sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Uma Festa para Crianças do Primário

Edição de Artigos de Sexta-feira do Alerta Total http://alertatotal.blogspot.com

Por Pedro Porfírio

Porque hoje é o feriado nacional que lembra o grito do Ipiranga, acho oportuno fazer algumas considerações sobre o Brasil de hoje, começando por um pergunta indispensável: podemos dizer que o nosso país é realmente independente?

É independente uma nação cujas riquezas estratégicas foram ou ainda estão saindo do controle efetivo do Estado, em proveito de grupos econômicos que só visam o lucro imediato, fácil e a qualquer preço?

Ou você acha um bom negócio essa farra com nossos minérios, a sub-reptícia internacionalização da Amazônia, o leilão de nossas bacias petrolíferas, a privatização de serviços essenciais, como a energia elétrica e as comunicações e, como corolário de tudo isso, a sujeição de nossa economia ao capital especulativo multinacional?

A proclamação da Independência, que já foi um ato oportunista e exótico do próprio herdeiro da coroa portuguesa, engendrou na nação nascente o DNA do pecado original. O Brasil, como nenhum outro país, assentou sua trajetória histórica sob o impulso das contradições, da farsa e da manipulação semântica.

História de oportunismos

Assim como foi o próprio colonizador que deu o grito da independência, a libertação dos escravos, assinada décadas depois do Marquês de Pombal eliminar a segregação racial na matriz, teve a lavra da Princesa Isabel, já no crepúsculo do Império. E a República foi proclamada por um general monarquista, ainda no bojo da crise envolvendo militares, ex-combatentes da guerra do Paraguai.

No Século XX, apenas Getúlio Vargas e João Goulart ousaram pensar na verdadeira independência nacional. Em seu primeiro período, Getúlio procurou tirar proveito das contradições internacionais, envolvendo a Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos. Foi quando obteve recursos para criar a Companhia Siderúrgica Nacional e a Vale do Rio Doce. Sob pressão da imprensa entreguista, decidiu que o país procuraria o caminho da industrialização, quando o todo poderoso Assis Chateaubriand exigia que mandássemos tudo "in natura" para ser processado lá fora.

Depois, criou a Petrobrás, a Eletrobrás, fortaleceu as ferrovias e criou outras ferramentas estruturais para a implantação do país independente, que faz parte não apenas dos nossos anseios, mas sobretudo, resulta de nossa inesgotável potencialidade.

Toda a campanha que levou o presidente Vargas ao suicídio foi apadrinhada pelos interesses econômicos internacionais, que temiam o crescimento de duas grandes economias no Cone Sul - Brasil e Argentina. Ainda em 1944, quando o FMI foi fundado, antes mesmo da ONU,os Estados Unidos emergiram com a grande potência do pós-guerra e trataram de nos amarrar à sua estratégia. Daí o famigerado Tratado Interamericano de Assistência Recíproca, assinado em 1947 pelo presidente Dutra, que nos colocava formalmente no campo de sua influência, incluindo o treinamento dos nossos oficiais pelos norte-americanos.

O golpe de 1964 teve o comprovado patrocínio do governo dos Estados Unidos, tanto como os seus desdobramentos. No caso do AI-5, ironicamente, enquanto um grupo ligado ao general
Golbery, apeado do poder com a ascensão de Costa e Silva, fazia restrições, coube ao então governador do Maranhão, José Sarney, a tarefa de ir à Embaixada daquele país para explicar o golpe dentro do golpe.

Economia dependente.

Nossa economia girou sempre ao sabor dos interesses internacionais. Houve uma mudança na legislação social a partir de 1964, mas as empresas estatais não foram afetadas. Ao contrário, novas foram criadas, como a Telebrás, que passou a gerir virtualmente todo o sistema de telefonia no país, ao lado da Embratel, criada em 1992 pelo presidente João Goulart.

Até a década de 80, o grande interesse das empresas estrangeiras era vender equipamentos a preços superfaturados e em concorrências de cartas marcadas para nossas estatais. Mesmo assim, no campo das comunicações, houve um grande avanço tecnológico: no tempo da antiga CTB (American Telephone and Telegraph), os escritórios do centro do Rio e São Paulo tinham de colocar um funcionário só para esperar linha.

A partir da década de 90, a ordem baixada foi a da privatização em todo o mundo, começando pela Inglaterra de Margareth Thatcher. Na América Latina a farra foi ampla, geral e irrestrita. O presidente Carlos Salinas de Gortari, do México, teve de fugir para os Estados Unidos por conta das privatizações imorais, de que sua família foi a maior beneficiada.

Aqui, as bases para a desnacionalização foram assentadas ainda por Fernando Collor, mas foi o Fernando Henrique Cardoso, um ex-esquerdista, quem pôs o pé no acelerador, sem qualquer compromisso com a soberania nacional. A Vale do Rio Doce, que sempre foi uma empresa próspera, foi praticamente doada, independente de lidar com minérios estratégicos.

Essa privatização, realizada em 1997, é o grande emblema da farra que não trouxe nenhum proveito para o Brasil e ainda nos expõe a uma situação estratégica vulnerável. Ela foi a leilão por R$ 3,3 bilhões, quando seu patrimônio era calculado em R$ 92,64 bilhões, ou seja 28 vezes mais.

Privatizada, com exportações de nossos minérios sem qualquer salvaguarda estratégica, passou a definir nossa política de comércio externo. Tendo a China como sua grande compradora, nos obriga ao negócio recíproco: já neste momento, essa país asiático é o nosso segundo maior vendedor, superado apenas pelos Estados Unidos.

Com a imposição de um sistema econômico globalizado, o Brasil não tem autonomia para nada. Sua macroeconomia é subordinada ao FMI e até seus negócios dependem do nada opor dos Estados Unidos. Foi assim com a Embraer, que já fornecia aviões para a Venezuela. Com as posições nacionalistas do presidente Hugo Chavez, os norte-americanos vetaram novas vendas para o vizinho, em condições extremamente vantajosas.

Um país cuja economia está sujeita aos humores do "mercado" e que não detém a posse e controle de suas riquezas naturais não se pode considerar independente. Daí a impropriedade da festa de hoje, um evento simbólico para as crianças do curso primário.

Pedro Porfírio, Jornalista e Escritor, é vereador no Rio de Janeiro.

Nenhum comentário: