como em Cuba.

Para isso, o MST possui um número não conhecido de militantes profissionalizados. Isto é, militantes, como o senhor Stédille, que recebem salário, embora não trabalhem na terra e nem peguem na enxada. Militantes que sobrevivem de uma profissão que se supunha extinta após o furacão que desmantelou o socialismo real: a agitação social.

As últimas declarações do senhor Stédille, convocando seu 
“exército” para a guerra contra os produtores rurais, ou seja, para formas de luta mais avançadas, segundo o jargão marxista, insere-se e é um capítulo da estratégia do MST.

PERGUNTA: Do ponto de vista histórico, movimentos revolucionários como o dos Sem-Terra costumam encontrar resistência? O sr. acredita que a inércia do atual governo, simpático à causa do MST, acabará por fortalecer o movimento a ponto de conflagrar uma guerra civil no país?

RESPOSTA: Seguramente. Acredito que o que o senhor chama de inércia dos governos do PT irá até um determinado ponto de saturamento, depois do qual, ou o governo opta por manter a Lei e a Ordem, ou então não haverá volta dentro da normalidade constitucional. Essa é uma opinião pessoal baseada no passado recente do Brasil e de outros países da América Latina.

PERGUNTA: Agora do ponto de vista do Exército brasileiro.  São duas as questões  para as quais peço resposta:  os Serviços de Inteligência estão funcionando no sentido de ajudar o governo a se defender do MST ou estão todos trabalhando tendo o MST completamente fora do seu raio de estudo e exame? A outra questão é do ponto de vista bélico. O sr. acha que o Exército tem condições de enfrentar uma revolução armada no Brasil?

RESPOSTA: Não posso falar pelo Exército brasileiro e nem possuo dados para responder a essa pergunta. Mas, como no passado, em diversas outras situações, que o MST não se engane, pois  acredito que certamente não estará fora do raio de ação e análise dos Órgãos de Inteligência nacionais.
Respondendo à outra pergunta, o MST não tem condições, no momento, de contrapor-se a uma possível ação constitucional que venha a ser determinada por quem de direito – a presidente da República.
PERGUNTA:  O sr. é um estudioso da questão agrária. Neste contexto em que nos encontramos, o que significa a presença da Via Campesina na organização de acampamentos no Sul do país? Outra pergunta embutida nesta: qual o grau de interlocução internacional do MST? Quem o financia do Exterior?

RESPOSTA: A presença da Via Campesina (“movimento internacional que coordena organizações camponesas de médios e pequenos agricultores, de trabalhadores agrícolas, mulheres e  comunidades indígenas da Ásia, África, América e Europa), segundo o seu site na Internet) no Brasil, inclusive com coordenações regionais, organizando acampamentos em apoio aos sem terra, com seus membros dando entrevistas à imprensa, etc, é um escárnio e, esse sim, um perigoso precedente, pois, com razão, abre caminho para que outras organizações internacionais, ou de outros países, como as FARC, por exemplo, passem a atuar no Brasil sob a cobertura de estarem apoiando os sem terra.

Finalmente, o grau de interlocução internacional do MST é vasto. Além de filiado à Via Campesina, onde um de seus coordenadores nacionais é também membro da Coordenação da Via Campesina, é também filiado à CLOC (Confederação Latino-Americana de Organizações Camponesas), recebe dinheiro do exterior sem ter que prestar contas a ninguém, como se viu em uma recente reportagem que abordou a construção de uma Escola de Formação de Quadros do MST em Guararema, São Paulo, com capacidade para 400 alunos. Para esse empreendimento, cujo valor está estimado em cerca de 7 milhões e 300 mil reais, o MST – entidade juridicamente inexistente – recebeu dinheiro da Caritas alemã e da ONG francesa Frères des Hommes. Algumas outras ONGs estrangeiras também financiam o MST por considerá-lo, ingenuamente, um movimento social. 

PERGUNTA: Se o sr. pudesse prever os acontecimentos, qual cenário arriscaria para daqui a um ano?

RESPOSTA: Se eu tivesse o dom de prever os acontecimentos, diria que o cenário para   daqui a um ano, caso nada venha a ser feito para frear a ânsia do MST,  não pela terra, mas por toda a terra, é catastrófico, a menos que a presidente da República cumpra a promessa feita em 1998 por Luiz Inácio Lula da Silva que a elegeu: “Com uma  canetada só vou resolver o problema da reforma agrária no Brasil” (Folha de São Paulo de 2 de junho de 1998).

Carlos I. S. Azambuja é Historiador. 

Um comentário:

jomabastos disse...

Infelizmente o MST estão legais perante a atual Constituição e politicamente estão servindo o comunismo do Foro de São Paulo, apoiado essencialmente pela Rússia, mas também pela China.
O atual governo do Temer, nada fez para alterar este apoio constitucional aos movimentos comunistas de ocupação de terras. Esta é uma das razões porque necessitamos de uma nova Constituição pró-liberal e anti-comunista e não de uma Constituição simplesmente reformada.
Existem ONG`s apoiando os MST, mas os apoios são na vertente social como fazem em tantos países pelo mundo. Mas têm que ser apresentados projetos devidamente legalizados e mais tarde devidamente fiscalizados por os respetivos doadores.
Os MST aproveitam-se das grandes fraquezas governamentais e da escassez de políticas para a agricultura familiar, saneamento básico, saúde e uma falta notória de investimento na qualidade educacional. São estas debilidades, a sede de força do poder político e a corrupção, que dão força ao comunismo.