segunda-feira, 9 de abril de 2007

Apelos Infindos

Edição de Artigos de Segunda-feira do Alerta Total http://alertatotal.blogspot.com

Por Márcio Accioly

Quando a Índia vivia ainda sob o tacão direto do império britânico, a ação política empreendida por Gandhi (1869-1948), através da não violência, gerava descontentamento entre alguns mais próximos, queixosos da lentidão e leniência.

Certa ocasião, um de seus seguidores argumentou a respeito da política do “olho por olho”, defendendo revide pontual a qualquer agressão. Isso fez com que o Mahatma ponderasse que tal prática terminaria por transformar a Índia “numa nação de cegos”.

Gandhi era pessoa que tinha a simplicidade como ideal (e é preciso muita coragem e trabalho para o alcance de tal objetivo), num mundo em que o forte apelo consumista tem deixado enlouquecida a maioria.

O grande líder marcou época com sua autoridade moral e exemplo a ser seguido, mas ninguém faz milagre em sua própria casa. Muitos o execraram por conta de sua aquiescência na formação do Paquistão, e ele se tornou mais reverenciado fora do que dentro da Índia. Afinal, o que é ser perfeito ou atingir a perfeição?

No Brasil, onde se criou o mito do “ser cordial”, com pessoas “boazinhas” e prontas a ajudar o semelhante, mais de 100 mil são assassinados todos os anos, tornando o Iraque, em comparação, espécie de passeio turístico sem qualquer importância.

Pois, num país onde tantos perdem a vida diariamente, ainda se acha que é pouco, muito pouco. Pesquisa efetuada pelo Datafolha, no último mês de março, mostrou que 55% dos entrevistados se dizem favoráveis à pena de morte, como se panacéia para riscos e males.

No país dos “bonzinhos” e do povo que “aceita tudo e não reage” (quanto desconhecimento da história), a solução para as aflições do cotidiano reside em exterminar os suspeitos e malfeitores das camadas mais pobres.

O apoio à pena capital é maior entre aqueles “com renda familiar superior a dez salários mínimos mensais”, 64%. Já entre aqueles que ganham “até dois salários mínimos”, o número favorável fica na casa dos 52%.

A impressão que se tem é que as pessoas não fazem a menor idéia do custo e duração de processo dessa natureza, até a condução do culpado ao instante último. E que sem mudar a atual estrutura de nosso aparato político, não há nada que possa funcionar. Seria a adição de mais um problema de gravíssima proporção.

A simples existência da pena de morte não é capaz de brecar a sanha criminosa de assaltantes e homicidas, estancando num passe de mágica as agressões que povoam noticiário folhetinesco de boa parte dos meios de comunicação.

Que exemplos serão exigidos das autoridades de plantão, a maioria envolvida em desvios de recursos financeiros que geram miséria e desespero para os cidadãos que vivem sob a égide da lei?

Que autoridade moral teriam dirigentes acusados de falcatruas e enriquecimento ilícito, num país onde alguns condenados penam dores desumanas no roubo de uma lata de ervilha ou uma galinha?

A pesquisa serve, porém, como alerta. E é importante que se decifrem sinais. Já não há mais tolerância, diante dos desmandos e perdas irreparáveis, numa sociedade desenganada pela elite político-administrativa e exaurida nos desejos e aspirações.

Quando se observa que a tendência é optar pela eliminação pura e simples dos infratores, numa organização onde bandidos irrecuperáveis se abrigam às pencas no Estado (e lá permanecem impunes), seria o caso de se colocarem barbas de molho.

Ou nos transformaremos numa nação de mortos e mutilados.

Márcio Accioly é Jornalista.

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