quinta-feira, 4 de outubro de 2018

PT NUNCA MAIS e uma Aula de História




2a Edição do Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Jorge Serrão - serrao@alertatotal.net

A criatividade dá um show na reta final de campanha. Acabam o chatíssimo horário eleitoral gratuito, os comícios e os debates de mentirinha que nada acrescentam. No entanto, a propaganda e contrapropaganda nas redes sociais segue a pleno vapor. O vídeo “PT Nunca Mais” (acima) viraliza doidamente. E tem o texto (abaixo), de Américo Souza, que é uma lição de História para acabar com a confusão ideológica acerca de conceitos que não se aplicam à realidade brasileira, porém são usados e abusados pelos ignorantes radicalóides. O Alerta Total recomenda a leitura.

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Hoje, após o almoço, fui à livraria de um shopping para comprar um cartão de aniversário para minha afilhada. Enquanto escolhia um cartão, uma mulher, ao meu lado, tentava explicar para a filha adolescente a importância de irem ao protesto das mulheres contra o candidato do PSL, neste sábado. No meio da conversa a garota interrogou: Mas mãe, o que é esse fascismo que a senhora fala? E recebeu a resposta: Vixe filha... é uma coisa ruim, especialmente para nós mulheres, porque nos coloca como inferiores aos homens, mas é difícil de explicar. 

Movido por um impulso incomum, posto que não tenho o hábito de falar com estranhos, atalhei o papo familiar e disse: com isso eu talvez possa ajudar. Apresentei-me, informei que era historiador e professor, e que, se elas tivessem tempo, e achassem conveniente, eu poderia explicar um pouco o conceito. A mulher agradeceu e disse que tudo bem. Tomamos assento nas cadeiras da sessão infantil da livraria (coisa não recomendável para alguém com joelhos fracos como os meus pois, na hora de levantar, corre-se o risco de passar um certo vexame por tentar e não conseguir). 

Conversamos por cerca de 10 minutos, tempo em que a mãe permaneceu em silêncio, e a garota, cheia de energia e curiosidade me fez uma meia dúzia de perguntas, que busquei responder da forma mais didática possível. Ao final a garota disse: agora acho que estou entendendo, é importante mesmo ir ao protesto amanhã. A mãe agradeceu a minha disponibilidade e já iam em direção à saída, enquanto eu ainda tentava me levantar daquela minúscula cadeira, quando a garota virou e disse: Tio isso que o senhor falou é bem legal, devia botar na internet para todo mundo ver. Respondi que pensaria nisso. As duas se foram e eu, depois de enfim me pôr de pé, também peguei meu rumo. 

Enquanto fazia compras no supermercado e no caminho de volta para casa, o conselho da garota não me saia da cabeça. Há diversos livros e textos em blogs, sites especializados, escritos por gente que conhece o assunto bem mais que eu, que explicam as origens do fascismo, suas transformações ao longo do tempo e as formas e o vigor que ele assumiu neste início de século XXI, em que uma publicação minha pode contribuir? Pensava eu, desnecessário. Depois de ler alguns comentários sobre a notícia do post da Madonna pedindo o fim do fascismo, repensei e acho que, ainda que não vá de fato fazer uma grande diferença, um texto a mais sobre o fascismo e seus riscos é sim necessário. 

Pois bem, segue um texto breve, em que busquei argumentar com a mesma simplicidade e didatismo com que conversei com a garota da livraria. 

Para entender o que o é o fascismo, é preciso voltar um pouco no tempo, mas precisamente para Antiguidade, no tempo da formação de Roma. 
Roma era então um reino, que depois se tornou República e depois, ainda, Império. Para formar o reino, foi criada uma estrutura de governo que tinha vários níveis e cargos. Um destes cargos era o de Lictor.

Os lictores eram uma guarda de elite que tinha a função de proteger os altos funcionários do governo romano, que eram chamados de magistrados. Os lictores também eram encarregados da aplicação de penas ao povo romano, nos casos de crimes contra o rei, contra os seus magistrados e a contra a ordem pública. Estes crimes eram punidos com a expulsão do reino e, às vezes, com a morte. Mas o que isso tem a ver com o fascismo? Os Lictores carregavam consigo uma arma, que era também um símbolo do poder de Roma, que era chamada de “fascio”.

A fascio, era composta de um feixe de varas bétula branca, uma madeira muito forte e muito flexível. Varas feitas desta madeira eram usadas para aplicar castigos físicos em animais e pessoas. O feixe de Bétula Branca na arma dos Lictores, simbolizava o poder e o direito de castigar. Junto ao feixe tinha um machado de bronze, que simbolizava o poder de vida e de morte que os lictores tinham sobre o povo de Roma. Para prender o feixe de varas ao machado eram usadas correias de couro tingidas de vermelho, que eram o símbolo da soberania de Roma.

Ou seja, o fascio era não apenas uma arma, mas um símbolo do poder do rei e de seus magistrados sobre o povo. Quem pensasse, ou agisse contra os interesses desses homens poderosos receberia a visita do lictor e seu fascio e seria severamente castigado. No tempo do Império Romano os lictores ganharam ainda mais, funcionando quase como um serviço secreto do imperador. 

O tempo passou e, no início do século XX, um político italiano chamado Benito Mussolini, organizou um grupo de pessoas insatisfeitas com as mudanças que estavam ocorrendo na arte, nos costumes, na ciência e na política, mudanças estas que apontavam para uma sociedade mais democrática, moderna e plural. Entre estas mudanças estava a luta das mulheres para não terem a sua vida restrita ao espaço doméstico, pelo direito ao voto e a poderem escolher viver a vida como quisessem. Este grupo escolheu a fascio como símbolo de seus ideais conservadores (ver figura dois) e fundou, em 1919, uma organização chamada Fasci Italiani de Combatimiento.

Na década de 1930, uma forte crise econômica afetou todo o mundo, gerando pobreza e fome em larga escala. Os fascistas (como eram chamados os membros da organização liderada por Mussolini) viram nisso uma oportunidade de divulgar suas ideias e valores, e passaram a culpar democracia política e a liberdade cultural pela crise na economia. O medo e a desesperança que havia tomado conta dos italianos fez com que muitos acreditassem nisso e o fascistas ganharam muita força e prestígio político, que acabaram por levar Mussolini ao comando do governo da Itália, em 1936.

Além da Itália, outros países, igualmente afetados pela devastadora crise econômica também viram o surgimento e o rápido fortalecimento de políticos conservadores e autoritários: Francisco Franco, que chegou ao poder na Espanha, também em 1936, Antônio Salazar e Adolf Hitler, que assumiram, respectivamente, o comando de Portugal e da Alemanha, um pouco antes, em 1933. Todos esses políticos e seus seguidores tinham grandes semelhanças com o Mussolini e seu grupo, por isso os historiadores deram a todos a denominação de “regime fascista”. 

Os governos instalados nestes países tinham como marca a concentração no poder nas mãos dos seus líderes, que governaram por muitos anos, sem que houvesse eleições para alternância de poder, ou seja, não havia democracia. Eram governos autoritários, que não permitiam que o povo, as pessoas comuns, definissem os rumos que queriam dar ao país e às suas próprias vidas.

Os meios de comunicação, como os jornais, o cinema e o rádio, eram controlados pelo governo e somente veiculavam o que os governantes queriam. A educação e as artes foram censuradas e orientadas para difundir ideias, valores e crenças machistas, racistas, militaristas e homofóbicos. Aqueles que discordavam do governo e afirmavam o direito à liberdade de ideias e crenças eram reprimidos com extrema violência. 

Os governos fascistas na Itália e na Alemanha caíram durante a Segunda Guerra Mundial, já os regimes fascistas de Portugal e Espanha duraram por muito mais tempo, chegando ao fim em 1974 e 1975, respectivamente. 

O fim dos governos fascistas, contudo, não significou o fim das ideias fascistas, nem diminuiu a sede de poder de seus adeptos. Eles ficaram enfraquecidos por alguns anos, e voltaram a ganhar força neste começo de século XXI, em grande medida, em função do crescimento da pobreza, da fome e da violência, alimentado por uma nova forte crise econômica. Essa situação trouxe, uma vez mais, o medo e a desesperança às pessoas, que, assustadas, tendem a se apegar a solução autoritária pregada pelos adeptos do fascismo. 

O fascismo é, então, o nome que se dá uma ideologia, uma forma de pensar o mundo e a sociedade a partir de um lógica autoritária e valores machistas, racistas e homofóbicos, que nega a validade de qualquer pensamento divergente e defende a imposição de uma única forma de viver. É uma ideologia que usa situações de crise, como a que enfrentamos hoje no Brasil, para manipular as pessoas e chegar ao poder. Dizer não ao fascismo é, fundamentalmente, ser a favor da liberdade e da pluralidade de formas de ser e de viver.


Vida que segue... Ave atque Vale! Fiquem com Deus. Nekan Adonai!

O Alerta Total tem a missão de praticar um Jornalismo Independente, analítico e provocador de novos valores humanos, pela análise política e estratégica, com conhecimento criativo, informação fidedigna e verdade objetiva. Jorge Serrão é Jornalista, Radialista, Publicitário e Professor. Editor-chefe do blog Alerta Total: www.alertatotal.net. Especialista em Política, Economia, Administração Pública e Assuntos Estratégicos. 
A transcrição ou copia dos textos publicados neste blog é livre. Em nome da ética democrática, solicitamos que a origem e a data original da publicação sejam identificadas. Nada custa um aviso sobre a livre publicação, para nosso simples conhecimento.

© Jorge Serrão. Edição do Blog Alerta Total de 4 de Outubro de 2018.

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