quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Tem culpa a Petrobrás?


Edição do Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Jorge Serrão - serrao@alertatotal.net

A paciência dos investidores tupiniquins está mais curtinha que o shortinho da Anitta. Os norte-americanos vão levar R$ 9,6 bilhões de indenização da Petrobras para encerrar a ação judicial coletiva na Corte de Nova York. Tudo será pago em três parcelas até 15 de janeiro de 2019. O valor é 6,5 vezes superior à quantia de R$ 1,475 bi que a empresa recuperou até agora da Lava Jato. A petrolífera ainda espera receber R$ 41 bilhões em 59 ações movidas contra os “ladrões” e “corruptos” que lesaram a “estatal de economia mista”.

Agora, a Petrobrás terá de resolver com investidores daqui um problema que não é judicial: a arbitragem liderada pelo escritório do advogado Modesto Carvalhosa e movida na Bolsa de Valores. A tendência é que a petrolífera também aceite fechar um acordo bilionário. O grande desafio será resolver uma contradição: como irá se portar o presidente da empresa, Pedro Parente, que também é membro do conselho de Administração da B3 (fórum legal, estatutário, para resolver encrencas entre a estatal e seus investidores).

Não tem conflito de interesses nessa parada? É uma dúvida gerada pelo modelo Capimunista tupiniquim... Outro questionamento de resposta nada fácil: a Petrobrás é vítima ou tem culpa ela em todos os escândalos bilionários de corrupção sistêmica desnudados pela Lava Jato? Uma certeza é que o modelo estatal brasileiro é o grande responsável direto pela sacanagem. Por isso, judicialmente falando, investidores ainda apostam que cabe uma Ação Civil Pública para obter uma resposta certa, justa e perfeita, além das indenizações cabíveis aos investidores, empregados, aposentados, pensionistas e (por que não?) cidadãos lesados pela roubalheira na Era PT/PMDB e demais comparsas.

Inocentar o desgoverno e a Petrobrás não é tarefa fácil. Como é possível perdoar uma administração federal e a direção de uma empresa que permite ter como conselheiro de administração, durante oito anos, alguém como Guido Mantega? Talvez tal distorção explique por que a Comissão de Valores Mobiliários – fiscal do mercado de capitais – não tenha agido com a devida eficiência para punir evidentes crimes societários praticados por dirigentes da petroleira. A contradição é simples: Como é que a CVM poderia punir o Ministro da Fazenda a quem está burocraticamente subordinada? Deve ter sido por isso que alguns dirigentes da Petrobrás acabavam punidos apenas com multas – que acabavam pagas pela seguradora da estatal (ligada ao Banco Itaú)...

Enquanto não se tira a duvida sobre a culpa ou inocência, uma coisa é certa: o otário do consumidor brasileiro paga a caríssima conta da roubalheira sistêmica. Todo mundo que para o carro para abastecer no posto se lembra disso. Pior ainda é ouvir a esfarrapada desculpinha oficial de que os combustíveis andam tão caros por culpa da alta no mercado internacional...

O depauperado Presidente Michel Temer e seus aliados próximos estão adorando o problema. Afinal, a opinião pública emputecida com a Petrobrás só ajuda o plano manjado da privataria. A União Federal – controladora acionária da Petrobras – prepara um megaprograma de venda de ativos em 2018. As “justificativas”? Privatizar para cobrir rombos e para impedir novos “roubos”... Assim, as maiores petrolíferas do planeta só esperam a hora da compra dos ativos a preços de “oportunidade e ocasião”...

Fechando-se os grandes negócios favoráveis á Oligarquia Financeira Transnacional a contrapartida será imediata: o grupo apoiado e liderado por Michel Temer conseguirá o milagre de eleger o futuro ocupante do trono do Palácio do Planalto. Como a impopularidade impede uma reeleição temerária, o “nome alternativo” é Henrique Meirelles. O poderoso Ministro da Fazenda tem toda chance de realizar seu sonho de presidir o Brasil, com todo apoio do Poder Real Globalitário.

A mídia amestrada, que tende a apoiar Meirelles facilmente, mesmo fazendo o habitual joguinho de (falsa) isenção, está feliz da vida. Por isso, está na torcida para que a Petrobrás volte a cumprir sua habitual vocação: a de lucrar muito produzindo petróleo, para que volte irrigar os cofres midiáticos com generosos patrocínios para veículos de comunicação e grandes eventos por eles pilotados.

Como a Lava Jato não focou – ou não teve competência técnica – para apurar crimes societários, torna-se inútil a resposta para a pergunta pornográfica: “Tem culpa a Petrobras”?

Os “donos do poder” não querem saber da resposta. O objetivo estratégico deles é apenas manter o Brasil na mesma “normalidade institucional” de sempre... Por isso, o melhor negócio é eleger Meirelles (ou qualquer outro fantoche do globalitarismo)...

A situação do Brasil é mais preocupante que o tamanho do botão do Donald Trump ou do Kim Jong-un – que faz aniversário no próximo dia 8 de janeiro... Quem tem botão nuclear, não importa o tamanho, tem soberania... Quem não tem vive com o outro botão apertadinho... É a vida...


Vida que segue... Ave atque Vale! Fiquem com Deus. Nekan Adonai!


O Alerta Total tem a missão de praticar um Jornalismo Independente, analítico e provocador de novos valores humanos, pela análise política e estratégica, com conhecimento criativo, informação fidedigna e verdade objetiva. Jorge Serrão é Jornalista, Radialista, Publicitário e Professor. Editor-chefe do blog Alerta Total: www.alertatotal.net. Especialista em Política, Economia, Administração Pública e Assuntos Estratégicos. 
A transcrição ou copia dos textos publicados neste blog é livre. Em nome da ética democrática, solicitamos que a origem e a data original da publicação sejam identificadas. Nada custa um aviso sobre a livre publicação, para nosso simples conhecimento.

© Jorge Serrão. Edição do Blog Alerta Total de 4 de Janeiro de 2018.

3 comentários:

Loumari disse...

Brahma Chellaney 31 de dezembro de 2017

O imperialismo credor da China

Assim como os poderes imperiais europeus empregaram a política da canhoeira para abrir novos mercados e entrepostos comerciais, a China usa a dívida soberana para fazer com que outros Estados se curvem à sua vontade, sem ter de disparar um único tiro.

Neste mês de Dezembro, o Sri Lanka, incapaz de pagar a sua onerosa dívida à China, entregou formalmente o seu porto de Hambantota, com uma localização estratégica, ao gigante asiático. Foi uma grande aquisição para a Iniciativa "Uma Faixa, uma Rota" (Belt and Road Initiative, BRI) – que o presidente Xi Jinping chama de "projecto de um século" – uma prova de como pode ser eficaz a diplomacia da armadilha da dívida da China.

Ao contrário dos empréstimos do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, os empréstimos chineses têm como colaterais importantes activos nacionais com elevado valor a longo prazo (ainda que tenham uma fraca viabilidade comercial no curto prazo). Por exemplo, Hambantota estende-se pelas rotas comerciais do Oceano Índico, que ligam à Europa, à África e o Médio Oriente à Ásia. Em troca de financiamento e da construção de infra-estruturas em países pobres que precisam, a China exige acesso favorável aos seus activos naturais, desde recursos naturais a portos.

Além disso, e como a experiência do Sri Lanka demostra fortemente, o financiamento chinês pode manietar os países "parceiros". Em vez de oferecer subsídios ou empréstimos com condições especiais, a China concede empréstimos elevados para a realização de projectos, aplicando taxas de mercado, sem transparência, muito menos avaliações de impacto ambiental e social. Como o secretário de Estado dos Estados Unidos, Rex Tillerson, disse recentemente com o BRI a China tem o objectivo de definir "as suas próprias regras e normas".

Para fortalecer ainda mais a sua posição, a China encoraja as empresas a apresentar candidaturas para a compra definitiva de portos estratégicos, em locais onde isso seja possível. O porto mediterrânico de Piraeus, que uma empresa chinesa comprou por 436 milhões de dólares a uma Grécia sem dinheiro, em 2016, vai servir como a "cabeça do Dragão" na Europa.

Ao exercer o seu poder financeiro desta forma, a China procura matar dois coelhos com uma cajadada só. Em primeiro lugar, quer abordar o excesso de capacidade doméstica ao impulsionar as exportações. E, em segundo lugar, espera avançar com os seus interesses estratégicos, incluindo a expansão da sua influência diplomática, garantir recursos naturais, promover o uso internacional da sua moeda e ganhar uma vantagem relativa sobre outras potências.

A abordagem predadora da China – a sua soberba ao garantir Hambantota – é irónica, no mínimo. Nas suas relações com países mais pequenos como o Sri Lanka, a China está a replicar as práticas usadas contra si no período colonial europeu, que começou com a Guerra do Ópio, de 1839-1860, e que terminou em 1949 com o domínio comunista – um período ao qual a China amargamente se refere como o seu "século de humilhação".

Continua

Loumari disse...

A China retratou a restauração da sua soberania sobre Hong Kong, em 1997, após mais de um século de administração britânica, como a correcção de uma injustiça histórica. Ainda assim, e como demostra Hambantota, a China está a agora a criar os seus próprios acordos neocoloniais ao estilo de Hong Kong. Aparentemente, a promessa de Xi Jinping de um "grande rejuvenescimento da nação chinesa" é indissociável da erosão de soberania por parte de pequenos Estados.

Assim como os poderes imperiais europeus empregaram a política da canhoeira para abrir novos mercados e entrepostos comerciais, a China usa a dívida soberana para fazer com que outros Estados se curvem à sua vontade, sem ter de disparar um único tiro. Tal como o ópio que os britânicos exportaram para a China, os empréstimos fáceis que a China concede são viciantes. E, dado que a China escolhe os seus projectos de acordo com o seu valor estratégico de longo prazo, estes projectos podem gerar, no curto prazo, retornos que são insuficientes para as estes países pagarem as suas dívidas. Isto dá à China uma vantagem que pode ser usada, digamos, para obrigar os países que pediram empréstimos a trocar dívida por capital e, por conseguinte, a China expande a sua pegada mundial ao reter um número crescente de países na servidão da dívida.

Mesmo os termos do acordo de locação, por 99 anos, do porto de Hambantota reflecte os termos que eram usados para obrigar a China a alugar os seus próprios portos às potências coloniais ocidentais. O Reino Unido arrendou os Novos Territórios à China, por um período de 99 anos em 1898, fazendo com que a massa territorial de Hong Kong se expandisse em 90%. Ainda assim, os termos do acordo de 99 anos foi fixado meramente para ajudar a dinastia Qing, da etnia Manchu, a salvar a face; a realidade era que se acreditava que todas as aquisições seriam permanentes.

Agora, a China está a aplicar o conceito imperial de arrendamento por 99 anos em terras distantes. O acordo de locação sobre Hambantota, concluído este verão, inclui a promessa de que a China cortaria em 1,1 mil milhões de dólares a dívida do Sri Lanka. Em 2015, uma firma chinesa expôs um contrato, com validade por 99 anos, no porto australiano de Darwin, que é de águas profundas – casa de mais de mil marines norte-americanos – por 388 milhões de dólares.

De forma semelhante, e depois de ter emprestado milhares de milhões de dólares ao altamente endividado Djibouti, a China criou este ano a sua primeira base militar no estrangeiro neste pequeno - mas estratégico - Estado, ficando apenas a algumas milhas da base militar norte-americana – a única estrutura militar permanente dos EUA em África. Preso numa crise de dívida, o Djibouti não teve alternativa a não ser arrendar terra à China por 20 milhões de dólares por ano. A China usou também a sua vantagem sobre o Turquemenistão para assegurar que recebe gás naturas através de um pipeline, algo que acontece sobretudo de acordo com os termos chineses.

Vários outros países, da Argentina à Namíbia e ao Laos, foram ludibriados pela armadilha da dívida da China, o que os obrigou a fazer escolhas agonizantes para evitar o incumprimento. A elevada dívida do Quénia à China ameaça agora transformar o seu movimentado porto de Mombasa – porta para a África Oriental – em outro Hambantota.

Estas situações deveriam servir de aviso para o facto de o BRI ser essencialmente um projecto imperial que visa dar viabilidade ao mítico Reino do Meio. Os estados apanhados na servidão da dívida arriscam-se a perder para a China os seus activos naturais mais valiosos e a sua soberania. A luva de veludo deste novo gigante imperial esconde uma mão de ferro – uma mão que tem força para espremer a vitalidade de pequenos países.

Brahma Chellaney, professor de Estudos Estratégicos no Centro de Pesquisa Política em Nova Deli e membro da Academia Robert Bosch em Berlim, é autor de nove livros, incluindo Asian Juggernaut, Water: Asia’s New Battleground, e Water, Peace, and War: Confronting the Global Water Crisis.

Kozel® disse...

B3...,Serrão ,sério?