quinta-feira, 3 de agosto de 2006

Agonia e desespero com uma praga

Edição de Quinta-feira do http://alertatotal.blogspot.com

Por Marcio Accioly

Vejam só como se encontra a situação deste nosso carcomido país. A Assembléia Legislativa da Bahia deverá instalar, até a próxima semana, a CPI do Cacau. A informação foi divulgada pelo Alerta Total, na edição de ontem.

O estado da Bahia, como se sabe, foi grande produtor e exportador de cacau, mas agora está transformado em mero importador. Sua economia sempre girou em torno disso. A atividade cacaueira aparece como cenário e pano de fundo dos romances de Jorge Amado (1912-2001), adaptados para novelas televisivas com enorme sucesso.

Mesmo apesar de muitos críticos afirmarem que o celebrado escritor só escreveu um romance (Gabriela Cravo e Canela), desenvolvendo, nos demais, variações sobre o mesmo tema.
Mas que aconteceu na Bahia para extinguir seu cacau? Segundo a revista Veja do dia 21/06/2006 (n° 1.961), a destruição das lavouras foi causada por “terrorismo biológico” praticado por técnicos da Ceplac – Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira – (vinculados ao PT), ao introduzirem a praga da “vassoura de bruxa”.

História que não se tem como admitir. A Ceplac é um órgão do Ministério da Agricultura, cuja atribuição é justamente cuidar do cacau. A denúncia do crime foi efetuada pelo técnico em administração Luiz Henrique Franco Timóteo, que se confessa “ardoroso militante esquerdista do PDT”.

Ele se juntou a cinco militantes do PT “para conceber e executar a sabotagem contra barões do cacau” com o objetivo de lhes minar a influência política. Todos eles funcionários do órgão e conhecedores da técnica de disseminação da praga.

De acordo com Timóteo, “os ataques eram realizados nos finais de semana e os técnicos utilizavam um veículo da própria Ceplac” (com o logotipo do órgão na porta), a fim de não despertar suspeitas.

A destruição da lavoura do cacau “deixou 30 mil produtores falidos e mais de 250 mil trabalhadores rurais desempregados”. Calcula-se que o prejuízo alcance a cifra de 10 bilhões de dólares!

É esse o Brasil a que chegamos, colocado numa encruzilhada de desespero. Com técnicos contratados e pagos pelo Estado praticando atos criminosos e ficando impunes. Com parlamentares eleitos para representar a sociedade, cometendo crimes dos mais escabrosos, desviando recursos financeiros e fomentando a miséria.

Em vastas áreas dos três poderes da República, parcela expressiva de nossas chamadas autoridades não tem agido de maneira diferente. Como se a ela causasse prazer a tarefa de fazer regredir o país, mesmo que na ação ingrata o caráter de predador e desonrado se revele nos mínimos detalhes e todos sejam também derrotados no crime.

Observadores credenciados da cena político-administrativa brasileira concordam com a opinião de que as próximas eleições serão decisivas, em termos de parâmetro para os rumos que se terá de seguir. Não há mais como conviver com tanto vilipêndio e sacrifício.

Em 1879, o jurista e escritor Clóvis Bevilacqua (1859-1944), indagou: “Não haverá um único homem que, purificando o trato das instituições, sustenha a pátria que resvala para o abismo, no qual irá encontrar seu esfacelamento?”

A derrocada da economia cacaueira na Bahia clama aos céus por Justiça, reclama o esclarecimento do fato e exige a punição dos envolvidos. Até quando a insensibilidade, a inação e o descaso irão nos impor tamanha ignomínia?

Marcio Accioly é jornalista.

Nenhum comentário: