sexta-feira, 23 de março de 2007

Sem a Menor Distinção

Edição de Artigos de Sexta-feira do Alerta Total http://alertatotal.blogspot.com

Por Márcio Accioly

Antes de assumir de forma preponderante o cunho tão somente depreciativo dos nossos dias, o substantivo masculino “cinismo” definia uma doutrina filosófica da Grécia antiga, fundada por Antístenes de Atenas, e difundida por ele e Diógenes de Sinope, lá pelos idos dos séculos V e IV a.C.

Significa “profunda falta de confiança na natureza humana e suas motivações”, assegurando que “a virtude é o único bem e sua essência reside no autocontrole e independência”. O adepto dessa escola é desencantado, sem ilusões!

No Brasil em especial, o adjetivo “cínico” virou sinônimo de “desavergonhado”, “safado” e “descarado”, entre outros menos aconselháveis. É assim como um eufemismo que as ações do desmoralizado cotidiano, principalmente na área política, vão se encarregando de mergulhar, também, na vala comum.

Pois foi de “cínico”, no sentido meramente pejorativo, que muita gente tratou de qualificar o encontro político acontecido na última quarta-feira (21), entre o ex-presidente Fernando Collor de Mello (1990-92), atual senador (PTB-AL) e o presidente Dom Luiz Inácio (PT-SP), nosso amável beberrão.

Ainda no primeiro mandato presidencial, Collor de Mello cuidava de desancar o atual mandatário, lembrando a oposição ferrenha sofrida na pele durante sua própria gestão (que terminou em impeachment), e as ações “criminosas” dessa administração.

Numa entrevista a emissora de rádio da capital pernambucana, Collor falou a respeito de José Genoíno (PT-SP), cujo irmão, deputado estadual no Ceará, teve um assessor preso no aeroporto de Guarulhos, com milhares de dólares na cueca.

Falou também das estripulias de Zé Dirceu, ex-chefe da Casa Civil petista e deputado (SP) cassado pela Câmara, além de citar Luís Gushiken e outros indiciados por “formação de quadrilha”, na denúncia efetuada pelo procurador-geral da República.

O bom de tudo isso é que, apesar de não dizer uma só palavra a respeito da violência que mergulha o país em guerra-civil sem controle, nem oferecer proposta de solução aos graves problemas que assolam de Norte a Sul, Dom Luiz Inácio descobriu o caminho das pedras.

O negócio é distribuir dinheiro através das bolsas-família, bolsas-esmola e bolsas-miséria, alcançando regiões que a maioria de seus antecessores sequer imaginou existir, como forma de dividir para reinar.

Porque as chamadas classes médias já se conscientizaram de que as propostas de nosso amável beberrão nada mais foram do que bem orquestrado canto de sereia! E o país se mostra repartido bem ao meio. Não se tem em absoluto a quem apelar.

Como ninguém tem crédito, e os chamados “oposicionistas” estão sempre a postos para recolher prebendas, eis que caminhamos em direção a funesto desfecho que já se afigura inevitável.
E nem é preciso ter bola de cristal para prever o desastre (e saber que virá)! Como na música, “Um Índio”, de Caetano Veloso, “virá tranqüilo e infalível como Bruce Lee”. Dando golpe de misericórdia na organização social perplexa e atabalhoada.

Pois Dom Luiz Inácio, deslumbrado com a função para qual não está à altura, encontrou novas classes de heróis: ministros, usineiros e similares, dissociado da imensa penúria e desamparo da maioria.

De maneira que tudo se encontra misturado e não há mais como saber o que é água e o que óleo é, embora se observe o líquido borbulhante no caldeirão social e se perceba a existência dessas substâncias. É muito cinismo, na pura definição popular!

Márcio Accioly é Jornalista.

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