sábado, 4 de fevereiro de 2006

Povo ou plebe?

Por Maria Lucia Victor Barbosa

Como é comum em ano de eleições, curiosas teorias vão surgindo para justificar ou não essa ou aquela candidatura. Assim, na medida em que se volta a cogitar sobre a possibilidade da reeleição do candidato-presidente que parecia perdida no fundo do poço dos escândalos de corrupção, sua possível vitória é prevista quando se diz, por exemplo: “ele ganha porque é a cara do povo”.

Esta idéia nada mais é do que a repetição do que disse o próprio Luiz Inácio em um de seus mais recentes comícios, pois ele se vangloriou de ter a cara do povo e não das pessoas da zona sul ou da Avenida Paulista. Naturalmente escapa ao presidente da República e aos que o imitam, que povo significa o conjunto dos indivíduos que habitam um determinado território nacional, sem distinção de classe, raça, cor, religião, riqueza ou pobreza.

Em todo caso, tanto o discurso populista do presidente quanto a imaginação dos analistas de plantão, que certamente confundem a categoria povo com indivíduos da classe mais baixa, esbarra num fato bastante singelo: somente na quarta tentativa o eterno candidato do PT logrou se eleger. Nas três campanhas anteriores, nas quais o discurso do petista causava medo aos grandes empresários, banqueiros e investidores, a maioria dos brasileiros também não se identificava com a retórica esquerdista e se recusou a por Lula lá por mais carismático e persuasivo que agora dizem ele ser.

O eterno candidato do PT conseguia sempre 30% dos votos, porcentagem que englobava, menos seus ex-companheiros de macacão, e mais setores da classe média composta por professores e alunos universitários, a Igreja dita progressista, profissionais liberais, funcionários públicos, artistas, enfim, os grupos para os quais é politicamente correto ser de esquerda.

Somente na quarta campanha, Duda Mendonça, o marqueteiro oficial, operou prodígios. Ele vestiu o Lulinha de paz e amor com terno Armani, lhe ensinou a adoçar um pouco a voz e a moderar o discurso, sendo que a Carta ao Povo tranqüilizou o grande capital com a promessa de que nada mudaria. Só então a candidatura petista deslanchou.

Acrescente-se que o vice, José de Alencar, foi a garantia de que estava selada a união simbólica entre capital e trabalho, e na esteira daquele empresário vieram as Igrejas Evangélicas, notadamente a Igreja Universal, que somaram sua fé e força à CNBB em prol do candidato do PT. Quanto às FFAA, numa espécie de 64 às avessas, prestigiaram em grande parte com seu voto o candidato da esquerda movidos pela insatisfação com o governo anterior. Assim foi eleito Luiz Inácio com o apoio de gregos, troianos e baianos, sendo que uma parte respeitável destes não tinha cara de pobre nem de desvalido, muito pelo contrário.

Outra teorização interessante que vem surgindo é a seguinte: “Luiz Inácio vai ganhar porque o povo não se incomoda com corrupção”. Isso significa que estamos está mais para plebe, termo que expressa o sentido pejorativo de povo. Seríamos uma nação de corruptos, uma cleptocracia onde, como se costuma dizer, “quem não rouba é burro”. Aqui vigora a esperteza. A palavra de ordem é passar o outro para trás, é levar vantagem em tudo, é cultuar anti-heróis e antivalores.
Convenhamos que existe um quê de verdade nessa explicação. Ela é comprovada pela mentalidade do “rouba, mas faz” que consagrou Adhemar de Barros.

Golpes pequenos ou grandes acontecem rotineiramente na vida particular e na esfera pública, e estamos longe de ser uma meritocracia. Para agravar a situação no Brasil reina a mais perfeita impunidade, pois o que se pode esperar da aplicação justa da Lei quando o próprio presidente do Supremo Tribunal Federal julga com base em sua inclinação política do momento e não conforme a imparcialidade jurídica que o seu alto cargo requer?

Contudo, o “rouba, mas faz” não funcionou, pelo menos no caso do PT, quando muitos dos seus quadros foram eleitos nos níveis municipal e estadual, e mesmo quando o partido alcançou a presidência da República.

Isso porque, a lendária retórica petista baseada na ostentação de serem eles éticos e puros, angariou votos dos eleitores que sentiam um grande cansaço cívico por conta do comportamento indesejável de vários integrantes da classe política, no Legislativo e no Executivo. Além do mais, quando os trabalhos das CPIs estavam no auge, pesquisas acusaram forte queda da popularidade do presidente Luiz Inácio e do seu governo.

Agora é esperar outubro para saber se o povo brasileiro se indigna com a corrupção ou se lhe é indiferente na medida em que também a pratica largamente. Essa atitude irá indicar se somos povo ou plebe. De todo modo, outros fatores irão interferir no sucesso ou não do candidato-presidente. Por enquanto existem apenas especulações.

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.

Comentário a este artigo, de Jean Sharlau

Cara Maria Lucia, o povo brasileiro mais pobre, que é a maioria, desde que há Brasil tem sido prensado contra o barranco, empurrado ao precipício, ou simplesmente deixado à própria sorte. Sempre soube também esse povo, que os políticos metem mesmo a mão como se boa parte fora deles e até fica parecendo que é direito adquirido. Assim esse povo mais pobre também foi dando jeito de dar seus pobres jeitinhos para sobreviver (ou viver um pouquinho melhor) e outras coisas que degringolam para pior.

Sonegação (não emitir e não pedir nota fiscal, de comum acordo), contrabando (ir buscar ou encomendar do Paraguai, dos EUA), jogo (bicho, carteado, não os do governo) prostituição (quem vende e quem compra o serviço), tráfico (quem vende e quem compra), roubo (a bancos - admirados, e os pequenos roubos como o de toca fitas, são apoiados pelos que compram sabendo que é roubado) suborno (quem cobra e quem paga, sim porque no caso dos pobres o subornável geralmente cobra o suborno) pirataria (há cidades inteiras no Brasil organizadas para produzir artigos piratas) pistoleiros (comuns no nordeste e norte, mas presentes também no sudeste e sul) aborto (feito clandestinamente por médicos em troca de...

Dinheiro - das jovens, seus parceiros e família) crimes passionais e por vingança (quase aceitos como justificáveis) acidentes automobilísticos e de trabalho (a maioria ocorrida por descumprimento de cuidados e normas, portanto culposa) colar nas provas, invasão e grilagem, venda de produtos c/prazo vencido ou proibidos, roubar no troco, roubar do caixa, dar o golpe do bau e golpe no sócio, agredir a mulher e os filhos, beber demais, vagabundear às custas dos outros, fazer cabrito no trabalho, separar algum do condomínio, vender gato por lebre, furar a fila ...

Há mais, mas paremos aqui.É claro que embora praticando, sendo conivente, complacente, vítima, prejudicado, beneficiado, ou apenas tendo conhecimento sobre a maioria desses crimes e contravenções, as pessoas esperam melhorar, esperam (talvez por imaginá-los melhores) que os que comandam o façam primeiro - o mito/generalização do rico, honesto, digno, feliz. Ora, como está dito em seu artigo, somos todos o mesmo povo, e todos já incursionamos na lista que fiz acima, como autor, vítima ou testemunha.

O que não dá pra aguentar é que as sujíssimas empresas de mídia (tele showrnal, rádio showrnal, shournal de revista) e a escória política venham com sua empáfia, bater todos os dias nos nossos ouvidos a tecla do clamor pela moralização, como se fossem eles a vanguarda da melhoria da raça. Não, isto não podemos aturar. São criminosos ainda maiores, agora cometendo mais um crime, o de enganar-nos de novo e com tal ousadia que querem passar por bons ao chutar quem caiu no atalho que eles usam há décadas (e que é só o menor de seus crimes).

Chicote neles!

Um comentário:

Jean Scharlau disse...

Cara Maria Lucia, o povo brasileiro mais pobre, que é a maioria, desde que há Brasil tem sido prensado contra o barranco, empurrado ao precipício, ou simplesmente deixado à própria sorte. Sempre soube também esse povo, que os políticos metem mesmo a mão como se boa parte fora deles e até fica parecendo que é direito adquirido. Assim esse povo mais pobre também foi dando jeito de dar seus pobres jeitinhos para sobreviver (ou viver um pouquinho melhor)e outras coisas que degringolam para pior. Sonegação (não emitir e não pedir nota fiscal, de comum acordo), contrabando (ir buscar ou encomendar do Paraguai, dos EUA), jogo (bicho, carteado, não os do governo) prostituição (quem vende e quem compra o serviço), tráfico (quem vende e quem compra), roubo (a bancos - admirados, e os pequenos roubos como o de toca fitas, são apoiados pelos que compram sabendo que é roubado) suborno (quem cobra e quem paga, sim porque no caso dos pobres o subornável geralmente cobra o suborno) pirataria (há cidades inteiras no Brasil organizadas para produzir artigos piratas) pistoleiros (comuns no nordeste e norte, mas presentes também no sudeste e sul) aborto (feito clandestinamente por médicos em troca de...Dinheiro - das jovens, seus parceiros e família) crimes passionais e por vingança (quase aceitos como justificáveis) acidentes automobilísticos e de trabalho (a maioria ocorrida por descumprimento de cuidados e normas, portanto culposa) colar nas provas, invasão e grilagem, venda de produtos c/prazo vencido ou proibidos, roubar no troco, roubar do caixa, dar o golpe do bau e golpe no sócio, agredir a mulher e os filhos, beber demais, vagabundear às custas dos outros, fazer cabrito no trabalho, separar algum do condomínio, vender gato por lebre, furar a fila ... Há mais, mas paremos aqui.

É claro que embora praticando, sendo conivente, complacente, vítima, prejudicado, beneficiado, ou apenas tendo conhecimento sobre a maioria desses crimes e contravenções, as pessoas esperam melhorar, esperam (talvez por imaginá-los melhores) que os que comandam o façam primeiro - o mito/generalização do rico, honesto, digno, feliz. Ora, como está dito em seu artigo, somos todos o mesmo povo, e todos já incursionamos na lista que fiz acima, como autor, vítima ou testemunha.

O que não dá pra aguentar é que as sujíssimas empresas de mídia (tele showrnal, rádio showrnal, shournal de revista) e a escória política venham com sua empáfia, bater todos os dias nos nossos ouvidos a tecla do clamor pela moralização, como se fossem eles a vanguarda da melhoria da raça. Não, isto não podemos aturar. São criminosos ainda maiores, agora cometendo mais um crime, o de enganar-nos de novo e com tal ousadia que querem passar por bons ao chutar quem caiu no atalho que eles usam há décadas (e que é só o menor de seus crimes). Chicote neles!

Jean Scharlau