quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Feito um Viaduto...


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Paulo Roberto Gotaç

"Caía a tarde feito um viaduto/E um bêbado trajando luto me lembrou Carlitos".

Quem não se lembra destes versos que compõem o poema de um dos maiores sucessos da música popular brasileira, "o bêbado e a equilibrista", assinado pelos notáveis João Bosco e Aldir Blanc e imortalizado pela inesquecível interpretação de Ellis Regina? 

Lançada em 1978, a letra homenageava Charlie Chaplin, falecido no ano anterior. Exalava forte aroma político, com crítica aberta ao regime militar vigente que, segundo os autores, fora responsável pela repressão que atingiu artistas e intelectuais da época. 

O viaduto citado é o Elevado Paulo de Frontin. Em 1971, ainda em construção, desabou sob o peso de um caminhão de concreto, tendo a perícia determinado que a causa foi a abertura de janelas de inspeção na estrutura. 48 pessoas foram soterradas, das quais 29 morreram, e vários veículos esmagados, parados no sinal de trânsito localizado abaixo de onde ocorreu o desastre. Foi um dos mais trágicos e impactantes da cidade do Rio de Janeiro em toda sua história. 

De lá para cá ocorreram outros acontecimentos, uns mais, outros menos divulgados, envolvendo quedas de lajes e de edificações, como o Edifício Palace II, em 1998, construído, apurou-se mais tarde, com material inadequado e fora das especificações, pela construtora Sersan, de propriedade do então deputado federal, já falecido, Sérgio Naya (PPB - MG), na Barra da Tijuca, no Rio, com oito vítimas fatais e  pulverização de sonhos de várias famílias. 

Mais recentemente, em 2014, durante a copa do mundo, a do 7 x 1,  o país foi surpreendido com a notícia da vinda  abaixo do Viaduto Guararapes, na região norte de Belo Horizonte, que resultou na morte de duas pessoas e ferimentos em 23. 

Há poucos dias, o noticiário deu conta do desabamento de uma seção do viaduto do Eixão de Brasília que danificou veículos e um restaurante, felizmente sem vítimas fatais, sinistro justificado pelo Governador do DF pelo "envelhecimento" da cidade, embora se tenha constatado falha na manutenção, sem que nem a atual administração, nem as anteriores tenham admitido o deslize, tendo todos os consultados garantido que cumpriram com suas obrigações regulamentares. 

Edifícios e pontes desabam em qualquer lugar do mundo mas a frequência de tais acontecimentos nas últimas décadas por aqui, atingindo construções relativamente "jovens" apesar da estranha declaração do Sr. Rodrigo Rollemberg (PSB), governador atual do DF,  aponta em duas direções determinantes das causas fundamentais: 

a) a qualidade da engenharia brasileira é inferior, hipótese pouco provável pois ela já demonstrou que, quando os empreendimentos que lhe cabem são devidamente administrados, rivaliza com as melhores do mundo. 
Ou

b) o que domina no decorrer das obras públicas é o pragmatismo criminoso em busca de votos, a corrupção  e o descaso com o interesse geral, típicos de nossos políticos e legisladores. 

Os fatos da atualidade permitem concluir que o segundo cenário é infinitamente mais provável. 


Paulo Roberto Gotaç Capitão de mar e guerra reformado. 

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