domingo, 3 de fevereiro de 2008

Controladores, Feitores e Peões

Edição de Artigos de Domingo do Alerta Total http://alertatotal.blogspot.com

Por Arlindo Montenegro

Sun Tzu ensinava há mais de 2.500 anos, que “a melhor vitória é a dos que vencem sem combater” E esta é a diferença entre o homem prudente e o ignorante”. Da vulgata popular temos o velho conhecido “quando um não quer, dois não brigam” - referindo a desistência conveniente de um pleito por reconhecê-la como opção de sabedoria, contrária à ignorância violenta.

Ou a contrapartida “quem muito se abaixa o rabo aparece” para definir os sangue de barata, engolidores de sapo viciados, que resistem em comprometer-se. Para estes Miguel de Unamuno dedicou um conto em que, no ambiente do céu, Jesus aconselhava um sujeito que esperava na fila de entrada – deixando todos passarem na frente: “ Até para entrar no céu é preciso dar umas cotoveladas”.

Não sei se o clássico chinês chegou ao conhecimento de Jesus, mas tem inspirado gente de todas as áreas nos nossos dias. Gente que pensa, gente que ensina a pensar, gente que produz competências administrativas, produtivas, comerciais.

Alguns políticos pelo mundo afora, parecem seguir os conselhos de Sun Tzu, omitindo os ensinamentos que destacam os valores espirituais e éticos, tela e moldura essencial para a ação. A obra que subsiste no tempo é fonte de exemplo cultural exemplar:

“... a guerra é de importância vital para o Estado; é o domínio da vida ou da morte...” e os controladores e políticos têm preferência pela morte, pela eliminação de opositores, pela conquista sangrenta ou branca utilizando todos os métodos científicos e persuasivos, para manter o império e o poder pessoal.

Em três níveis, podemos observar no mundo de hoje:

- os controladores, que manobram concentrando todo o poder decisório;

- os feitores, que têm a força para submeter individualidades e coletividades;

- os peões obedientes e aplicados às tarefas produtivas de manutenção da vida.

Mesmo submetidos, os peões conservam e prezam valores e fé descartados por controladores e feitores. Os peões buscam vencer sem combater. E alguns como Henry Thoreau, em 1848 nos EUA, dedicaram suas vidas para abrir caminhos contra a escravidão, os preconceitos e toda forma de discriminação.

A Desobediência Civil”, que aponta caminhos para resistir à sanha dos controladores e feitores, influenciou a luta de Ghandi e Martin Luther King. O pacifista Thoreau recusou-se a pagar impostos ao governo que mantinha uma guerra de conquista contra o México e aconselhou os fazendeiros e cidadãos de alguns estados a fazer o mesmo, mostrando que o indivíduo tinha o poder de insurgir-se contra o estado autoritário.

E a forma possível na época era não pagar impostos. Foi pra cadeia. Hoje é difícil negar-se a pagar impostos. Os mecanismos de controle são eficientes para os que obedecem as Leis, menos para os feitores ou peões rebeldes que a ignoram.

Existem os que se omitem com as agressões ao Estado de Direito, com a prepotência, a arrogância e o roubo dos feitores. São os acomodados que, como diz o poeta Francisco Otaviano, passam pela vida em brancas nuvens, passam pela vida sem viver, o único rastro que deixam são latrinas cheias, segundo Leonardo da Vinci.

E continuando com Thoreau: “...o governo no melhor dos casos é um artifício conveniente; mas a maioria dos governos é, por vezes, uma inconveniência; e todo o governo algum dia acaba por ser inconveniente”.

Uma inconveniência que está presente em nossos dias - materializada na sanha de impostos, nas decisões inconseqüentes, no desprezo pelas obras públicas, no estupro das leis, na força da imposição contra liberdade de imprensa e opinião, na censura aos indivíduos, na compra de juizes e legisladores, no roubo sem punição, no desarmamento dos cidadãos e livre trânsito para exércitos de bandidos e terroristas com prejuízos à segurança das pessoas e da nação.

“O governo é uma espécie de revólver de brinquedo para o próprio povo; e ele certamente vai quebrar se por acaso (...) o usarem seriamente uns contra os outros, como uma arma de verdade. Ele não mantém o país livre. (...) Ele não educa... Não será possível um governo em que a maioria não decida virtualmente o que é certo ou errado? No qual a maioria decida apenas aquelas questões às quais seja aplicável a norma da conveniência? Deve o cidadão desistir da sua consciência...?”

Thoreau argumenta ainda sobre a diferença entre obedecer as Leis no mesmo nível do respeito aos direitos, porque as Leis não fazem os homens mais justos e sim, muito freqüentemente, vítimas das injustiças praticadas por obediência às Leis. Vide o exemplo da situação em que vivemos, quando, com as FFAA e polícias destrambelhadas, familiares de militares e policias sem salários e equipamentos protestam, sem poder cumprir seus papéis de guardiões da segurança dos cidadãos e do território pátrio, ocupado por predadores estrangeiros, ladrões de minérios, de elementos da biodiversidade e outros invasores inconvenientes com livre trânsito - por serem amigos do partido do governo. Em nosso cenário, morre mais gente jovem com tiro e facada que nos cenários de guerra.

Thoreau era pacifista, mas não era besta! “Disciplinados e silentes, esta “massa de homens serve ao Estado não na sua qualidade de homens, mas sim como máquinas, entregando seus corpos.”

No pior dos cenários brasileiros, estão crianças e adolescentes sem censura, sem ter como exercitar o direito de proteger seus corpos e suas mentes.

“Todos reconhecem o direito (...) de negar lealdade e de oferecer resistência ao governo sempre que se tornem grandes e insuportáveis a sua tirania e ineficiência. No entanto, quase todos dizem que tal não acontece agora. Mas quando (...) vemos a organização da tirania e do roubo, afirmo que devemos repudiar essa máquina.”

Temos atribuído à debilidade de memória nacional o posicionamento de pessoas diante das decisões incertas. Mas para uns, a memória amedronta e para outros a fonte de memória está nos livros e no ensinamento das escolas e informação, sem o direito prático à ausência de censura, à orientação familiar, ao treinamento para pensar e fazer escolhas responsáveis, sem o mesmo direito de sonhar com possibilidades futuras.

“Qual é hoje a cotação do dia de um homem honesto e patriota? No melhor dos casos, nada mais farão do que depositar na urna um voto insignificante. (...) Toda a votação é um tipo de jogo (...) para expressar (...) o meu anêmico desejo de que o certo venha a prevalecer.”

Todos sabemos que, num jogo com cartas marcadas, os desejos “anêmicos” não prevalecem.

“No que diz respeito às vias pelas quais o Estado espera que os males sejam remediados, devo dizer que (...) a vida de um homem pode chegar ao fim antes que elas produzam algum efeito. Tenho outras coisas para fazer. Não vim a este mundo com o objetivo principal de fazer dele um bom lugar para morar, mas apenas para morar nele, seja bom ou mão.”

Posso apenas escolher desobedecer e agir, limpar o espaço para torná-lo mais saudável e propício para a vida em liberdade.

“O Estado nunca confronta intencionalmente o sentimento intelectual ou moral de um homem, mas apenas o seu corpo, os seus sentidos. Ele não é dotado de gênio superior ou de honestidade, apenas de mais força física. Eu não nasci para ser coagido. Quero respirar da forma que eu mesmo escolher. (...) Que força tem uma multidão? Nunca ouvi falar de homens que tenham sido obrigados por multidões a viver desta ou daquela forma. Que tipo de vida seria essa?”

Embora Thoreau seja tão atual, não tinha ainda como perceber o futuro estado de Hitler, de Stalin, de Mão Tse Tung ou mais próximo de nós o de Fidel Castro, submetendo multidões famintas e ignorantes, dizimando cruelmente todos os opositores pela simples manifestação de pensamento. No Brasil de hoje, não fuzilam, mas providenciam o desemprego, escravizam com o assistencialismo eleitoreiro e silenciam os que deles discordam comprando a mídia com o dinheiro público.

“Se um homem é livre de pensamento, livre para fantasiar, livre de imaginação, de modo que aquilo que nunca é lhe parece ser na maior parte do tempo, governantes ou reformadores insensatos não são capazes de lhe criar impedimentos fatais.”

“Nunca haverá um Estado realmente livre e esclarecido até que ele venha a reconhecer no indivíduo um poder maior e independente - do qual a organização política deriva o seu próprio poder e a sua própria autoridade - e até que o indivíduo venha a receber um tratamento correspondente.”

É nossa missão de cada dia obedecer a nossa consciência e exercitar o poder individual, buscando maneiras de desobediência civil crescentes. Assim, um dia, o homem pode olhar o outro como ser humano, como gênero igual, reconhecendo antes a natureza como fonte de vida, diferente das promessas da economia virtual e dos arrogantes controladores e seus feitores.

Arlindo Montenegro é Apicultor e Livre Pensador.

Um comentário:

Anônimo disse...

Como sempre, Jorge Serrão, seu artigo e o do Arlindo são maravilhosos e esclarecedores. Vivendo num local totalmente corrupto, onde se comenta a boca pequena que o staff local, além de tudo, nepotista, já faturou para suas fortunas pessoais o montante comparável ao dos maiores escândalos nacionais, o que posso fazer, pobre peã anêmica? Dedico meu tempo à garimpagem de dados oficiais, de notícias de jornais e de todos os processos que eles têm no Tribunal de Justiça e no Ministério Público. Por exemplo, pelo censo escolar e pelos jornais já descobri que houve fraude no número de alunos. Só que o próprio Haddad reconhece que há em todo o Brasil e não controla, não cobra, não processa. E mais: há uma indicação do próprio Lula para que não se controlem Estados, municípios e ongs até julho. Este é só um exemplo do que faço. Outro exemplo: o MEC não controla o número de abstenções de alunos na Prova Brasil: só o número de alunos que fizeram. Assim, muitas cidades foram premiadas com aqueles prêmios ridículos do Haddad até para nota 5, mas metade dos alunos foram proibidos de fazer as provas. Só os melhores fizeram. Se me permitir outro exemplo: em determinado ano, os processos na minha cidade só duravam 5 dias. Em 5 dias mais ou menos eram arquivados e tem mais de cem nesta situação. Tenho duas prioridades agora: nas eleições municipais, sem participar diretamente, pois não sou política, vou municiar as oposições com meus dados recolhidos. E soube de um advogado que se dedica a estudar os processos, como eu faço. Vou trocar figurinhas com ele, mas há limitações. A sociedade civil não montou um arcabouço jurídico alternativo para controlar a impunidade e acho que o Judiciário não está dando conta. Mesmo advogados idiotas sabem como fazer um processo de Prefeito ir para 3ª instância e aí cai num volume grande de processos que estão totalmente parados. E há poucos parceiros para esse movimento de cidadania que acho que faço. E estou sempre nos blogs. Colaboro com um da minha região, passando as notícias que garimpo. Estou escrevendo em nível de experiência pessoal, até para gerar algum comentário de troca de experiências que possa iluminar o cidadão. Abraços. Obrigada.