domingo, 18 de junho de 2006

Chantagem financeira

Edição de artigos de Domingo do Alerta Total: http://alertatotal.blogspot.com

Por Marcelo Crivella

Há muito tempo que a política econômica brasileira é dominada pelos interesses financeiros de curto prazo. O primeiro sinal disso é o nível extravagante da taxa de juros. Qualquer pessoa de bom senso, mesmo que não entenda nada de teoria econômica, dirá que uma taxa de juros baixa favorece o desenvolvimento, seja por aumentar o consumo e a oferta de crédito, seja por incrementar a produção, estimulando o investimento.

Por que temos privilegiado a especulação financeira em lugar da produção? Bem, isto tem menos a ver com teoria econômica e mais a ver com ideologia econômica. Os diversos argumentos ideológicos em favor de juros altos baseiam-se fundamentalmente nos modelos de controle de inflação. Somos levados a acreditar, por essa teoria, que o Brasil é um caso muito especial de alta resistência inflacionária, pois a taxa de juros que se exige aqui para manter os preços bem comportados é de cinco a dez vezes maior que a média de todos os outros países, industrializados ou emergentes.

Temos juros extremamente altos, inflação média e crescimento extremamente baixo. Somos singulares no mundo. A única vantagem que apresentamos é a inflação, baixa apenas para nossos próprios padrões históricos, o que também é enganador. De fato, se compararmos índices de preços com índices de renda do trabalho, veremos que, desde 1999, quando se adotou o famoso modelo de metas de inflação, registrou-se uma queda reiterada do ganho do trabalhador assalariado.

A eficácia dessa ideologia de defesa dos interesses financeiros se traduz numa política econômica de transferência de renda e de patrimônio de pobres para ricos, através da taxa de juros. Os donos do capital financeiro exercem uma chantagem sobre o governo, não apenas mediante a ameaça ideológica da inflação, como também pela chantagem da evasão de recursos para o exterior. Atualmente, estão aplicados em títulos públicos mais de um trilhão de reais, remunerados às taxas básicas reais de juros mais altas do mundo (no mínimo, 11%). Isto, definitivamente, precisa mudar!

Marcelo Crivella é senador pelo Partido Republicano Brasileiro (PRB-RJ) e candidato ao governo do Rio de Janeiro.