domingo, 14 de outubro de 2007

Todos muito bem servidos

Edição de Artigos de Domingo do Alerta Total http://alertatotal.blogspot.com

Por Rebecca Santoro

Na última terça-feira, 9 de outubro, o ministro da defesa Nelson Jobim esteve em Niterói, no Rio de Janeiro, em visita à Esquadra da Marinha do Brasil, na Ilha de Mocanguê, segundo ele mesmo havia declarado na véspera, para ver "in loco" o estado do equipamento da Força, como parte das operações de tomada de informações para montar o Plano Estratégico de Defesa, incluindo, é claro, a proteção da Amazônia Azul.

No local, Jobim assistiu a uma palestra do comandante-em-chefe da Armada, vice-almirante Prado Maia e visitou o Centro de Adestramento Almirante Marques de Leão, que abriga simuladores de navios. Para "examinar o estado da Força in locco", estava programada uma visita ao interior da Fragata Niterói, para ver as armas e suas condições. À espera de Jobim, estavam 232 homens perfilados e de prontidão. Sete minutos.

Isso mesmo: sete minutos durou o exame que o ministro da defesa fez da Niterói. Subiu à proa, deu uma pequena entrevista, trocou meia dúzia de palavras com o comandante da Marinha, almirante Julio Soares de Moura Neto, virou as costa e foi embora. Não inspecionou nada. No dia seguinte, Jobim, juntamente com o vice-presidente José Alencar, recebeu a líder da União Nacional de Esposas de militares das Forças Armadas (UNENFA), Ivone Luzardo, que foi levar reivindicações de aumento salarial e de auxílio moradia – já que, segundo ela, muito militares, hoje, são obrigados a viver em comunidades dominadas pelo tráfico. Ivone disse que o reajuste necessário deveria ser de, no mínimo, 100%.

É claro que não vão nem cogitar esta hipótese no ministério da defesa, cuja intenção é dar um agrado de 14%. Por falar em agrado, os oficiais generais, almirantes e brigadeiros graduados, e de mesma patente que as dos três comandantes das Forças Armadas, passam a receber menos que seus chefes e colegas de farda. É que os três comandantes das FFAA teriam sido beneficiados com um aumento de aproximadamente 3 mil reais nos seus vencimentos, em separado das tropas, de acordo com a Lei 11.526, que revogou a Lei 10.470, de 2002, que estabelecia os vencimentos antigos. Em alguns casos, como os dos DAS 101.6 e 102.6, que ganhavam R$ 7.500, o reajuste foi de quase 50%, elevando os salários para R$ 10.448.

Fato inétido no ambiente militar das Forças Armadas, apesar de não ter sido admitido publicamente, o aumento causou desconforto entre os militares, especialmente entre os das mais altas patentes - Almirante-de-Esquadra, General-de-Exército e Tenente-Brigadeiro – que continuarão ganhando os mesmos R$ 7.695 – menos ainda do que o que nosso amado presidente da república, Luis Inácio Lula da Silva, disse recentemente, ao empossar os novos ministros de seu segundo mandato, fazer quase com que um ministro tivesse que pagar para trabalhar.

Outra novidade é que parece mesmo que o Exército terá que colaborar com a Polícia Federal na retirada dos não-índios da reserva Raposa da Serra do Sol, em Roraima – "invasores" que estão naquelas terras, trabalhando, morando e produzindo, há mais de 50 anos, ao contrário de muito índios, recentemente lá chegados e que praticamente nem o português falam como segunda língua (e sim o inglês e até mesmo o francês).

O general Augusto Heleno Pereira, responsável pelo Comando Militar da Amazônia (CMA), em entrevista à Agência Brasil, disse que o Exército poderia entrar em ação se fosse acionado pelo governo federal: "A questão da retirada dos arrozeiros da reserva já está em nível de governo federal e, como tal, não temos mais o que discutir sobre a decisão... O que nos compete, do ponto de vista legal, é proporcionar apoio logístico para a operação, que ainda não teve data nem definição quanto ao que vai precisar do CMA... Dependendo dos meios que nos forem solicitados, teremos condições ou não de apoiar".

Ótimo, então... Se amanhã ou depois uma Medida Provisória qualquer estabelecer que todo morador do Leblon, bairro do Rio de Janeiro, tenha que se retirar daquele lugar para ceder terreno aos tais dos quilombolas, e o Exército for acionado para fazer a retirada dos que de lá resistam a sair "por bem", o fará, simplesmente em cumprimento à Lei... Que formidável o povo poder contar com uma força armada que se compromete pura e simplesmente com a Lei, mesmo que dela sejam retirados os ideais de democracia, de liberdade e de justiça. Deveriam acrescentar ao lema da Força, então, as palavras "da lei": "Exército Brasileiro: Braço Forte, Mão Amiga... da Lei", seja lá qual for essa Lei.

Rebecca Santoro é Jornalista.

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