sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Ser Consumidor – ou não ser...



Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Fábio Chazyn

O lamento do príncipe Hamlet sobre o dilema do “Ser ou Não Ser” tem atravessado os séculos desde os idos 1600. Contudo, se Shakespeare estivesse por aqui agora, certamente acharia que a questão que atormentava Hamlet era ‘café-pequeno’.

O “ser”-humano se transformou numa célula do organismo que é a sociedade de consumo e, apesar das mazelas do fato, as suas questões existenciais -- ainda que reais – viraram irrelevantes. Foi ruim para a satisfação das carências afetivas dele, mas bom para a sociedade de consumo.  E, como parte dela, se abriram as portas para ele poder viver com mais conforto e por mais tempo. Mas tudo isso com um preço: não parar de consumir.

A economia trata disso. O consumo é a ‘gasolina’ da prosperidade. Sem o consumo a máquina não funciona. É inútil continuar discutindo sobre como melhorar o desempenho da máquina quando falta combustível.

Quando a economia está em recessão, a primeira medida a ser tomada é botar combustível, ou seja, estimular o consumo, para reativar o seu funcionamento. No momento da recessão, recorrer a dogmas ou tabus que atrapalhem essa iniciativa é medida contraproducente.

As duas preocupações permanentes dos técnicos da área econômica são a administração da dívida e o estímulo ao investimento e, por consequência, ao emprego, pois daí advém o consumo. Para enfrentar a questão da dívida, a cartilha do economista o obriga a reduzir o déficit fiscal, ou seja, a reduzir o prejuízo entre a receita de impostos e a despesa com os gastos do governo e com tudo o mais que interessa o dia-a-dia do cidadão: a educação, a saúde, os transportes, a segurança, etc etc etc inclusive o custo da máquina pública e o custo das aposentadorias, sem esquecer é claro do custo da dívida pública.

Numa situação em que o custo da dívida pública corresponde a 50% do orçamento, ainda que se argumente que esse custo é só contábil e não drena recursos líquidos do orçamento, não faz sentido sacrificar só o lado do dia-a-dia do cidadão. Senão, seria como p’ra fazer regime o cara parasse de comer. Não somente isso não faz sentido, como também não faz sentido ‘descobrir um santo para cobrir outro’, pois a redução do custo da máquina pública e da previdência social provoca um impacto direto na redução do consumo quando essa política não está associada a um plano abrangente de criação de empregos.

Contudo, o momento é de dar crédito aos especialistas do superministério da economia, que devem saber o que fazem para evitar que esse regime contra o déficit fiscal não leve o paciente a óbito e para ao mesmo tempo criar a confiança necessária nos investidores, que são os reais responsáveis pela criação de empregos e renda. O consumo advirá daí.

Mas advirá somente depois de se sanear as duas dúvidas: 1) a de que a justiça vai ajudá-los a receber pelo que venderem e 2) a de que não vão ficar trabalhando p’ra pagar juros escorchantes aos banqueiros gananciosos. É de se esperar dificuldades nesses quesitos...

Enquanto isso, com o Lula na cadeia como símbolo da derrocada da política de manter a população ignorante e miserável nos currais-políticos, a porteira se abriu e as idéias puderam pulular.

A exemplo da idéia do “vale-educação”, em que o cidadão recebe um direito de gastar para se educar como bem lhe aprouver, o “Projeto Vale-Consumo” tem o poder de fazer a economia ‘pegar-no-tranco’, usando a poupança externa para melhorar imediatamente a qualidade de vida da população mais carente, transferir tecnologia e criar empregos no Brasil, sem perturbar a política macroeconômica.

Se aplicado a setores de cadeia produtiva longa, como eletrodomésticos e carros elétricos, uma iniciativa inovadora como o “Projeto Vale-Consumo” pode ajudar a recuperar o tempo perdido com nosso imbróglio político e representar um atalho para a reindustrialização do País.

O “Projeto Vale-Consumo” é um exemplo do que chamamos de Comércio Exterior Patriótico apresentado no artigo anterior dessa série “Por um Novo Itamaraty” e pressupõe o esforço bem articulado de um colegiado interministerial sob a liderança da instituição. Um trabalho de “clearance” junto à Organização Mundial do Comércio na Suíça deverá pavimentar o caminho para se replicar o primeiro projeto-piloto em outros ramos da indústria.

Mas as coisas ambiciosas despertam paixões... A favor e contra. Só podem sair do papel com a cooperação de todos.  Resistir às novidades ou sabotar o que é dos outros é atirar no próprio pé. Será que ainda prevalece aquela nossa distância cultural com os Estados Unidos onde quem tem idéia tem visão, enquanto aqui quem tem idéia é só mais um sonhador?

Ou vamos enfim botar combustível na nossa auto-estima e na nossa máquina econômica pr’a sair do atoleiro já?

Ser consumidor já ou não “ser”. Eis a questão.

Fabio Chazyn é Empresário.

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