segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

O Drible das Palavras


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Renato Sant’Ana

Quem escreve fala ao leitor. Às vezes, de modo oblíquo, com o principal disfarçado de acessório nas entrelinhas, driblando a crítica do leitor. Eis um "aviso" útil à análise do que escreveu Juremir Machado no Correio do Povo (09/01/18) sobre o julgamento de Lula.

Ele tem três objetivos principais. O primeiro é acusar a Operação Lava Jato (no todo) e o julgamento (em particular) de ser um golpe para impedir a candidatura de Lula. Começa pela escolha do título: "Primeiro turno no TRF-4". E linhas abaixo: "Se depender do presidente da casa, não precisa nem esperar o julgamento. Pode mandar prender Lula agora mesmo." Quer dizer, comandados pelo presidente do TRF-4, Carlos Eduardo Thompson Flores Lenz, conspiradores atropelam a lei para realizar um artificial primeiro turno de 2018 e derrotar Lula.

O segundo é reduzir a instituição a figura fundo e pôr as pessoas como figura centro: "João Pedro, Leandro e Victor, que um dia foram nomes de meninos numa chamada escolar, são agora Gebran Neto, Paulsen e Laus", ou seja, três pessoas comuns agora "empoderadas" (na infame expressão
criada pelo politicamente correto), as quais poderão "impor" sua opinião
privada contra a vontade de uma (FALSA!) maioria que quer Lula de volta.

Para os três, diz Machado, este janeiro do julgamento será o "mês mais importante das suas vidas". E o processo "vai ligá-los para sempre à figura do petista" (hipótese de agirem regidos pela vaidade). Ele afasta a noção de que desembargadores podem (e devem) transcender o autointeresse e incorporar a função institucional (o sistema é maior que o agente); e fortalece a fantasia de que magistrados são potestades com o destino do vivente nas mãos. Talvez ele não pense desse modo. Mas é o que diz, reforçando a percepção do leitor desinformado que enxerga os juízes como atores (ninguém dirá que nunca é assim) distanciados da lei e guiados pelos próprios sentimentos.

Fulanizar o processo judicial alimenta a equívoca crença em que pessoas agem exclusivamente por si, a despeito das instituições: "Fico pensando no que pensam esses homens de meia idade enquanto examinam os documentos que lhes permitirão decidir o futuro do Brasil. Sim, esses três senhores que andam por nossas ruas, comem em nossos restaurantes, enfrentam nossos calores de verões tórridos e contemplam as águas do nosso Guaíba, vão decidir o primeiro turno das eleições de 2018", escreveu.

O terceiro objetivo é manter a versão criada pelos profetas do lulopetismo, isto é, a de que não há provas contra Lula. "Sou também fanático pelo conceito de prova", diz ele. E relembra Agripa, o cético, "que perguntava o que prova que uma prova é uma boa prova?" E a essa inteligente indagação, ele responde com malícia de advogado: boa prova são "as malas de dinheiro com as impressões digitais de Geddel Vieira Lima." Certo. Se não há impressões digitais de Lula ou recibo das propinas que recebeu, então prova boa não há. Mas alguém passará recibo de coisa ilícita? O argumento equivale ao do rábula cuja esperança é que o juiz julgue com a testa, não com a lei; e que essa testa seja mole - princípio do "se pegar, pegou".

Juremir Machado é inteligente e simpático. Ao lê-lo, ouve-se a ironia sorridente e debochada com que fala de manhã na Rádio Guaíba. Mas, como negar? Sua coluna é um panfleto. Evitando expressões categóricas e camuflando afirmações em perguntas, ele joga com imagens mentais do leitor e dissemina a falácia do golpe, incrementando a "paranóia induzida" segundo a qual não existe um sistema jurídico vigendo, só um golpe que justifica outro golpe, o bolivariano. É para o leitor esquecer que há um réu condenado a nove anos e meio de cadeia por corrupção e lavagem de dinheiro.


Renato Sant'Ana é Psicólogo e Bacharel em Direito.

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