segunda-feira, 15 de abril de 2019

Aqui não é Passárgada



Já pensou de o Governo definir que só pode beber quem cantar o Hino Nacional corretamente? Cachaceiros profissionais estão treinando...

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por H. James Kutscka

O senhor Emílio Odebrecht não tem cara de ser uma pessoa apreciadora de poesias; para falar a verdade, de leitura nenhuma. Diria que apesar de ter Brecht no nome, não aparenta ser nenhum Bertold.

O que me leva a essa consideração é o fato de ter surgido na semana que passou, a informação de que nosso ministro do STF Dias Toffoli, seria um tal de “amigo do amigo de meu pai” na lista de propinas da Odebrecht segundo Marcelo (o filho do pai).

Lembrei Drummond: - Vou me embora para Passárgada. Lá sou amigo do rei lá tenho a mulher que eu quero, na cama que escolherei.

Se conseguiu a mulher que queria não sei, mas que conseguiu todas as obras que queria, isso sabemos todos.

Também sabemos quem era o rei amigo do pai do Marcelo, e agora ficamos sabendo que o amigo do amigo está na presidência do STF, justamente por ter sido posto lá pelo amigo do pai de seu delator.

Não sei o que acharia disso Manuel Bandeira, mas para mim, é pura poesia.

E para que não me acusem de monotemático por só falar de política, vamos seguir com a poesia; Drummond já em 1928 vaticinava que haveria “uma pedra no meio do caminho”.

Quem não “tomou tento”, tropeçou nela noventa anos depois.

Na poesia é muito utilizado um recurso chamado metonímia, que consiste em usar uma palavra ou imagem literária, fora de seu contexto usual, por ela conter uma continuidade objetiva com o assunto tratado.

O que me leva a “Ismália” do grande Alphonsus Guimarães”:

“Quando Ismália enlouqueceu
Pôs-se da Torre a gritar
Viu uma lua no céu
Viu outra lua no mar”

Nosso ministro não viu duas luas, mas também como Ismália, enlouqueceu e pôs-se da torre a gritar.

Deverá ter o mesmo fim dela na poesia. A única diferença é que sua alma não subirá ao céu.

Para finalizar, como “as cinco da manhã a angustia se veste de branco e fica como louca espiando  o mar” na poesia de  Vinícius  de Morais,  já se fazendo tarde e  como não há por aqui nenhum mar para espiar, me despeço dos caros leitores com dois trechos de Drummond, extraídos da “Poesia de sete faces”, exemplo perfeito de metonímia;  com eles pretendo demonstrar  a  eventual inutilidade de meus protestos  contra a imoralidade da justiça nesse nosso país:

“O bonde passa cheio de pernas
Pernas brancas, pretas, amarelas
Para que tanta perna meu Deus”
“Mundo, mundo
Vasto mundo
Se eu me chamasse Raimundo
Seria uma rima
Não seria uma solução.”

H. James Kutscka é Escritor e Publicitário.

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