terça-feira, 23 de outubro de 2007

Um rastilho ameaçador

Edição de Artigos de Terça-feira do Alerta Total http://alertatotal.blogspot.com

Por Márcio Accioly

Um dos ideólogos do movimento político-militar de 64, tenente-coronel Golbery do Couto e Silva (1911-87), afirmou, com muita propriedade, que “-No Brasil, fora do Estado não há salvação”. E ele estava certíssimo! Basta verificar a quantidade de picaretas milionários que vivem dos cofres públicos.

O grande problema é que o Estado brasileiro não tem referencial e suas bases se encontram desmoronando de forma visível, na desmoralização e no desmonte causado pela perda de credibilidade, por conta de roubalheira sem fim e ausência de punição.

No ano de 1651, o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679), sistematizou numa obra fantástica, Leviatã, três formas de governo soberano (monarquia, aristocracia e democracia), questionando como seria a vida coletiva se não existisse o Estado.

Porque é muito confortável confessar-se anarquista e alheio à atividade política, quando as coisas funcionam. Quando se tem um Estado que garanta esse direito.

Quando não se tem matança indiscriminada, tal qual a observada nas ruas da maioria de nossas capitais, ou quando o sistema de saúde é eficaz e a população não morre à míngua sem atendimento, nos açougues humanos a que se encontram reduzidos os nossos hospitais, prontos-socorros e postos de saúde.

A população brasileira, manipulada por mídia competente e cúmplice, ainda não percebeu que o Brasil está revertendo àquela condição que Hobbes classifica como “Estado de Natureza”, onde cada qual usa toda sua força e poder para preservar instintos animais, na satisfação dos desejos.

Isso acontece quando se convive com estrutura estatal na qual temos membros do Judiciário vendendo sentenças e compactuando com organizações criminosas, além de setores do Executivo formando quadrilhas com parte do Legislativo, no objetivo único de saquear riquezas que deveriam pertencer à coletividade.

O ideal de uma organização social seria a ausência do Estado. Para isso, teríamos de alcançar, cada um de nós, nível de consciência em que se respeitasse o direito do outro, renunciando-se por inteiro a qualquer ato de rapina e vandalismo.

Como se sabe ser isso impossível, o Estado tem de ser organizado. Pois se ele não existisse, as pessoas estariam se matando nas ruas, com cada um fazendo as próprias leis.

Mas, como sobreviver numa estrutura em que as leis funcionam para uns e, para outros, não? Estado em que sua Constituição determina que “os direitos são iguais”, mas a prática comum aponta que existem alguns “mais iguais que outros”?

Dê-se uma olhada no registro de homicídios praticados anualmente, com destaque para São Paulo, Rio de Janeiro e Recife, entre outras cidades. Dezenas de milhares de vidas ceifadas, anualmente, sem contar os mutilados ampliando dados estatísticos, na algidez da indiferença dos governantes.

O “Estado de Natureza”, segundo Hobbes, é o “Estado de Guerra”, onde se faz Justiça com as próprias mãos, dada a inexistência de força mediadora organizada. Pois é a isso que estamos revertendo claramente, enquanto as autoridades constituídas se emporcalham naquele Estado enxergado por Golbery.

No Brasil, não existe projeto de governo e tudo funciona a reboque: seja dos desastres, como o da TAM em Guarulhos, e que em pouco tempo já nos remeteu à “normalidade”; seja em incidentes, como o que deflagrou a Revolução de 30.

O que se observa é que estamos caminhando para desfecho dos mais pavorosos, já que nada funciona. Basta tocar a apatia e desencanto que permeiam nosso povo.

Márcio Accioly é Jornalista.

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