sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

"Teatro de operações ou operações de teatro?”


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Jorge Pontes

Essa medida do Temer – intervenção na segurança do Rio de Janeiro – é, grosso modo, uma reedição do Plano Cruzado, na área de segurança pública (o Cruzado foi o plano econômico de José Sarney).

O Presidente Temer sabe que não vai dar certo, que não se sustenta, mas o objetivo é manter a popularidade em níveis aceitáveis até as eleições. Está jogando o jogo do Sarney (são da mesma escola).

Esse plano não é sustentável pois não estão sendo projetadas medidas para médio e longo prazo, de mudança de paradigmas e do arcabouço legal. Mas a população vive disso, de ter esperança.

Não culpo o Exército pois é uma instituição hierarquizada e cumpridora de missão. Tenho certeza de que os militares farão o melhor pois são extremamente profissionais.

Mas sem mudança na Lei, que autorize os policiais e soldados abaterem – sem risco de reprimendas para si próprios – os criminosos que portam fuzis, o plano não poderá prosperar. Sem ampliar as medidas para além da repressão cairemos no mesmo problema das UPP’s.

Temos também que enfrentar com mais coragem a discussão da descriminalização das drogas.

Outro objetivo do plano é o esvaziamento da popularidade do deputado Bolsonaro – que só sabe falar de segurança. Ao intervir no Rio com as Forças Armadas, Temer deixa Bolsonaro sem discurso – pelo menos até às eleições.

O pior de tudo é que temos um cenário anacrônico, em que o CRIME INSTITUCIONALIZADO – cometido pelo andar de cima da política brasileira – se mostra disposto a combater o CRIME ORGANIZADO das favelas e das ruas, em suma, os bandidos mequetrefes cuja ação inferniza a vida do cidadão e que recrudesceu exatamente por conta da omissão criminosa dos chefes da DELINQUÊNCIA INSTITUCIONALIZADA.

Os políticos aproveitam muito a existência desse crime de rua, que cria uma urgência em ser combatido, pois isso distrai a atenção da sociedade, desfocando do que há de mais importante: eles próprios, os criminosos políticos que são responsáveis por absolutamente TUDO que está aí.
Não tenho dúvidas de que a omissão foi sempre proposital. Eles deixam que se crie e que se fortaleça a figura do inimigo público número um (a bandidagem dos morros), para que a sua boiada de corrupção passe incólume por outro lado, despercebida pela sociedade – desatenta diante de tantas ameaças.

Para terminar, o pior: o Presidente da República não tem credibilidade nem envergadura moral para liderar qualquer plano dessa natureza. Em ano eleitoral essa intervenção pode ser um engodo, uma forma de se salvar nas urnas em outubro. Vamos torcer para que produza resultado e que não seja mais um voo de galinha promovido por esses políticos enganadores.


Jorge Pontes é Delegado de Polícia Federal e foi Diretor da Interpol no Brasil.

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