segunda-feira, 6 de maio de 2019

“O Dia que durou 21 anos”. De novo?


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Sérgio Pinto Monteiro

A Globo News acaba de reexibir, o que tem feito reiterada e cansativamente nos últimos anos, uma produção da PEQUI FILMES que esteve na tela de alguns cinemas em março de 2013, sendo que uma versão anterior foi exibida na televisão, dividida em três episódios de 26 minutos. O filme, de 2012, tem um falso perfil de documentário. É notório o seu comprometimento ideológico. Basta observar que o roteiro é do jornalista e escritor Flávio Tavares que ao lado do filho, o cineasta Camilo Galli Tavares, mexicano de nascimento, produziu e dirigiu o “documentário”.

Ora, Flávio Tavares participou da luta armada contra os governos militares e foi um dos quinze presos políticos trocados pelo embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, sequestrado em 1969 por grupos armados da esquerda brasileira. Tal circunstância, evidentemente, não permite concluir que a “obra” cinematográfica, nem mesmo a literária, possua a isenção que dela se poderia - e deveria - esperar.

O filme defende a tese de que o governo dos Estados Unidos teve uma forte participação no planejamento do movimento contrarrevolucionário de 1964. O diretor teria se beneficiado de farta documentação cuja divulgação foi supostamente autorizada pelos americanos, face à lei local de publicidade de documentos confidenciais e secretos.

Nada de novo, portanto. Hoje tais informações estão disponíveis em variadas fontes. Historicamente, o “documentário” peca em múltiplos aspectos. O primeiro, e talvez o mais relevante, é não contextualizar as ações e procedimentos governamentais dos Estados Unidos. Em 1964 o mundo era politicamente bipolar. Americanos e soviéticos - e seus aliados - encontravam-se sob os efeitos da chamada “guerra fria”. Pouco antes, na crise dos mísseis soviéticos em Cuba, estivemos muito próximo da terceira guerra mundial. A URSS havia fincado posição em Cuba e dava suporte a movimentos “nacionalistas” que pudessem fortalecer o comunismo em todo o mundo. Na America latina, o Brasil foi o alvo prioritário dos soviéticos. Como era de se esperar, os agentes de inteligência, de ambos os lados, atuaram intensamente nessas áreas.

Curiosamente, foram vistos, em certo momento, almoçando no mesmo restaurante em Foz do Iguaçu. Claro, em mesas diferentes. Obviamente, os seus respectivos governos acompanharam e procuraram intervir nas políticas locais, buscando a tomada ou a manutenção do poder.

Os documentos do governo americano divulgados no filme retratam exatamente tais ações e procedimentos. Nada, portanto, que possa ser classificado como algo estranho ou incomum, como se procura “denunciar” no “documentário”. Os arquivos da antiga União Soviética, se permitidas pesquisas sobre o tema - o que é improvável - certamente revelariam atividades semelhantes.

Por outro lado, a sutileza tendenciosa da narrativa - e de várias sequências do filme - tenta induzir o espectador à conclusão de que as forças armadas brasileiras teriam se submetido aos interesses do governo americano, o que é falso e fantasioso. Devemos lembrar que a segunda guerra mundial havia nos aproximado fortemente dos Estados Unidos. Fomos aliados e lutamos juntos contra o nazi-fascismo. Portanto, era de se esperar que os chefes militares brasileiros, em sua esmagadora maioria, vissem os americanos como amigos e, via de consequência, contassem com o seu apoio na eventualidade de uma indesejável - mas possível - confrontação interna.

Mas daí a se concluir que os Estados Unidos participaram do “planejamento” da contrarrevolução de 1964 há um fosso intransponível. Na verdade, a “Operação Brother Sam”, nada mais foi do que um plano para apoiar, logisticamente, as forças armadas brasileiras em caso de necessidade e mediante solicitação do nosso governo.

Muitas outras críticas poderiam ser dirigidas ao filme. Uma delas, extremamente relevante, seria referente à total e completa OMISSÃO dos roteiristas aos ATENTADOS TERRORISTAS praticados pela esquerda rebelde que, em última análise, foram os responsáveis pelo endurecimento do regime e prolongamento do período dos governos militares.

A história dos idos de 64 está contada em vasta literatura e farta documentação. Depoimentos de inúmeras personalidades e lideranças da época, inclusive da própria esquerda, comprovam, inequivocamente, que os derrotados desprezavam a democracia e lutavam contra ela, eis que pugnavam pela implantação no Brasil de uma ditadura do proletariado, com um regime comuno-sindicalista. Esquerdistas históricos, como Jacob Gorender, Daniel Aarão Reis Filho, Renato Lemos, Denise Rollemberg, Fernando Gabeira e outros, reconheceram, explicitamente, que a esquerda não lutava pela democracia.

É impossível reescrever a história à revelia dos fatos. A mídia brasileira, em especial as Organizações Globo, que sob a liderança do patriarca Roberto Marinho apoiaram o contragolpe de 64 e hoje prestam um desserviço à nação numa perniciosa e constante atuação contraria aos legítimos interesses do país, deveriam ser mais  responsáveis ao abordar fatos históricos que ainda produzem consequências no cenário atual. Quem sabe, substituindo a falsidade do “O Dia que durou 21 anos” pela verdade insofismável do “PESADELO QUE DUROU 13 ANOS, 2003 a 2016” e que quase destruiu o Brasil.

Sérgio Pinto Monteiro é Historiador, oficial R/2 do Exército Brasileiro, Patrono do Conselho Nacional de Oficiais da Reserva, Presidente do Conselho Deliberativo da Associação Nacional dos Veteranos da FEB, membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil, da Academia Brasileira de Defesa e do Instituto Histórico de Petrópolis.

Um comentário:

Unknown disse...

Concordo plenamente!A substituição do nome do filme seria plausível diante de todos acontecimentos que afundaram nossa Pátria Amada Brasil