terça-feira, 14 de agosto de 2007

Conta de Chegar

Edição de Artigos de terça-feira do Alerta Total http://alertatotal.blogspot.com

Por Márcio Accioly

O ex-senador e usineiro João Lyra (PTB) está convencido de que sua derrota na disputa governamental de 2006, em Alagoas, resultou de grave problema na urna eletrônica e, em especial, de ferrenha oposição que sofreu por parte do senador Renan Calheiros (PMDB). Seu sonho foi por urna abaixo.

Lyra jamais duvidou de sua vitória, pois todas as pesquisas lhe atribuíam folgada maioria. Mas, perdeu, e este foi um choque no qual levou muito tempo até ver a dor amenizar. Pernambucano radicado em Alagoas, ele tem consciência de que, aos 79 anos (em 2010), dificilmente terá oportunidade semelhante.

Quando já se encontrava semi-recuperado, Lyra viu reacendida a sua suspeita de fraude eleitoral. Ela aconteceu em audiência pública no final de março deste ano, na Câmara dos Deputados, quando o professor Clóvis Torres Fernandes e o técnico Amílcar Brunazo Filho ali compareceram.

Clóvis Fernandes é do ITA – Instituto Tecnológico da Aeronáutica, onde leciona na Divisão de Ciência da Computação. Brunazo Filho é respeitadíssimo na área de informática, atuando como representante do Fórum Voto Eletrônico.

O professor afirmou que, depois de ter analisado as 5.166 urnas utilizadas nas eleições alagoanas, chegou à conclusão de que “em 44,19% delas houve alguma perda de integridade”. Em 1.619 urnas, acrescentou, “foram detectados problemas na totalização dos votos para governador, o que significa a perda de 22.562 votos”.

Amílcar Brunazo declarou que “já foram identificados pelo menos 120 pontos em que o processo eletrônico pode ser atacado”. Ele garantiu ser mais seguro “transferir 1 milhão de dólares pela internet do que depositar um voto na urna eletrônica”. O alerta dos dois, até agora, caiu no vazio.

Em algumas eleições, temos tomado conhecimento de pessoas que se queixam do desaparecimento de seus registros. Há casos de candidatos que se tornam alvo de galhofa, por não contabilizarem nenhum voto, incluindo o próprio. Pessoas que juram ter digitado os números corretamente.

O professor do ITA pode ter mostrado o caminho das pedras, embora sua presença na Comissão de Constituição e Justiça não tenha tido a repercussão que seria de se esperar.

Existe incompreensível resistência por parte dos que ditam normas e regras na cena política brasileira, impedindo-se a aprovação de lei que determine a impressão e conferência do voto, depositando-o numa urna. Tal medida iria facilitar possível recontagem, no caso de suspeita de fraude.

Mágoas à parte, João Lyra já confirmou tudo que se tem veiculado com relação à sociedade em órgãos de comunicação com o presidente do Congresso Nacional, detalhando a forma como recebeu dinheiro em espécie, valores não contabilizados na conta bancária de sua excelência. Boa parte em moeda norte-americana (dólar).

Agora, existe um movimento para salvar o pescoço de Renan, que tem efetuado ameaças veladas aos seus pares, revelando detalhes e confidências do seu conhecimento. Dá-se como certo que o Conselho de Ética irá recomendar sua cassação, mas acredita-se que será salvo na votação secreta em plenário.

Se o Senado optar por esse caminho, pode fechar suas portas e aguardar pelo pior. As injustiças cometidas contra mortais comuns são enormes. O nível de tolerância não tem mais o que exceder, ou tem?

Na história em geral, as rupturas começam a acontecer a partir de incidentes sem nenhuma importância aparente. A questão é que os limites vão sendo todos ultrapassados e, quando menos se espera, o caldo transborda.

Estamos caminhando perigosamente para um acúmulo de erros e atos de soberba que irão gerar, no amadurecimento dos fatos, inevitável explosão. Mas nossas autoridades navegam em mar tranqüilo e parecem não conferir a menor importância.

Márcio Accioly é Jornalista.

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