sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Como combater a dificuldade de aprender matemática


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por João Vinhosa

A dificuldade de aprender Matemática é um mal que atormenta milhões de brasileiros, entre os quais se destacam os seguintes grupos: adultos que gostariam de voltar a estudar, mas não o fazem para não ter que enfrentar a temida Matemática; estudantes que tiveram acesso ao nível universitário, porém não conseguem acompanhar o curso por terem deficiências em partes elementares da matéria; e jovens que se encontram cursando o ensino fundamental com fraco aproveitamento devido à má-formação na disciplina.

Tal dificuldade decorre, principalmente, da interligação existente entre as diversas partes da matéria. Isto, porque, devido à citada interligação, para que se entenda um determinado assunto de Matemática, é necessário o conhecimento de vários outros assuntos a ele relacionados. Em consequência, se o aluno não souber certa parte da matéria, ele não conseguirá aprender os assuntos que dela dependem. E o fracasso no aprendizado cria um campo fértil para o desenvolvimento do chamado “Trauma de Matemática” – dano psicológico que torna a pessoa convencida de sua incapacidade de compreender a matéria, provocando o seu bloqueio mental e impossibilitando-o de entender os assuntos tratados.

Como exemplo da influência da interligação entre as partes da Matemática, pode ser citado que é impossível entender equação de segundo grau sem ter conhecimento de raiz quadrada, que, por sua vez, depende da compreensão de potências. Além disso, a interligação também existe entre os diversos níveis de uma mesma parte da matéria. Afinal, uma pessoa nunca entenderá que “dois terços é maior que cinco nonos”, se ela não dominar os conceitos fundamentais de frações ordinárias.

Diante deste catastrófico cenário, das duas, uma: ou o Brasil passa a combater de maneira sistemática o “Trauma de Matemática”, ou o País fracassará em sua tentativa de melhorar seu baixíssimo nível de ensino. Em outras palavras: se não forem adotadas corretas medidas, o País fracassará em sua tentativa de diminuir a enorme dívida social que tem com aqueles que não aprenderam os assuntos quando os mesmos lhes foram apresentados na escola.

Considerando que nenhum professor consegue ensinar a matéria a um aluno que sofre de bloqueio mental, fica visto que o vilão a ser combatido é o “Trauma de Matemática”. Portanto, a questão passa a ser: como combater o “Trauma de Matemática”?

Ora, para combater o “Trauma de Matemática”, antes de tudo, é absolutamente indispensável convencer a pessoa traumatizada que ela pode entender Matemática. A partir daí, ela fica motivada. E a motivação traz o sucesso, que, por sua vez, provoca mais motivação, e, em consequência, mais sucesso, formando, assim, um autêntico círculo virtuoso que aniquila o “Trauma de Matemática”.

Até aqui tudo bem. Mas como convencer a pessoa traumatizada que ela pode entender Matemática? 

A única resposta para esta questão é: uma pessoa traumatizada só se convencerá que é capaz de aprender Matemática quando compreender perfeitamente a resolução de um problema que julgava ser de difícil entendimento. E, para que isto aconteça, o professor deverá se colocar ao nível do aluno, e vir raciocinando junto com ele até chegar ao ponto desejado.

A propósito, para se constatar o resultado obtido quando o professor se dispõe a raciocinar junto com o aluno, basta ver o vídeo disponível no endereço https://youtu.be/U-2r-aLtRKc. Em tal vídeo, em menos de quinze minutos, uma pessoa que só domina as quatro operações (soma, subtração, multiplicação e divisão) é levada a compreender perfeitamente a resolução do seguinte problema: “Calcular dois números que somados dão 50, sabendo que o triplo do primeiro número menos o segundo número dá para resultado 10”.

E, conforme pode ser visto no vídeo indicado, depois de o aluno entender todos os detalhes da resolução do problema, dentro dos mesmos quinze minutos, foi-lhe informado que ele acabou de ser apresentado à Álgebra, parte da Matemática composta de incógnitas e equações – nomes que o teriam apavorado, se não tivessem sido adequadamente apresentados.

Logicamente, o professor que se dispõe a raciocinar junto com o aluno, além de considerar que é impossível uma pessoa entender determinada parte da Matemática sem dominar os pré-requisitos necessários a tal entendimento, deve considerar, também, que aqueles que se julgam incapazes de entender a matéria ficam, invariavelmente, impacientes. Logo, é de todo necessário que a atenção do aluno seja captada de maneira rápida e eficiente.

Mais: para que a atenção do aluno seja captada, é da maior importância que ele seja colocado a raciocinar o quanto antes. Assim sendo, a ordem de apresentação da matéria é da maior importância; ela tem que ser tal que o aluno seja desafiado a pensar logo nos primeiros minutos da aula. Na realidade, a coisa funciona como quando se quer ensinar uma pessoa a jogar futebol: nada de perder muito tempo ensinando as regras do jogo, pois isto seria extremamente contraproducente; a pessoa deve aprender a jogar, jogando. Só assim o aprendizado fica mais agradável.

Relativamente à ordem de apresentação da matéria, para convencer a pessoa traumatizada que ela pode entender Matemática, julgo conveniente que sejam feitos, prioritariamente, esforços no sentido de o aluno dominar o Raciocínio Algébrico. Esta ordem se justifica não só porque ela possibilita que o aluno seja imediatamente desafiado a raciocinar, mas também porque é impossível o aluno adquirir conhecimentos mais avançados de Matemática se ele não souber equacionar um problema e resolver as correspondentes equações.

Nesta altura, torna-se válido salientar a diferença entre a Matemática e outras disciplinas. Para tanto, basta reparar que, na Matemática, é impossível o aluno adquirir conhecimentos mais avançados se ele não souber equacionar um problema e resolver as correspondentes equações. Já na História, pode-se conhecer tudo da Segunda Guerra Mundial e nada da Primeira, e na Geografia, pode-se ter profundos conhecimentos sobre a Ásia e desconhecer totalmente a Europa.

Conforme se depreende da argumentação acima apresentada, o combate à dificuldade de aprender Matemática tem que ser feito na base do entendimento da matéria. Contudo, devo confessar que não abro mão de uma ferramenta que não é baseada no raciocínio, e sim na memorização: a tabuada, atualmente ridicularizada por muitos professores. Na realidade, não dá para acreditar que possam acompanhar aulas de Matemática, alunos que não sejam capazes de fazer mentalmente pequenas contas, como o produto “8 vezes 5”.  

Finalizando, por contrariar tudo aquilo que é pregado no presente texto, recomendo a leitura do artigo “A falência do ensino da Matemática”, no qual fiz forte crítica ao único livro distribuído pelo MEC que analisei. É o seguinte o endereço de citado artigo:


João Batista Pereira Vinhosa, engenheiro civil, foi professor universitário de Matemática e Raciocínio Lógico nos cursos de engenharia, matemática e sistema de informações. Especializou- se no ensino da Matemática Básica, por entender ser esta a área na qual poderá dar maior contribuição à debilitada Educação brasileira. Contato:  joaobatistavinhosa@gmail.com

Um comentário:

jomabastos disse...

Os alunos do fundamental, que deveriam ficar à vontade na aritmética, vivem grandes dificuldades quando passam para o médio onde a matemática é muito mais avançada.
Penso que o atual exame nacional do ensino médio deve ser dos mais estúpidos do mundo.
O ensino no Brasil está como a atual Constituição, não está a precisar de um reforma, mas sim de uma nova e forte estrutura e infraestrutura, que alavanque educacionalmente este país para o rumo certo do desenvolvimento.