domingo, 6 de agosto de 2006

Parcerias que não deram certo

Edição de artigos de Domingo do Alerta Total: http://alertatotal.blogspot.com

Por Adriana Vandoni

Lastimável a situação mostrada esta semana sobre o município de Alto Paraguai (MT) em uma reportagem da TV Centro América. Uma cidade abandonada e entregue à própria sorte. O que está acontecendo? Nada mais que o resultado do fim de um ciclo econômico e a ausência de planejamento.

Alto Paraguai nasceu do garimpo em 1945. A população que em 2000 era de 8.605 hoje não deve passar de 6.500, ou seja, em seis anos algo como 35% dos moradores saiu da cidade em busca de oportunidades, porque a cidade não oferece nada além de fadar os moradores à miséria e abandono. Houve queda em todos os indicadores sociais, conforme o IDH – Índice de Desenvolvimento Humano.

Existem meios de impedir a falência dessas cidades economicamente exauridas e essa é a função do estado, e dever precípuo de um governo. Em novembro de 2002 o IBGE publicou uma matéria sobre a evasão populacional de 40 municípios do estado. Era ano eleitoral e a pesquisa deveria servir como um norteador e alerta para o próximo governante, porém a terra lá está degradada pelo garimpo, e o solo talvez não sirva aos frutos desejados.

Mas existem outros potenciais, como o turístico, que não foi incentivado. De acordo com informações da AMM (associação dos municípios de MT) na cidade não existem hotéis, restaurantes ou mesmo pontos turísticos. Um grande erro! Na verdade não existe um plano para resgatar do abandono aquele município onde está a cabeceira do Rio Paraguai.
E o governo estadual? Bem, os nossos governantes não tinham interesses econômicos naquela região com problemas ambientais e em crise de identidade econômica. Não seria uma parceria de sucesso, logo, foi pra debaixo do braço.

O que será, então, de lá? Se insistirmos nesse modelo de desenvolvimento, ou na falta de um modelo sustentável, será uma cidade fantasma. Entendo que estou fatalizando o futuro, mas uma visão administrativa não pode se furtar a criar cenários e modelos alternativos à tais situações. Não realizar isso é irresponsabilidade administrativa.

Ao estado caberia a criação de um ambiente favorável ao desenvolvimento, e no caso de Alto Paraguai o turismo é uma alternativa que deveria ser incentivada. Mas o que se há de fazer!!! Recordo-me bem da primeira festa do Pantanal da atual gestão quando o governador disse ao Ministro do Turismo que aquela feira só estava se realizando em função dos recursos do governo federal, pois em sua gestão nada seria investido em turismo. Cumpriu a promessa! Uma pena, porque talvez essa seria a saída para a região do Alto Paraguai, rica em belezas naturais.

Mato Grosso adotou nesses últimos anos, o modelo de planejamento “reativo midiático”. Depois que a desgraça era exposta em algum jornal, iniciavam uma ação como heróis da estratégia. Se ao menos isso desse certo! Infelizmente todas essas ações além de reativas, foram ineficientes. Aliás, o atual gestor poderia ter extinguido alguns órgãos como, por exemplo, a secretaria de Turismo, que nada mais fez que acomodar afilhados do deputado federal Pedro Henry (PP/MT). Grande Pedro Henry!

A atual gestão pode ficar registrada na história como a era de Políticas de Governo e não de Políticas Públicas. O construtor de cascas, frio e sem alma, um governo que não atende a necessidade, mas mal e parcamente o necessitado. Um governo que, conforme escrito no seu relatório de gestão, para “promover a inserção de pessoas em situação de pobreza” distribui cobertores e cestas básicas. Isso não é Política Pública de Ação Social, mas apenas um distribuidor de esmolas oficial. É indiscutível o valor dessas distribuições, mas este é apenas um exemplo da deturpação do que seja Política Pública de Ação Social.

Claro que isso segue uma lógica. A lógica empresarial.

Enquanto isso, resta-nos assistir passivamente a degradação de cidades como Alto Paraguai, que no lugar de destino, possuem sina. Quantas estão trilhando pelo mesmo caminho?

A diferença entre o homem público e o empresarial é que o primeiro enxerga além da viabilidade econômica de uma região. Enxerga vidas, e as possibilidades de permitir o bem estar delas. Não se deixa ao ocaso regiões que pareçam inviáveis economicamente.

É, não basta ter boa intenção, ao administrador público é imprescindível ter visão pública.

Adriana Vandoni é economista, especialista em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas/RJ. Articulista do Jornal A Gazeta.
Blog: http://argumentoeprosa.blogspot.com