domingo, 4 de junho de 2006

Copa do mundo é futebol globalizado com craques que só se vê pela televisão

Edição de artigos de Final de semana do Alerta Total: http://alertatotal.blogspot.com

Por Pedro Porfírio

"O futebol, o esporte mais popular e o que melhor expressa e afirma a identidade nacional, foi submetido às leis da rentabilidade e se tornou uma verdadeira máquina de moer carne humana, sucumbindo à uniformização obrigatória promovida pela globalização”.
Eduardo Galeano, escritor uruguaio, autor, entre outros, de “As Veias Abertas da América Latina” (1971) e de “Sua Majestade, o futebol” (1968).

Juro que não ia mais falar de futebol. Achava que tinha dito o que devia. Mas o e-mail de Manoel de Oliveira, de Uberlândia, deu a dimensão da importância do meu posicionamento, comentado por outros leitores. Ele escreveu: “Com lágrimas nos olhos li a sua coluna e concordo plenamente com ela. É triste, de chorar”.E eu não falei da missa um terço. Sabe por quê? Pelas distorções malignas impostas com a industrialização globalizada da nossa grande paixão.

Tráfico de meninos - Você tem uma idéia de quantas crianças e adolescentes brasileiros já estão sendo vendidos para os países do primeiro mundo antes mesmo de servirem ao Exército?
Há meninos de 13 anos importados clandestinamente pelos clubes-empresas da Europa e não aparece ninguém do Ministério Público, nem da Polícia Federal, nem do Juizado da Infância e da Adolescência para questionar essa prática, que infringe até mesmo regulamentos da FIFA.

Esse negócio sujo, mas glorificado por parte da imprensa esportiva, muito próxima aos cartolas, é uma das variáveis mais perniciosas do envolvimento acrítico de todo um povo num grande esquema, no qual estão envolvidos escroques de todo espécie, inclusive da poderosa “máfia russa”.

E tal é a gravidade desse novo tipo de tráfico de adolescentes brasileiros que o técnico Wanderley Luxemburgo acha que em 2014 já não teremos com quem contar para as próximas competições. É que a nova geração de “exportados” ainda imberbes já começa a optar pela nacionalidade do país onde acabou de ser “criado”.

Participando do programa Arena Sport-TV o técnico do Santos – que deve saber muito bem do que fala - admitiu que a tendência da “naturalização” é inevitável. Ao citar como exemplo o garoto Neymar, de 14 anos, ele disse que não vai ser fácil segurá-lo no infantil do seu time, devido ao assédio de “empresários” a serviço e “clubes” como Manchester United e Real Madrid e Barcelona. (Ver matéria publicada no Globo.com (http://globoesporte.globo.com/ESP/Noticia/0,,AA1203207-4482,00.html)

O negócio está tão deprimente que há várias empresas espalhando “books” de garotos brasileiros na Europa. Agora mesmo, a “Pro-Foot” aproveitou a ida à Suíça dos meninos do Fluminense, ao qual está ligada, e saiu mostrando nossos “produtos para exportação”. Como conseqüência dessa atuação da empresa, que tem sede também em Zurique, os gêmeos Rafael e Fábio, de 15 anos, já estão negociados com o Manchester United da Inglaterra, ao qual se vincularão oficialmente quando fizeram 18 anos, como admitiu o diretor de futebol do clube brasileiro, Paulo Bhering (ver matéria do site “Terra” em http://esportes.terra.com.br/futebol/copa2006/interna/0,,OI1025513-EI5485,00.html).

Já nesta Copa, sem falar nos quatro técnicos (como o seu eterno ídolo Zico, que serve ao Japão, e o Filipão, contratado por Portugal depois de ser campeão pelo Brasil) já estarão “nos enfrentando” em campo os “ex-brasileiros” Marcos Senna, do Villareal da Espanha; Kevin Kuranyi, da Alemanha; Alessandro Santos, do Japão; Zinha, do México; Deco, de Portugal, Clayton e Francileudo, da Tunísia, e Eduardo da Silva, da Croácia.

Quase todos estrangeiros - Não tenho dúvida. Os poderosos do futebol não mandam flores. Dos 736 jogadores convocados para a Copa, 345 (47%) “prestam serviços” em cinco países europeus (Alemanha, Inglaterra, França, Itália e Espanha).

Eu lhe pergunto: é bonito isso? Num artigo para o site da rádio Alemã “Deutsche Welle”, Geraldo Hoffmann observou, referindo-se à Copa dos Campeões: “Quase dois terços (117) dos 184 jogadores convocados para as oito seleções que disputam o torneio são "estrangeiros" para seus próprios treinadores, isto é, não atuam em times do país de origem. E três técnicos, os do Japão, México e Tunísia, também são estrangeiros". (ver matéria em http://www.dw-world.de/dw/article/0,2144,1622733,00.html)

Na verdade, tem mais gente, sobretudo no exterior, indignado com a grande trapaça que, na verdade, reflete o sistema de mercado, onde as pessoas não ganham porque valem; valem pelo ganham. Mas no Brasil, numa hora dessas, não parece hábil escrever para dizer: você vai sofrer durante um mês porque essa é uma indecente válvula de escape que não apenas admite, como consagra a violentação da dignidade humana.

Veja esta reflexão de Eduardo Galeano: “No mês de junho, um jogador da República de Camarões, Marc Vivien Foe, caiu, fulminado, no estádio de Lyon. Não foi vítima de um pontapé criminoso. Ninguém tocou nele. Foe morreu de exaustão. O ritmo da Copa das Confederações, com uma partida logo depois da outra, acabou com ele. Nenhum comunicado médico dirá que sofreu um ataque de futebol profissional, pois essa doença, fatal, não consta de manual de medicina algum. Mas a verdade é que o mais belo e popular dos esportes, aquela festa das pernas que dos jogam e dos olhos que vêem, funciona, em termos industriais, como uma máquina de moer carne humana”. (ver matéria no LE MONDE DIPLOMATIQUE http://diplo.uol.com.br/2003-08,a711)

Voltemos a Geraldo Hoffmann, da rádio alemã, cujas reflexões, em alguns pontos, são iguais a de Eduardo Galeano: “Patriotismo à parte, às vezes tem-se a impressão de que os "estrangeiros" (sobretudo os milionários) entram em campo carangados pelo peso do dinheiro no bolso. Suar a camisa pela seleção do país de origem parece ser apenas um fardo inevitável para manter as ações em alta nas direções dos grandes clubes em Madri, Londres, Milão ou Munique.
“Só assim se explica também o fato de que Ronaldo pode se dar o luxo de ficar curando uma dor de cotovelo em casa, durante a Copa das Confederações, sem precisar temer a perda de sua vaga na seleção para a Copa 2006. Quem ousaria arrancar a número 9 do peito de quem tem a Nike nas costas?”

Não tenho dúvida em dizer: está tudo dominado “por eles” também no futebol, nessa Copa em que a Alemanha vai ganhar uma baba, pela segunda vez, com tantos “torcedores”, (só do Brasil vão mais de 50 mil). É uma pena, porque alguns inocentes úteis destas terras onde se plantando tudo dá perderão suas preciosas vidas na emoção de uma disputa de camisas e de cores. Nada mais.

Pedro Porfírio é jornalista e escritor. Artigo publicado na Tribuna da Imprensa e no site http://www.palanquelivre.com/