terça-feira, 14 de maio de 2019

A identidade do País e do Governo



Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Gaudêncio Torquato

A análise política trabalha com dois conceitos para interpretar fenômenos ligados aos protagonistas da política, sejam pessoas físicas ou jurídicas, políticos ou governos: identidade e imagem. O primeiro se refere à índole dos protagonistas, seu caráter, programas e ações, o que verdadeiramente representam; já a imagem é a projeção da identidade, significando a percepção que deles têm os cidadãos, a maneira como as pessoas vêem os integrantes da esfera política.
A identidade do Brasil, por exemplo, abriga um conjunto de elementos, dentre os quais o tamanho do território, suas riquezas naturais, a natureza de sua população, os ciclos históricos, as tradições e costumes, enfim, tudo que possa realçar o porte do país. Convido o leitor a construir na mente o mapa da identidade da Nação brasileira. Da mesma maneira, tente imaginar a identidade do Estado e município onde mora. Faça uma comparação com outros entes federativos. E pense na questão: os governos do Estado e do país correspondem efetivamente à dimensão dos territórios que governam?
Escolhamos, a título de melhor associação de ideias, o governo Bolsonaro. Sem intenção de diminuir seu peso na balança da análise política, cresce a percepção de que a identidade do governo é baixa em relação à altura do Brasil. É como se o país medisse um metro de altura e a administração Bolsonaro apenas cinquenta centímetros. Conclusão: falta muito governo para cobrir o real tamanho do nosso território continental. 
O que causa tal sentimento? Vamos lá: a crise interna entre grupos, a ideologização que gera conflitos, o despreparo de perfis, a extrema relevância que se dá ao guru da família Bolsonaro e até mesmo o baixo nível na linguagem usada por protagonistas. Eis o que disse durante a semana a ministra dos Direitos Humanos: “a Funai tem de ficar com mamãe Damares, não com papai Moro”. Assim a titular da pasta de Direitos Humanos fez apelo para conservar sob sua órbita a Fundação Nacional do Índio. Já o horoscopista elogiado pelo presidente e agraciado com o maior galardão do Itamaraty é o recordista no uso de palavras chulas.
Ora, há uma liturgia do poder, que obriga participantes da esfera governamental a adotar posturas condizentes com o cargo, o que inclui o uso de expressão conveniente. O que se constata é a “infantilização” da linguagem (essa de Damares) ou os adjetivos sacados do pântano por figuras que posam de heróis. O próprio Bolsonaro faz afirmações que fogem à régua da liturgia presidencial.
A sensação de um governo menor deriva também do fato de se fazer trocas (ou criação) de áreas – Coaf da Justiça para a Economia, Funai em negociação, política industrial saindo da Economia para Ministério da Tecnologia, renascimento de ministérios – não por questões de escopo técnico, mas por conveniências de natureza política. Diminuir poder de um e passar a outro. Onde está o tão propagado compromisso de evitar o “troca-troca”, o “toma lá dá cá”?
Espraia-se a percepção de que a administração não é operada dentro de critérios técnicos. A taxa de improvisação é alta. Há ilhas de qualidade, como é o caso da equipe econômica comandada pelo ministro Paulo Guedes ou o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, mas o arquipélago governamental é povoado de perfis sem densidade/experiência na área em que atuam.
Qual é, afinal, a coluna vertebral do governo? O barulho maior se dá em torno da reforma da Previdência. Mas a questão fiscal-tributária assola os Estados e não há indicações de saída para equilibrar os entes federativos. O improviso está no ar. A principal embaixada do Brasil no mundo, a dos Estados Unidos, não tem titular. O chanceler espera que um conselheiro seu amigo seja promovido a embaixador para nomeá-lo ao cargo.
O “índice de coisas estabanadas”, que poderíamos designar doravante como ICE, tende a se expandir. E a esfacelar a identidade do governo Bolsonaro. Não à toa, forma-se em nossa cognição a ideia de que o Brasil tem um governo menor que sua grandeza exige. 
Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação Twitter@gaudtorquato

4 comentários:

Anônimo disse...

Errado, pois parte de uma premissa falsa, ou seja, a de que há divergência entre pessoas do governo. O que existe são pessoas que não desejam o fim da cleptocracia e, logo, que o Bolsonaro não ocupe os espaços justamente para não governar. Se a primeira premissa é falsa, então a conclusão é necessariamente falsa, sequer forma um silogismo, ou seja, um raciocínio logicamente verdadeiro, mas que a conclusão não é necessariamente verdadeira. O grande problema dessa gente da USP é que o nosso Guru é, antes de mais nada, um Professor com letra maiúscula e ele criou um método de gerar gurus. Assim, o que temos hoje no Brasil é uma montão de gurus que está se multiplicando exponencialmente, ou seja, não adianta ficar aí tentando matar a reputação o mestre dos gurus e nem a morte dele vai parar o que começou. Seu problema é misturar emoções com a realidade. Não adianta ficar falando que nosso Professor é feio, é boquirroto, é cartomante, astrólogo etc. sem nunca prestar atenção no que ele fala e foi ele quem disse lá atrás, muito antes do Bolsonaro ser eleito que se ele não cuidasse de ocupar os espaços não governaria.

Q disse...

Nenhum governo apanhou tanto quanto bolsonaro em tanto pouco tempo.
Devemos dar tempo ao bolsonaro e também ter a visão de que ele no executivo tá lutando contra legislativo e judiciário o tempo todo.
Toda as as boas medidas dele estão sendo derrubadas.

Estamos quase num parlamentarismo, ao estão deixando ele governar!!!

Willian disse...

Infelizmente o autor não compreende a realidade do que Olavo de Carvalho defende para o Brasil, a premissa de que os militares são a solução definitiva para o problema brasileiro e ume uma bobagem sem tamanho, afinal já estiveram no poder e não conseguiram sanar o problema, entregaram o poder e ainda deixaram todos os bandidos anistiados tomarem conta pois só restavam eles como classe política organizada, e o resultados e claro como o sol, mais de 30 anos de atraso, ao invés de estarmos no top 3 econômico somos este país rico e miserável ao mesmo tempo, no Brasil sobra estado, falta iniciativa privada, se fosse o contrário não estaríamos preocupados com o futuro do país caso uma reforma da previdência não saia, estamos ainda discutindo como o governo irá solucionar uma situação em que ele é o próprio problema, menos leis, nenhuma benesse estatal, menos impostos, mais iniciativa privada, mais inteligência para nosso povo ( e nao cursos superiores mequetrefes ), mais raciocínio lógico e isto que falta ao Brasil, e isto não será Bolsonaro ou QQ militar que fara, será o próprio povo e este é o cerne do que Olavo de Carvalho defende, se querem usar o estado como meio de alcancar acabar com o poder do Estado e a primeira etapa, mas os militares não parecem querer isto, leia mais Olavo e entenderá o mínimo para não ser idiota

ALMANAKUT BRASIL disse...

Gaudêncio Torquato é aquele da bancada da CORJA socialista privilegiada da USP, no Jornal da TV "Herzog" Cultura.

Se o Regime Militar, o brando, falhou, a preocupação da população deveria ser com a falha dos atuais militares.