terça-feira, 25 de setembro de 2007

A ameaça do cocô de elefante

Edição de Artigos de Terça-feira do Alerta Total http://alertatotal.blogspot.com

Por Márcio Accioly

Que tremam os que acreditam na proximidade do fim do mundo. Os que não acreditam, também! Matéria sobre o aquecimento global, publicada na seção “Ciência” do caderno “Mais”, Folha de S. Paulo do último domingo (23), é capaz de deixar qualquer um em estado de alerta.

O cientista russo Sergei Zimov, “especialista em ecossistemas árticos”, encontra-se na Iakútia, região nordeste da Sibéria, onde existe a ameaça de degelo completo da camada de permafrost, devido ao aquecimento global.

Permafrost é o “nome dado aos solos permanentemente congelados” da região do Ártico. O degelo de grande parte já fez emergir alguns mamutes pré-históricos, os ancestrais do elefante. Seus esqueletos estão sendo montados gradativamente, revelando elegante imponência.

Mas existe algo de deselegante, além da ossada dos animais: toneladas de cocô estão aparecendo em quantidades tão gigantescas que “apequenam as reservas mundiais de petróleo”, segundo Zimov.

Como “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, o excremento de mamute coloca novamente em ação “bactérias que estiveram dormentes por milhares de anos”. Um horror: “elas emitem dióxido de carbono (CO2), o principal gás” que irá ajudar a aprisionar “o calor irradiado pelo planeta na atmosfera”.

Mas isso ainda não é tudo. Algumas áreas, “que cinco ou dez anos atrás eram pura tundra”, estão agora permeadas de lagos borbulhantes de metano, “um gás estufa 21 vezes mais potente que o dióxido de carbono”.

O negócio é tão sério que a ONU publicou relatório, em junho, apontando a ameaça potencial do derretimento. O cientista acredita que irá acontecer algum rearranjo na natureza “bastante significativo”, nos próximos anos.

Mas no instante em que se discute com tanta ênfase a questão ambiental, há de se perguntar se a ação isolada do homem, alheio às imposições ecológicas, é a única capaz de promover o desmonte do ecossistema.

Vivemos num mundo caracterizado pela permanente transformação. A ação do homem sobre o meio ambiente apenas precipita os acontecimentos. Mas não há como evitá-los. Sob crivo lógico, as coisas têm começo, meio e fim. Questão de tempo.

Quando se observam as crateras descomunais espalhadas pelo planeta, fruto de choque com meteoros em épocas idas, especula-se a respeito de mudanças acontecidas com a extinção de várias formas de vida. Está aí a teoria sobre o fim dos dinossauros.

A sociedade humana só conseguiu atingir o atual estágio de desenvolvimento, devido ao fato de nosso pequeno planeta ter se livrado, nos últimos milhares de anos, de choque indesejável com algum das dezenas de meteoros que nos ameaçam cruzando o espaço. Até quando irá nossa sorte?

O ser humano não dispõe de meios para evitar a crise ambiental que se avizinha, embora contribua largamente na precipitação dos acontecimentos. É como se alguém pretendesse evitar a queima de hidrogênio pelo Sol, ou impedir a consumação do tempo.

É muita pretensão, planejar mudanças no meio ambiente como se fosse possível deixar como legado eterno uma Terra que não se possui. Somos partes integrantes de sistema desconhecido a assumir incontáveis formas.

Vivemos entre “verdades” e esquemas tão sólidos quanto as nuvens. Na tessitura social, o humano gera e reproduz desastres intermináveis na busca de reconhecimento a virtudes que não existem. Como as nebulosas, somos sombrosos e irreconhecíveis.

Márcio Accioly é Jornalista.

Um comentário:

Anônimo disse...

E entretanto continuamos a ouvir arrogantes teorias de "homem novo" "outro mundo possível", reformas econômicas, globalização e outros bichos mais. Qanta sabedoria.