terça-feira, 12 de junho de 2018

Educação e Capital Humano



Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Hélio Duque

O desenvolvimento sempre teve na educação a base de formação do capital humano. No início do século XIX, José Bonifácio de Andrada, patriarca da independência, trazia de quatro décadas vividas na Europa a clara visão do valor da educação para os filhos do País que se fazia independente. Além da educação, priorizava a libertação da mão de obra escrava e profunda reforma na estrutura agrária.
Ideias que tinham suporte na Revolução Industrial inglesa. Propostas modernas e desenvolvimentistas que vinham sendo implantadas na jovem nação que era os EUA. O projeto Brasil foi apresentado na Assembléia Constituinte de 1824 por Bonifácio que se elegera deputado. Ante a reação dos oligarcas conservadores, o Imperador Pedro I curvou-se ao atraso, decretando o fechamento da Constituinte e cassando os mandatos dos seus parlamentares. José Bonifácio foi exilado na França.
O golpe constitucional de 1824 determinou que o Brasil se tornasse retardatário do desenvolvimento no século XIX. No I e no II Império, os obstáculos estruturais à modernização defendidas pelas oligarquias atrasadas, a rusticidade do pensamento, tem larga aceitação e a educação é a sua principal vítima. Defendem que o patrimônio nacional é aquele constituído por bens e ativos reais visíveis à luz do dia. O patrimônio do saber é relegado a uma situação de quase irrelevância. O capital intelectual, formado em muitos anos de estudos e pesquisas, fruto da acumulação de décadas de conhecimento, é o que leva a novas fronteiras do descobrimento e pioneiras inovações.
A prioridade ao capital humano foi princípio adotado pelos EUA, nos últimos 200 anos, sendo agente ativo no desenvolvimento da nação norte- americana. Ao longo da história da humanidade, a educação sempre foi a grande alavanca patrimonial para a consolidação e ampliação das riquezas nacionais. O saber, na antiguidade, no presente e no futuro, é um ativo intangível e poderoso na transformação das sociedades. No presente e no futuro a universidade precisa ser, na área de humanidade, o berço das grandes ideias e, nas áreas de ciência e tecnologia, vetor fundamental para o desenvolvimento científico.
A história antiga registra que em 3.500 (antes de Cristo) era criada a Escola de Escribas Suméria. Nela a matemática e a escrita suméria eram ensinamentos básicos. Três mil anos depois, em 387 (antes de Cristo), Platão criava a Academia na Grécia, onde os estudantes aprendiam filosofia, matemática e ginástica. Em tempos mais modernos, na Ásia, no século V (depois de Cristo), na cidade de Bivar, na Índia, era criada a Universidade de Nalanda. Chegou a ter 10.000 alunos e 1.500 professores. No currículo: filosofia, teologia, matemática, astronomia, anatomia e alquimia.
No mundo árabe, em 670 (depois de Cristo), era fundada e criada a Universidade da Tunísia. O ensino: árabe, teologia, história islâmica, jurisprudência, matemática, medicina, botânica e astronomia. A Unesco oficialmente reconhece como primeira universidade árabe fundada em Fez, no Marrocos, em 859 (depois de Cristo), segundo os padrões modernos. No Egito, em 970 (depois de Cristo), no Cairo, era fundada a Universidade de Al-Azhar, considerava a segunda mais antiga do mundo.
Na Europa, em 1088, na Itália, nascia a Universidade de Bolonha, onde se estudava medicina, direito e teologia. Em Portugal, a Universidade de Coimbra era fundada em 1250. A partir de então se multiplicaram os centros de formação superior no continente europeu. No Brasil, em 1752, com a criação da Real Academia de Artilharia, destinada a formar oficiais técnicos e engenheiros militares, deu origem ao atual Instituto Militar de Engenharia. Somente em 1808, com a transferência da Corte Real Portuguesa para o Brasil, surgiam as primeiras escolas para formar profissionais no Rio e em Salvador, posteriormente em Olinda. É quando surgem os primeiros cursos de Medicina e Direito no Brasil. Eram escolas isoladas.
Universidades brasileiras, no sentido lato, só apareceriam no século XX, com a aglutinação de escolas isoladas que existiam em vários Estados, destacadamente no Rio, na década de 30, com a criação oficialmente da Universidade do Brasil. Demonstrando que, ao longo do século XIX, após independência e na primeira República até 1930, a educação superior da população não era prioridade dos governantes. O que explica muito o fato de o Brasil ser uma nação atrasada e retardatária no desenvolvimento mundial.
Hélio Duque é doutor em Ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Foi Deputado Federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.

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