terça-feira, 20 de março de 2018

Dois modelos na Educação



Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Hélio Duque

Na “copa do mundo” da formação dos estudantes brasileiros, nossa classificação é deplorável. O Banco Mundial oficializou relatório em que faz o comparativo do nível educacional brasileiro e dos países desenvolvidos. Dedicado à educação mundial, o World Development Report destaca a existência de crise de aprendizado no país. Em Leitura, para atingir o padrão dos países desenvolvidos, o tempo previsto (a continuar o atual cenário educacional) será de 260 anos. Em Matemática o tempo previsto será de 75 anos. São jovens que não entendem o que leem e outros não sabem fazer contas.

O Banco Mundial utilizou o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que mede o nível educacional até 15 anos. A prioridade é a discussão da qualidade da educação básica para indicar políticas nacionais de melhoria da educação. No caso brasileiro os indicadores são desalentadores. A raiz do problema foi bem diagnosticado pelo professor Marcelo Viana: “A cultura nacional não privilegia a educação. A formação docente é deficiente, não valorizamos o professor e a sociedade acha razoável que ele tenha salários entre os mais baixos do país, ao contrário de outros países.

No Japão, o “sensei” (mestre) é o único profissional que não precisa se curvar diante do Imperador. A revolução educacional foi pilar básico da Era Meiji (1884) que sepultou o Japão feudal garantindo a todos o direito à educação. Após a II guerra mundial (1945), para incentivar a docência com sólida formação pedagógica, o governo decretou que os professores ganhariam 30% a mais do que outros funcionários do estado. Hoje, no início de carreira do ensino fundamental, o salário médio anual é de 26.031 dólares, aumentando ao longo do tempo pelo trabalho e experiência chegando a 57.621 dólares. Os professores estão entre os servidores públicos mais bem remunerados.

Na Finlândia, com exigente formação prática e teórica, o professor está à frente de carreiras tradicionais como engenharia, medicina e direito. O professor finlandês Martti Mery retrata essa realidade: “O magistério na Finlândia é carreira de prestígio. A profissão possui alto status em nossa sociedade, que tem grande respeito e consideração pelos professores”. Um professor primário ganha 3.132 euros, por mês; no ensino médio 3.832 euros; e, docentes universitários ganham mensalmente 4.109 euros. Comparativamente o diretor-executivo de uma grande empresa, em média, ganha 6.775 euros. Os dados são do Projeto Escandinávia, de autoria da educadora Claudia Wallin, de Helsinque.

No Brasil a realidade educacional é oposta, regredindo nos últimos anos. Até os anos de 1970, a estrutura educacional secundária se baseava em três estágios: o curso primário era de 5 anos. Ao seu final fazia-se prova de admissão ao ginásio que tinha duração de 4 anos. E mais 3 anos nos cursos clássico ou científico. O ingresso na universidade era através vestibular com provas escritas e orais (nos cursos de humanidades). Com a reforma MEC-Usaid, na década de 70, introduziu-se em nome da modernidade o caótica sistema educacional que prevalece nos dias atuais. Educador e fundador da Universidade de Brasília, Darcy Ribeiro, constatou: “A crise da educação no país não é uma crise, mas um projeto”.

A dissimulação no ensino brasileiro fez dos alunos e professores vítimas. A escola é a vítima principal pela superficialidade e desvalorização do saber. Exigindo Estado, através os seus governantes, “verdadeira revolução educacional”, formando gerações capacitadas para o futuro. Igualmente professores com formação sólida e remuneração decente na estrutura pública, a exemplo do que ocorre nas nações que sabem que sem educação o desenvolvimento integral da sociedade torna-se impossível. Educação, educação e educação é um dos grandes desafios brasileiros.  Estariam os presidenciais, em 2018, conscientes dessa elementar realidade?

Hélio Duque é doutor em Ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Foi Deputado Federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.

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