domingo, 25 de junho de 2006

Roteiro de uma Comédia de Erros

Edição de artigos de Domingo do Alerta Total: http://alertatotal.blogspot.com

Por Sônia van Dijck

Lula gasta um tempo enorme e mais um monte de ocasiões e umas tantas centenas de milhares de palavras para demonizar os servidores públicos.
Aí, ele consegue, graças às mais escusas jogadas (consultar denúncia do Procurador ao STF sobre mensalão), a tal maldita reforma da previdência, que leva uma grana preta dos inativos e dos pensionistas para algum granoduto nunca dantes navegado.

Todo feliz, com aquele sorriso preparado para faturar na mídia (e olha que Lula, como bom petista, odeia a tal mídia, que eles - os petistas e outros desequilibrados espertos - dizem ser burguesa, golpista e reacionária), parte para trilhar o caminho da permanência no poder, com muita grana recolhida dos aposentados e dos pensionistas (e de cavernas inexploradas pelos mortais comuns) com destino ignorado (os labirintos petistas não podem ser seguros nem para quem usar uma bússola - toda bússola aponta o Norte - o PT segue caminhos sempre escusos).

E Lula é isso e mais aquilo e até se torna o Inocente-Mor desta república de banana. Quase que supera Colombo (que elle já superou Collor, ninguém tem dúvida) e falta pouco para dizer que chegou por aqui antes de Cabral - ninguém se espante se, no horário eleitoral gratuito, Lula, o megalômano, defender a tese de que conheceu esta Terra de Pindorama, antes de Cabral aportar nas areias baianas - ele só não vai dizer que foi o primeiro a emprenhar uma índia, porque disse, em Pelotas, em 2003, que engravidou a "Galega" na noite do casamento e, com isso, ficou mais amarrado para lides engravídicas do que candidato a garanhão capado... e se disser uma tal lorota vai ter que enfrentar o bravo Caramuru.

Servidores federais entram em greve; saem de greve com ou sem ganhos, mas sempre de mãos abanando.
Os professores das universidades federais entram e saem de greve, mas sempre com as mãos vazias (universidade é coisa de menor importância em qualquer país sério)

E, agora, passado o prazo estipulado em Lei, Lulinha-grande-companheiro-dos-servidores (na verdade, seus colegas, pois Elle, o Líder, não passa de um servidor federal, ainda que se institua messias), tem um estalo de justiceiro e se lembra dos companheiros servidores.

Grande Lula! (esse grito é para a platéia e as galerias, afinal a plebe rude e ignara também entra na fita)

Só os desavisados subestimam um Apedeuta bem assessorado!

Tática perfeita: agora, a culpa de os servidores federais ficarem na miséria de sempre é do TSE.

Grande e esperto Lula! Grande Lula, sem escrúpulo para o fingimento! (coro, na boca da urna de votação)

Faz parte do plano do socialismo fajuta do PT reduzir a classe média (os servidores federais são mesmo classe média) a pó de traque.
O ideal é que se inscrevam no Bolsa Família (o Fome Zero era só propaganda enganosa e não deu em nada e nem deve voltar ao palco) e que "botem as mãos pro céu", para agradecer, primeiro, a Deus, e, aqui, nesta terra de corruptos e espertalhões, a Lulinha-paz-e-amor (neste momento, as mãos devem ser dirigidas para o Planalto Central mesmo - é lá que está o trono de Lula).

Resumo da ópera: Lula dá uma de valente, como todo bom justiceiro, e bate o pé e enfrenta o TSE - em seguida vai ao palanque eleitoreiro e proclama que o TSE não permitiu que ele fosse o companheiro justo e fiel (= mui amigo) dos servidores públicos.

The end: os servidores públicos caem nas bravatas salvíficas de Lula, ficam revoltados com o TSE e votam em Lula para ad infinitum.

Lula já está com seus 40 amigos no Palácio...
Fecha o pano - acendem-se as luzes.
Ninguém olha pra cara de ninguém.

(APLAUSOS)

Detalhe para a direção do espetáculo: os professores das universidades federais que não tiveram e não terão reajuste (apesar do acordo que encerrou a greve de 2005) devem ser colocados fora de cena, fora das galerias - devem ser mandados para o Bolsa Família.

Vamos ganhar o OSCAR (talvez o NOBEL ou a Palma de Ouro ou o Quiquito) - de quê? Perguntem a Lula - mas, tenham certeza de que o prêmio irá para o caixa 2 do PT - fazer o quê?

ATENÇÃO: Ninguém precisa entrar em pânico. Tudo é só ficção. É só um pouco mais real do que Luar sobre Parador, pois estamos vivendo pra valer tudo isso.

Mantenham a calma e apertem os cintos - vamos descer ao inferno!

Sônia van Dijck é Doutora em Letras e ensaísta