sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Renan não tem saída

Edição de Artigos de Sexta-feira do Alerta Total http://alertatotal.blogspot.com

Por Márcio Accioly

O líder do PMDB no Senado, Waldir Raupp (RO), já avisou, mas parece que a briga por cargos e posições, com anunciada iminente eleição de novo presidente para aquela Casa, tem ampliado a indiferença com relação a desfecho de situação das mais delicadas.

Raupp deu o recado em papo descontraído e sem maior repercussão, ao dizer que Renan Calheiros (PMDB-AL) “-É como tigre. Está enjaulado, mas não está morto. Não convém que provoquem o Renan”. O aviso entrou por uma perna de pinto e saiu por uma perna de pato.

Há quem afirme que se acontecer nova votação em plenário, de qualquer dos outros processos a que o parlamentar responde, a cassação será líquida e certa. Mas isso não significa dizer que o ex-todo-poderoso garanhão das Alagoas seja carta fora do baralho. Ou que pretenda ficar acomodado. Muito pelo contrário.

Sua ainda excelência tem tirado o sono de gente importante, inclusive o do atual inquilino do Palácio do Planalto. Seus recados, cada vez mais impacientes, vêm sulcando os céus com vigor e velocidade.

É possível que o presidente Dom Luiz Inácio (PT-SP), agende até mesmo encontro pessoal com o quase defenestrado, em acordo que reequilibre interesses contrariados. Renan Calheiros está se sentindo abandonado.

A agonia a que se vê sujeitado, enquanto o dia do término de sua licença de 45 dias se aproxima, é comparável, na opinião de senador da base aliada, “à ansiedade de condenado que espere execução de pena capital”. Faz sentido.

Só que o ilustre senador é condenado de luxo: com enorme aparato profissional à disposição, dando retoques em dossiês devastadores que poderão deixar, ainda mais enlameada (se isso é possível), nossa desmoralizada República.

Está claro que não existe a menor condição de voltar a assumir o posto do qual se licenciou. Insistir na possibilidade é partir para a radicalização. Renan se encontra numa sinuca de bico e suas opções deságuam em condição de inevitável desastre: tanto para ele, seus pares, ou para a instituição.

Se for cassado, não lhe restará outra saída (à moda Roberto Jefferson), que não seja a de divulgar o que diz saber acerca de negócios escusos da administração federal. Com nota especial para assuntos empresariais que envolvem um dos filhos do presidente da República.

Se renunciar ao cargo de presidente do Senado, num acordo em que seu mandato de senador seja preservado, a instituição pode fechar as portas e cuidar de instalar negócio mais útil, transformando-se de uma vez por todas numa casa de vender farinha.

Afinal, senadores acusados dos mais variados crimes (e que ali permanecem impunes, recebendo honrarias), já levam parte expressiva da opinião pública a querer a extinção do próprio Senado, como forma de reduzir abusos e omissão.

Renan Calheiros poderia fazer como os então senadores Jader Barbalho (PMDB-PA), ACM (PFL-AL) e Roberto Arruda (PFL-DF) que, pegos com a mão na botija, renunciaram e conseguiram regressar ao Congresso Nacional como se nada tivesse acontecido. O Brasil tem curta memória e a bandalheira está oficializada.

Se optar por denunciar irregularidades, colocando em pratos limpos o que se faz às escondidas (pelos que dizem uma coisa de público e fazem o oposto em privado), prestará grande serviço ao país. É possível que pouca coisa mude de imediato, mas a semente de horizonte mais promissor estará seguramente lançada.

Márcio Accioly é Jornalista.

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