sábado, 29 de dezembro de 2007

Num mundo de confronto e esperança

Edição de Artigos de Sábado do Alerta Total http://alertatotal.blogspot.com

Por Márcio Accioly

Quando retornou do exílio europeu para o Paquistão, no dia 18 de outubro último, a ex-primeira-ministra Benazir Bhutto sabia estar com seus dias contados. O que surpreende é o fato de uma pessoa, consciente de tal desígnio, insistir no desenlace.

As sociedades são constituídas em termos fictícios, impossíveis de realizar. São fictícias as Constituições, organizações religiosas, contratos de casamento e relações de amizade. E, no entanto, todas as bases da convivência ali se encontram fundamentadas.

O fanatismo religioso tem origem na impossibilidade de conciliação de ideologia absolutamente fantasiosa e a necessidade de resposta a dúvidas insuperáveis. Mas não se credite à religião a nascente de todos os males, embora tenha servido como pano de fundo aos atos de covardia e má-fé.

Ela apenas fornece uma âncora mais “convincente”, por conta da imposição de caráter “divino”, ponto difícil de contestar.

Na aplicação de inverdades e consolidação de perfídias, o Brasil não fica atrás. Basta consultar o artigo 79, parágrafo primeiro, do Regimento Interno da Câmara dos Deputados, dizendo o seguinte:

“A Bíblia Sagrada deverá ficar, durante todo o tempo da sessão, sobre a mesa, à disposição de quem dela quiser fazer uso”.

Nada disso tem adiantado. Fosse assim, não existiria mensalão nem deputados desonestos desviando recursos financeiros essenciais ao funcionamento das instituições. Formando quadrilhas e agindo em direção contrária a tudo aquilo que é obrigado a jurar.

No último século, início da década de 60, o mundo inteiro era obrigado a vibrar com a juventude do presidente norte-americano John Kennedy (recentemente eleito), cuja imagem “vendida” freneticamente pelos meios de comunicação o apresentava como exemplo de determinação e lealdade a valores.

Depois de seu assassinato (22/11/63), o mito começou desmoronar. Revelou-se que o católico praticante e dito temente a Deus não passava de farsa bem fabricada.

Que utilizava a piscina da Casa Branca para festins sexuais, tomando banho com grupos de mulheres convocadas especialmente para esse fim. Que sofria de uretrite não-gonorréica, “dolorosa infecção venérea” (além de outras), tendo contaminado dezenas de mulheres desavisadas nos infindáveis frenesis.

Pior: antes de se casar com Jacqueline (1953), casou-se com Durie Malcolm (1947), fazendo sumir os documentos dessa união, de um Tribunal em Palm Beach (Flórida), pouco antes de mergulhar na campanha eleitoral presidencial de 1960.

Agora, na virada de mais um ano, não se parece ter muito a celebrar: primeiro, em função de alterações ambientais, já sentidas, por conta da densidade populacional de quase sete bilhões de pessoas; segundo, devido ao avanço tecnológico que melhora a vida de grupos de pessoas, mas, paradoxalmente, aguça dúvidas e temores da maioria.

As ideologias, válidas e úteis por tantos anos, estão a exigir nova roupagem. Capas de ilusão que mascarem o que de fato acontece na sua essência. As massas precisam de novos argumentos e até de novas seitas e deuses, pois tudo se encontra perigosamente envelhecido.

Na existência, o único item de fato permanente é a mudança. Como defender idéias vencidas que vêm se desgastando ao longo dos séculos? É como se a sociedade insistisse na adoção de velho código (pregando a virgindade, por exemplo), num mundo desnudado e quase sem segredos.

Os desdobramentos não serão nada agradáveis, enquanto se procuram soluções.

Márcio Accioly é Jornalista.

Um comentário:

Anônimo disse...

Joseph P. Kennedy, o chefe da clã, pai de JFK, fez a fortuna da família contrabandeando bebida durante os anos da Lei Seca. Nada diferente de Al "Scarface" Capone.