quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

Analise o discurso do Presidente Lula

Segunda Edição Extra desta Quinta-feira do Alerta Total http://alertatotal.blogspot.com

Por Luiz Inácio Lula da Silva

O Alerta Total propõe aos leitores e leitoras uma análise do discurso do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na cerimônia de entrega dos prêmios: “Brasileiro do Ano” pela revista IstoÉ, “Empreendedor do Ano” pela revista IstoÉ Dinheiro, e “Personalidade do Ano” pela revista IstoÉ Gente, na última segunda-feira, 11 de dezembro de 2006, no Hotel Unique, em São Paulo. Estavam presentes o governador de São Paulo, Cláudio Lembo, Renan Calheiros, presidente do Senado, Marco Aurélio Mello, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Domingo Alzugaray, editor da Editora Três:

Meus queridos companheiros senadores,
Meu caro Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo,
Empresários aqui presentes,
Jornalistas,
Editores,

Governadores aqui presentes – um aviso aos navegantes, Jaques Wagner e Yeda, comemorem bem esse período, que é o melhor do governo, entre a vitória e a posse, porque depois da posse vocês vão ver o que é bom.

Os premiados André Esteves, Antônio Ermírio de Moraes, Cao Hamburger, Eduardo Fischer, Lázaro Brandão, Marilson Gomes dos Santos, Mayana Zatz, Regina Duarte, Roberto Rodrigues, Sérgio Amado e Sérgio Gabrielli. Prometo não fazer discurso, Antônio Ermírio, eu trouxe o meu discurso por escrito, mas não vou ler.

Eu queria apenas lembrar uma coisa importante, neste momento em que estamos prestes a começar um novo período na história do Brasil. Afinal de contas, a partir de primeiro de janeiro, nós teremos um outro momento da história do nosso País.

Quando a nossa companheira premiada falava da CTNBio, Roberto Rodrigues, se ela presenciasse uma reunião nossa, certamente ela não poderia fazer crítica melhor, porque nós temos um problema e eu resolvi agora, depois das eleições, dizer que nós vamos ter que destravar o Brasil. Quem quiser entender o que é isso, é só pegar a história do Brasil mais recente, a partir do governo Geisel, que foi o último presidente que teve um potencial de investimento em infra-estrutura. Possivelmente, pela capacidade de investimento que tivemos no governo Geisel, perdemos depois, não é, Sarney?

Depois perdemos porque, a partir dali, houve poucos investimentos em infra-estrutura e, se pegarmos o governo Figueiredo, nós já estamos há 26 anos, não é pouca coisa, vinte e seis anos em que investimos menos do que precisamos em infra-estrutura, 26 anos em que crescemos menos do que precisamos crescer, em que geramos menos empregos do que precisamos gerar, em que fazemos menos distribuição de renda do que precisamos fazer.

É importante salientar que a solução desses graves problemas não é de um governo, não é de um homem e, muito menos, de um partido político. É preciso que assumamos, coletivamente, a responsabilidade pelo que aconteceu nesses 26 anos no País, e assumamos a responsabilidade pelo que nós queiramos que aconteça nos próximos 26 anos.

Eu digo isso porque quando falo a palavra “destravar o País” me parece que o País foi proibido de fazer as coisas que precisam ser feitas. Eu queria lembrar ao Alzugaray, que é um homem que está sempre reclamando a necessidade do crescimento econômico, que nós tivemos dois momentos históricos... os papéis que eu tinha colocado aqui, não sei por que, sem minha orientação, tiraram daqui de dentro, mas eram exatamente os papéis que eu queria, tiraram e deixaram o discurso, que eu não queria. Faz parte do processo político brasileiro.

Queria dizer que nós temos dois momentos que poderiam ser marcantes para quem faz política no Brasil, para quem é empresário, para quem dirige federação de indústria, para quem dirige confederação, para quem escreve sobre economia, para quem dá palpite sobre economia, para analisar o seguinte: em que momentos históricos o nosso País conseguiu crescer com inflação baixa?

Se nós pegarmos o governo Juscelino, que depois de 50 anos foi notabilizado como um dos grandes presidentes da história do País, a gente nunca pode deixar de ler o que diziam do Juscelino quando era presidente, porque depois de 50 anos até eu posso virar herói nacional.
É importante medir o que aconteceu no período histórico, para que a gente tenha a noção de que todos nós temos um pouco de responsabilidade com as coisas boas e as coisas más que acontecem neste País.

Muitas vezes nós preferimos apenas as coisas boas, as más ficam para os outros. E por que eu quero dizer isso? Porque durante todo o período do governo Juscelino Kubitschek a economia cresceu 7%. Entretanto, a inflação esteve acima de 22%, de 25%, de 30%, e sequer o salário mínimo acompanhou o crescimento da inflação.

Se nós pegarmos um período mais recente em que todos nós participamos dele, o chamado milagre brasileiro, que vai de 1967 a 1973... eu não sei se o Delfim Netto está aqui, porque eu agora sou amigo do Delfim Netto. Passei vinte e poucos anos criticando o Delfim Netto e agora o Delfim Netto é meu amigo e eu sou amigo dele. E por que eu estou dizendo isso? Porque eu acho que é a evolução da espécie humana. Quem é mais de direita vai ficando mais de centro, quem é mais de esquerda vai ficando social-democrata, menos à esquerda, e as coisas vão confluindo de acordo com a quantidade de cabelos brancos que você vai tendo e de acordo com a responsabilidade que você tem, não tem outro jeito. Se você conhecer uma pessoa muito idosa esquerdista, é porque ela está com problema. Se conhecer uma pessoa muito nova de direita, também está com problema. Então, quando a gente tem 60 anos, Antônio Ermírio, é a idade do ponto de equilíbrio, em que a gente não é nem um nem outro, a gente se transforma no caminho do meio, aquele caminho que precisa ser seguido pela sociedade.

Mas eu estava dizendo do período do milagre brasileiro. Eu vivi o período do milagre brasileiro dentro da fábrica, eu vivi um período em que a gente estava de manhã na porta de uma fábrica em São Bernardo do Campo fazendo assembléia e passava uma perua, com um carro de som, roubando trabalhador que estava na fila, porque tinha uma quantidade de placa escrita “precisa-se” maior que este painel todo aqui. E simplesmente passava uma Kombi: soldador, torneiro, ferramenteiro, tal empresa está pagando mais. O pessoal saía da fila de uma fábrica que estava oferecendo emprego, pegava a Kombi e ia para outra.

Aquele foi um momento em que a economia brasileira chegou a crescer 14%, 13,94% em 1973. A economia chegou a crescer 11,34%, 10,94%, entretanto, um crescimento com inflação também de 15%, de 20%, de 25% e com um acúmulo enorme da concentração de riqueza. Qual é o desafio que está colocado para nós agora? No milagre brasileiro nós tínhamos o eurodólar e não tínhamos nem a China e nem a Índia disputando esses dólares. Era Brasil, Argentina, México e não tinha nem o Leste europeu, portanto, os olhares estavam para a América do Sul, América Latina, não estavam para a África e não estavam para a Ásia.

Pois bem, nós recebemos muito dinheiro, só que não avisaram para a gente que um dia a gente tinha que pagar. E quando começamos a pagar, estamos até hoje numa situação... hoje não, porque as nossas reservas em dólares são maiores do que a nossa dívida externa pública, portanto, nós estamos tranqüilos.

Mas, nós vivemos um período em que a gente tinha esse montante de recursos que vinham para cá. Hoje, qual é o desafio que tem, meu caro Alzugaray, você, eu, quem for governar São Paulo, quem for governar a Bahia, quem for governar o Rio Grande do Sul, quem for investir em fábrica de papel de celulose, em fábrica de papel de alumínio, Antônio Ermírio de Moraes, quem for investir em gasoduto na Petrobras e quem for investir em qualquer outra coisa? Qual é o desafio que nós temos hoje?

Primeiro, os dólares que existem no mercado, aos montes, são disputados por gigantes que oferecem muito mais oportunidades que o Brasil. A disputa hoje não é Brasil e México, ou Brasil e Argentina, ou Brasil e Venezuela. A disputa hoje é Brasil e China, é Brasil e Índia, e as condições que alguns países oferecem para os empresários nós não podemos oferecer, não devemos oferecer, porque uma delas é o fortalecimento da democracia que nós precisamos manter neste País, ter sindicatos fortes, ter imprensa livre, ter Congresso forte, ter Justiça forte, ou seja, esse é o equilíbrio da democracia e nós precisamos aprender a conviver com ele, mesmo na diversidade.

A segunda coisa importante é que nós estamos querendo fazer com que este País cresça, sem permitir que a inflação volte e sem permitir que a irresponsabilidade fiscal tome conta do País outra vez. É aí que entra o desafio, meu caro Antônio Ermírio de Moraes, que não é meu, é nosso: como fazer este País voltar a crescer à taxa de 5%, de 6%, de 7%, com inflação baixa. Não existe experiência na cultura deste País.

Segundo: como fazer este País voltar a crescer, o Estado adquirir capacidade de investimento, sem você – como diria um bom baiano – bulir na Lei de Responsabilidade Fiscal, a ponto de transformar o Estado em vítima daquilo que nós sabíamos que acontecia aqui há 20 anos, todos os estados, com quatro ou cinco vezes a sua capacidade de investimento e de arrecadação em dívidas? Como fazer isso? Esse é um desafio.

Eu estou, há mais ou menos... desde que eu ganhei as eleições – eu pensei que ia descansar, Antônio Ermírio de Moraes – eu estou juntando, como nunca fiz na vida, todos os Ministros para tentar destravar o País. Depois que a gente aprontar, nós vamos repartir com o Congresso Nacional, vamos entregar uma parte das coisas que nós achamos que precisamos mudar para o Renan Calheiros e para o Aldo Rebelo, depois nós vamos entregar uma parte nas conversas com o Poder Judiciário, depois nós vamos tentar reordenar internamente o funcionamento de coisas que hoje não permitem que as coisas fluam.

O País é assim: o Estado dá um direito às pessoas e tira com outras mãos. A lei que regulamenta o meio ambiente neste País obriga a dar licença prévia para uma obra. Mas, na medida em que ela exige, pune o cidadão que der, e for processado pelo Ministério Público, com a indisponibilidade dos seus bens. Então, o funcionário público fala: “Bom, esse governo é passageiro, ele tem quatro anos, eu tenho 30 anos”. Eu, de vez em quando me sinto, sabe como? O trem. O trem vai, pára, os Ministros são as locomotivas e a estação é a máquina pública. A estação está imexível, como diria o Magri, ela está lá, impoluta, e o trem faz barulho e passa. Vem outro trem, faz barulho e passa. Ou seja, isso vem assim.

Eu me lembro que o presidente Sarney uma vez me disse, logo que ganhei as eleições: “Presidente Lula, o senhor vai perceber uma coisa, de 100% das coisas que a gente decide neste País, apenas 20% conseguem andar porque os outros 80% param em algum pedaço, em alguma máquina, em alguma mesa, em alguma instância“.

Eu dizia ao nosso presidente do Tribunal Superior Eleitoral, eu dizia para ele agora há pouco... vocês sabem qual é a dívida ativa do Tesouro brasileiro? E não aparece nas discussões que a gente faz neste País. A dívida ativa significa 390 bilhões de reais. Sabe qual é a dívida ativa da Previdência, dr. Antônio? Cento e noventa bilhões de reais. Sabe qual é o rito para um processo cumprir todo o rito administrativo até chegar à primeira instância do Poder Judiciário? Sete anos. Para chegar ao Supremo, 16 anos. Essas coisas não aparecem.

De vez em quando eu vejo as pessoas depositarem a solução do Brasil na reforma da Previdência Social. Ah, tudo agora é reforma da Previdência. Tudo era Constituição, tudo era reforma tributária. De dez em dez anos nós arrumamos um manto sagrado, em que ele é a culpa de tudo. E não tem uma coisa culpada, é um conjunto de coisas que foram montadas ao longo de muitos anos neste País e que nós precisamos tratar, enquanto seres humanos e brasileiros responsáveis, destravar este País para ele caminhar como todos nós queremos que ele caminhe.

Na Previdência Social – quem foi deputado Constituinte, e aqui tem alguns que eu sei que foram... – nós incluímos na Previdência Social sete milhões de pessoas que não pagavam a Previdência. Eu acho a melhor política de distribuição de renda do País mas, de qualquer forma, nós incluímos e não dissemos de onde vinha o dinheiro. Depois, nós criamos outras coisas e não dissemos de onde vinha o dinheiro. Hoje, o que nós temos? Nós temos um equilíbrio entre o que pagam os empresários e o que pagam os trabalhadores e os que recebem, aqueles que estão recebendo benefícios, e temos um desequilíbrio enorme das coisas que nós colocamos a mais e que não responsabilizamos quem é que ia pagar aquilo.

Então eu queria, Alzugaray, neste momento em que aqueles que estabeleceram o critério do Prêmio me deram o Prêmio, certamente porque eu ganhei as eleições, se eu tivesse perdido eu não seria o “Homem do Ano”. Mas, quando a gente ganha... Eu queria dizer para vocês o seguinte: o desafio que está colocado para este País é mais do que uma pauta de reivindicação, é um desafio que precisa desafiar a inteligência de quem está no governo e de quem está fora, de empresários grandes, pequenos e médios porque, ou nós encontramos a fórmula mágica de fazer este País voltar a crescer...

E tem gente que fala: “Não, Presidente, se crescer dois números a inflação, não tem problema, mais dois”. Acontece que eu conheço a história, se a gente deixar a inflação voltar a dois dígitos, ela vai para três, porque os mesmos que brigam a vida inteira contra a taxa de juros não brigam contra o aumento da inflação, não brigam. Até porque, no Brasil, tem gente que ganha com a inflação e, certamente, não são os trabalhadores brasileiros e, muito menos, os que ganham menos.

Nestes próximos quatro anos, eu assumi a tarefa de ajudar os mais pobres deste País. Nos primeiros quatro anos, fizemos uma parte daquilo que precisamos fazer, não fizemos tudo não – viu, Wagner? – fizemos uma parte, tem mais para fazer. O nosso segundo desafio é fazer com que este País possa crescer de forma a contemplar o ambiente de desejo que está na cabeça de todos nós: a combinação de investimentos privados e de investimento público, a combinação de um dinheiro externo que nós precisamos convencer a vir para cá.

Não adianta eu querer trazer para cá, doutor Antônio, uma fábrica de papel e celulose, porque a legislação diz para nós: “Olha, tal terra é dos índios, nós estamos na terra dos índios”. Aí, no dia seguinte, tem mais terra para mais índio, no dia seguinte tem mais terra de quilombola, no dia seguinte tem... Ou seja, ou nós estabelecemos um marco jurídico para resolver isso definitivamente, ou ninguém acredita que as coisas podem dar certo neste País, as pessoas ficam olhando.

Então, é mais um desafio que eu estou assumindo, até porque não teria nenhum sentido eu ter sido reeleito se não fosse para dar o passo seguinte. E o passo seguinte vai ser crescimento econômico com desenvolvimento, distribuição de renda e educação de qualidade. Espero estar vivo para daqui a quatro anos, Alzugaray, vocês me darem o prêmio de brasileiro que cumpriu com as palavras assumidas durante a campanha.

Muito obrigado e que Deus abençoe todos vocês.

7 comentários:

marco disse...

Meus caros,nunca tinha lido um discurso tão medíocre,confuso e primário como esse do Lula.É impossível que os presentes não tenham sentido o mesmo.Aquela questão do esquerdismo após os 60 anos - que chamo de esquerda tardia - é o de menos.O resto é que é de assombrar:confusão na estrutura do pensamento,falta de senso de oportunidade e por aí vai.E o pior:ausência total de auto-crítica.

marco disse...

Caro Jorge Serrão.
Relendo o discurso,descobri algo que me passou despercebido:"...e a gente se transforma no caminho do meio".Como?Ele se considera o Messias do povo brasileiro?"Vinde a mim,que sou o caminho".Pode até ser um caso psicopatológico.

Jose disse...

Este "discurso" é de um primarismo estarrecedor, além de incongruente, do princípio ao fim, digno de um "prisidenti da repúbrica"... Parece mais discurso de formatura do antigo MOBRAL, sem querer ofender aqueles esforçados brasileiros que lutaram para sair da indigência absoluta das letras, sendo promovidos a "analfabetos funcionais". Vixe!!!

Ibis disse...

É simples. Se o dinheiro não vem de fora porquê o governo tem um "pacto com a democracia" e os investidores sérios sabem muito bem o que significa esse tal "pacto com a democracia àla USP" então entra em cena o confisco do dinheiro da classe média, já que rico pega o dinheiro e põe no exterior. Pronto, tá explicado. Por isso o Collor voltou, por isso o Delfim está ai de volta. Tá tudo na ordem. Quem tiver dinheiro guardado em banco que tire imediatamente. Vem ai confisco e dos bravos.

Cristal disse...

Nuncaantesnessepaiz um prisidente da repúbrica fez um discurso como este.
Tão maguinanimo,de uma boniteza muito
bonita,de uma crareza muito crara,
de uma verdade verdadera.
Parabéns prisidente!!!

Mario disse...

Discurso digno.... do maior chefe de quadrilha que já existiu no planeta. Analfabeto, ignorante, falando por ouvir dizer (nunca leu nem jornal). Não há e não haverá investimentos enquanto não houver segurança jurídica. Vale dizer: não há e não haverá crescimento enquanto a quadrilha comandar estepaiz.

Só uma revista IstoÉ (ou IstoEra), financiada pela petralhada poderia conceder tal prêmio ao chefão da gang.

Anônimo disse...

Difícil, para uma pessoa limitada como Lula, é tentar trasmitir com palavras amenas, que não firam a nossa pseudo democracia, a cartilha que está sendo cumprida à risca pelo Foro de São Paulo. Ocorre que em um determinado momento desse segundo mandato deverá haver um "corte" em seu discurso "embromador" para assumir de vez a linha socialista. Aí todos nós entenderemos com clareza o que ele quer dizer com essas palavras confusas...