sábado, 13 de outubro de 2007

Sem suicídio nem renúncia

Edição de Artigos de Sábado do Alerta Total http://alertatotal.blogspot.com

Por Márcio Accioly

Engana-se quem acreditar que o pedido de licença de Renan Calheiros (PMDB-AL), afastando-se por 45 dias da presidência do Senado, o retira de cena. Os jornais, as charges e todas as manchetes do dia seguinte se esmeraram em mal informar o distinto público. O fato é que Renan está vivo politicamente e se mexendo.

Que grande mistério é esse, quando todos no Senado dizem querer afastá-lo, mas ele continua por lá? Será que o alagoano tem mesmo o que contar de muitos, e pretende cair atirando como tem prometido? E por que o presidente Dom Luiz Inácio (PT-SP) faz tudo ao alcance para aliviar a pressão em cima do Calheiros?

O problema da democracia brasileira é ter suas pilastras afundadas na lama. Não funciona. Ela é desenhada tão somente para certos setores das classes médias (na maior parte, desinformada e cada qual querendo fazer sua boquinha). As instituições são rigorosas numas coisas, como quando pega o contribuinte, noutras, não.

Vejam só: abre-se processo no qual se comprova que o dinheiro entregue à amante do presidente do Senado (para pagamento de pensão alimentícia), vinha do bolso de um lobista (Cláudio Gontijo), da construtora Mendes Júnior. O escândalo armado é o mais pavoroso imaginável, mas nada acontece.

Fosse na cultura japonesa e o pilhado já teria se suicidado. Fosse nos EUA e o indigitado seria alijado da vida pública. Em qualquer país que se desse ao mínimo de respeito, tal fato não se arrastaria pela mídia nessa discussão pública de tantos meses.

Mas vivemos num país de colonização ibérica, onde a corrupção e o descaso são componentes indesmentíveis da própria estrutura de Estado. Basta ver o que disse D. Pedro I a Francisco Vilela Barbosa, marquês de Paranaguá, quando este lhe foi pedir ajuda no navio inglês que o levaria para a Europa, depois da abdicação:

“-Por que não roubou como Barbacena? Estaria bem, agora.”

É preciso ter muito medo, para 41 excelências absolverem Renan no primeiro processo votado em plenário (depois de o Conselho de Ética recomendar sua cassação), e o país inteiro presenciar e viver interminável agonia, tão constrangedora.

Inexplicável que o presidente da República tenha de se empenhar tanto, para convencer o presidente do Congresso Nacional a se afastar por 45 dias, com a ameaça de voltar ao posto a qualquer instante e recomeçar o que sequer terminou.

Como o Brasil se movimenta através de incidentes (veja-se o caso da Revolução de 30), ficamos a mercê do destino, dependendo do fortuito. O fato é que o descrédito é geral e isso nos conduz a clima de grande animosidade.

É inadmissível que uma figura como Renan Calheiros continue de posse do mandato. Mas, que fazer? Quantos, lá dentro do Senado, caso as normas éticas fossem seguidas ao pé da letra, teriam condições de continuar no cargo?

Ao se licenciar por apenas 45 dias, mas, deixando claro que, “ao menor sinal de puxada de tapete poderá voltar antes do final de novembro”, o senador expôs as entranhas de instituição inteiramente desmoralizada pelos que a fazem.

Ali, o que menos interessa é o país. Com raríssimas exceções, boa parte só está interessada em negócios e vantagens. Ou não foi por isso que 41 dos seus integrantes absolveram Renan, no primeiro processo, e cinco se abstiveram?

O Poder Legislativo, para se recuperar junto a sociedade enjoada e enojada diante de tantos abusos, teria de expurgar dezenas dos que lhe corroem o organismo, promovendo limpeza exemplar que revitalizasse as instituições. Como isso não irá acontecer, pavimenta-se caminho para desdobramentos assustadores. É a vida!

Márcio Accioly é Jornalista.

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