domingo, 22 de outubro de 2006

Entrando de gaiato no Titanic

Edição de Artigos de Domingo do Alerta Total: http://alertatotal.blogspot.com

Por Pedro Porfírio

Quando um tolo pratica um ato de que se envergonha, declara sempre que fez o seu dever”.
Bernard Shaw, teatrólogo irlandês (1856-1950)

Eu nem ia escrever hoje sobre a sucessão presidencial. Juro. Pode parecer meio sem sentido, mas estou cansado desse falso confronto. Não sou porta-voz de ninguém. Portanto, não me obrigo a ficar respondendo a isso ou aquilo.

Mas me sinto igualmente incomodado com essa doença que se espalha inclusive entre profissionais respeitáveis. De repente, com essas pesquisas apontando para o continuísmo, pessoas que pareciam apaixonadas pela contestação de Heloísa Helena, assinam documentos dizendo, na maior sem cerimônia, que Lula e Alckmin representam propostas antagônicas de governo.

Antagônicas em quê, cara pálida? Pra cima deste escriba de 44 anos de jornal, do tempo da máquina plana, no Ceará, e das linotipos na ÚLTIMA HORA da Praça da Bandeira?

Vamos fazer um acordo: você quer arranjar um pretexto para votar naquele que aparece como o vencedor de véspera, onde você tem amigos e até mesmo de onde você saiu envergonhado, dizendo-se traído, não precisa dourar a pílula.

Curioso, você agora deu para criticar as privatizações do FHC, negócios que, um dia, quando houver alguém da têmpera do Brizola, vamos rever com coragem e patriotismo, visando tão somente o interesse do Brasil.

Mas por que essa turma que esteve esses quatro anos com a faca e o queixo na mão não moveu uma palha para, pelo menos, passar a limpo privatizações escandalosas, como a da Vale do Rio Doce?

Isso não é futebol não, meu caro. No futebol, a gente tem sempre uma desculpa e uma expectativa para o time do nosso coração. Na pior das hipóteses, aplaude a demissão do técnico, hoje uma profissão de risco.

Nada de mistificações

Mas se você quer influir com dignidade, sem embarcar nas mesmas mistificações, então me poupe e aos brasileiros. Não venha com essa ridícula pretensão de tapar o sol com a peneira. Isso não cola. É mais fácil o mar secar.

A primeira potoca que precisa ser esclarecida de uma vez por todas é sobre a roubalheira. Você pode até dizer que a turma da pesada que escancarou geral não é pioneira no ramo. Isso pode.

Mas dizer que pela primeira vez estão investigando, aí, não dá para engolir calado. Lembra do Waldomiro, o parceirão do José Dirceu? Quando estourou sua primeira trapaça esse governo aí tratou de abafar. E conseguiu, porque ainda estava em lua de mel com a massa. Só um ano depois, quando o bicheiro goiano abriu o bico, ele foi demitido “a pedido”. Já então havia montado a mais audaciosa rede de cooptação de deputados mediante polpudas propinas: a companheirada do mensalão.

E quando estourou o escândalo dos Correios? Foi só o Roberto Jefferson assinar a CPI que abria a guarda do esquemão operado pelo Marcos Valério (lembra do careca?), o Palácio do Planalto, devidamente sintonizada com o seu presidente, montou uma verdadeira operação - abafa. Esqueceu, companheiro?

José Dirceu, então todo poderoso, e Aldo Rabelo foram à casa do deputado petebista implorar que ajudasse a detonar a CPI dos Correios. Foi um vexame. Já em 2005, que não era ano eleitoral, o governo do sr. Luiz Inácio fez o diabo para impedir investigações. Tou mentindo, irmão?

A partir daí, foi um escândalo atrás do outro. O Lula, sempre “inocente, enganado”, fazia o mesmo que os times de futebol: ia sacrificando alguns dos seus “técnicos”, um a um. E conseguiu um prodígio: hoje a massa está reagindo como a mulher ameaçada de estupro. É bonito isso?

E esse último escândalo do dinheiro usado para a compra de um dossiê fajuto, montado pelos delinqüentes das ambulâncias, não lhe causa espécie. E se fosse “coisa da direita”, você engoliria a seco, como está fazendo agora com seus manifestos e seus discursos empolados?

Num documento que um jovem jornalista me mandou, com assinaturas respeitáveis, falam até da mulher do Alckmin. Não morro de amores por essa família, mas o que contrapõem? O que a dona Marisa Letícia fez de útil nesses anos em que custou uma fortuna ao país? Nos meus 63 anos, não me lembro de nenhuma “primeira dama” tão deslumbrada e tão omissa, preocupada tão somente em aparecer na foto.

É uma pena. Você já procurou ver o quanto suas mordomias burguesas custaram ao erário, isto é, ao nosso bolso? Veja com seus próprios olhos:

A manutenção da Presidência da República custou, de 2002 até agora, R$ 9,4 bilhões, mas foi no ano de 2004 que a era Lula bateu o recorde em gastos: R$ 2,6 bilhões. No início de setembro de 2006, a conta da Presidência já chegava a R$ 1,4 bilhão, despesa superior ao total desembolsado, este ano, pelos Ministérios da Cultura, do Esporte, do Turismo e do Meio Ambiente juntos (R$ 1,2 bilhão). A informação é da ONG Contas Abertas (www.contasabertas.uol.com.br).

E a reforma agrária?

Está lá, com todos os números, e você faz de conta que esse esbanjamento não quer dizer nada. O que quer dizer? Vamos falar de reforma agrária? Taí uma bandeira histórica da esquerda. Curioso, garoto, no manifesto que você me mandou não há uma linha sobre esse desafio social. Por quê? A companheirada já está na folha do agro-negócios?

Um dos seus signatários, profissional sério, colabora com um jornal – o solitário BRASIL DE FATO – que vive denunciando o descaso do governo, o desrespeito às suas promessas em relação aos assentamentos rurais. Você quer o quê? Que os sem-terra, abandonados, partam para a ignorância, enquanto os altos companheiros negociam valores superfaturados das áreas?

Assim não dá, parceiro. Você caiu nesse jargão de ficar com o certo e fugir do duvidoso. Isso convence, sabe? Quem não está sofrendo as conseqüências da política de dois pesos e duas medidas do BNDES, que abandou a Varig e deu empréstimo de mão beijada à Brasil Telecon (leia-se Itália) pode ficar voando sobre a realidade.

Quem não sofreu a “reforma” da Previdência que detonou direitos adquiridos pode falar de governo progressista com essa turma braba. E por falar em previdência, já sabe que os amigos do Gushiken já estão alinhavando outro massacre? Prepare-se, meu filho, você que aplaude o “prouni” que desvia verbas públicas para salvar faculdades privadas, ainda vai experimentar o que é bom para tosse.

E aí o nosso querido Augusto Boal não poderá dizer, com sua aura messiânica, que “que errar faz muito bem à saúde...desde que se aprenda”. Não vai dizer porque em seu lugar todos falarão em uníssono: entramos de gaiato no navio.

Pedro Porfírio é Jornalista. Artigo originalmente publicado na Tribuna da Imprensa de 20 de outubro http://www.tribuna.inf.br/porfirio.asp

Um comentário:

Anônimo disse...

Caro Ferrão, parabéns pela sua excelente explanação a respeito do apedeuta. Ainda não consegui entender por que não há ainda um processo de impeachment. As instituições só funcionaram para Collor, que era inocente? Sabe Ferrão que eu gostaria de olhar dentro dos olhos do presidente para chamá-lo de canalha? Ele é tão covarde que não consegue falar o nome de Alckmin, ele fala "adversários". Sabe por que? Porque faz parte de bando que age a mando dele.