quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Sobre a Maldição do Sargento Garcia

Edição de Artigos de Quarta-feira do Alerta Total http://alertatotal.blogspot.com/

E-mail enviado ao Alerta Total por um experiente Coronel reformado da PM do Rio de Janeiro, analisando a atual crise entre os oficiais e governador Sérgio Cabral:

Realmente é uma pena que isso aconteça mas, essa receita sempre foi utilizada pelos governadores quando, a safra de coronéis no poder é a pior possível. Os mais antigos, já reformados, dizem que isso sempre aconteceu nas crises de profissionalismo. De tempos em tempos, acontece uma praga não de gafanhotos mas, de uma virose chamada de chefite, chefoma ou chefose, que se alastra entre aqueles que ainda não sabem a diferença entre cartório e caixa de colocar cartas. O comando da Instituição é do Governador e isso está no art 144 da própria constituição. Quando o infeliz entra para o estado, sabe que seu chefe vai ser o Governador, seja ele do PT ou do PV. Caso não queira isso, vai fazer concurso para qualquer órgão federal de turismo e ter como chefe a Marta Suplicy e assim por diante”.

Esses garotos, hoje coronéis, foram nossos tenentes de ontem e sem dúvida alguma, diante do que sempre foram, deviam ser aposentados como sargentos. Saudades de 1996 quando o Cabral era o dono da assembléia e o general Cerqueira era o dono da secretaria e da PM. Pagavam uma fortuna para que a gente fosse embora. O Estado investia em anos e mais anos de cursos, estágios e outras coisas para que as otoridades num momento especial de suas vidas aposentassem todos em prol de alguns que precisavam chegar ao topo mais rápido para que ficassem reféns de uma situação política. E olha, pagaram bem! Afinal o sucesso não depende somente do próprio esforço mas, as vezes e quase sempre, da desgraça ou do fracasso desenhado dos nossos semelhantes”.

Talvez esses meninos de hoje, mordidos por uma mosca azul (que não é a Glossinia morsitans) e, empanados por uniformes menores que os adereços que carregam, recebam o que plantaram, pior do que a maldição do sargento Garcia, que nunca prendeu o Zorro”.

Por Humberto Pinto

Devo lamentar o comentário, pouco claro e até pejorativo e desrespeitoso, fazendo analogia esquisita com figura de ficção, desdenhando dos coronéis Barbonos: "...esses garotos, hoje coronéis", expressado pelo coronel experiente (invisível), pelo menos seu nome foi escondido do público, mas aproveito para ressaltar o fundamento da liberdade e o princípio Constitucional do direito de opinião, escritos na nossa Carta, para contemplar qualquer cidadão brasileiro no uso dessa prerrogativa basilar do Estado de Direito, mesmo militares. Devo lembrar que os coronéis de hoje têm o mesmo valor dos coronéis experientes porque construíram suas carreiras nas mesmas escolas, concluindo os mesmos cursos e exercendo as mesmas funções.

Assim, em contra-ponto às palavras do experiente coronel (invisível) reitero o texto abaixo:

O Grito dos Barbonos é o Eco da Dor das Famílias das Vítimas das Balas Perdidas, dos Mortos e Paraplégicos da PM. Os brasileiros não podem aceitar os desmandos dos maus governantes porque esses provocam o maior dos crimes, o mal humano.

Aqui, no Estado do Rio de Janeiro, o Sr. Governador Sergio Cabral Filho, desconsiderando compromissos de campanha assumidos diante da tropa de recuperar a dignidade salarial dos integrantes da Polícia Militar e iniciar um tempo de regeneração da ordem interna, mesmo, sabendo das angústias generalizadas dos Policiais Militares, preferiu o uso fácil dos recursos humanos e operacionais disponibilizados, e, emprega esses meios de acordo com o interesse pessoal e político imediato, extrapolando, assim, dos limites Constitucionais do Cargo que ocupa e ingressa no campo obscuro do abuso de poder.

O que continua presente é a inépcia dos governantes diante dos problemas que afligem os brasileiros. Há muito a “guerra civil” unilateral instalada, vem sacrificando centenas de vidas de Policiais Militares e de pessoas comuns, sem mencionar os que ficam inutilizados para o viver, no combate ao ilícito das drogas e ao tráfico.

Limitados pela própria incompetência e diante dos sucessivos fracassos para reduzir ou extinguir este mal, (por outros caminhos) os “ocasionais” investidos no poder, adotam a política da “solução final”: matar os traficantes.

Assim, sem conhecerem os meandros da arte da guerra, os mentores dessa aventura apostam na solução mais simples, ignoram os métodos, improvisam o emprego dos meios e resolvem transformar áreas, densamente povoadas, em “teatro de operações”, nomenclatura da doutrina militar usada para definir o local onde se confronta os “inimigos” e acontecem as manobras. Preparam o sítio e ordenam o combate. O resultado prático: 586 PMs mortos (2004 a 2007), centenas de feridos e “balas perdidas” matando moradores e transeuntes.
Não se trata aqui de discutir o delito, mas apontar as impropriedades que provocam esse holocausto, generalizado e amplo, derivado do conflito. Um verdadeiro processo de autofagia social. E ainda fazem discursos na campa das sepulturas.

Para exercitar o raciocínio, vamos falar sucintamente sobre a razão da guerra, sobre o terreno onde ela se desenrola, sobre as forças amigas, sobre os meios empregados e sobre as “balas perdidas”.

Na questão da razão dessa “guerra”. Por que ela foi iniciada? Para defender ou proteger a sociedade? Para defender ou proteger a vida? Para defender ou proteger o patrimônio? Para defender ou proteger a Pátria?

Parece que nenhuma das hipóteses acima é aceita.

Na questão do terreno, onde os combates ocorrem.

O terreno está definido?

Sim, toda cidade, particularmente nas áreas residenciais sensíveis, hoje chamadas de comunidades carentes.

A área onde os “inimigos” se instalam está livre das pessoas comuns?

Não, normalmente são áreas ocupadas por pessoas pobres, contíguas às moradias de pessoas da classe média.

Isso é bastante para negar essa forma de ação beligerante das forças policiais.
Na questão das forças amigas PM e PC (apoio).

Elas são polícias impróprias para o exercício da função militar.

A PM, a principal força utilizada no combate, deve empenhar todo seu efetivo nessa “guerra”?

Não, essa forma improvisada desconsidera o princípio do emprego seletivo das unidades operacionais. A atual estrutura organizacional e os procedimentos operacionais não são compatíveis para esse tipo de missão, pois sua atuação comum é preventiva, e, no dia a dia os Policiais Militares ficam expostos por estarem no exercício de suas funções. Eles estão sendo conduzidos para o martírio.

Os efetivos estão devidamente treinados para o confronto?

Não, os efetivos da PM estão preparados para o policiamento ostensivo preventivo. São desviados para esse tipo de confronto.

Seus integrantes estão de moral elevado?

Não, os efetivos estão psicológica e fisicamente esgotados, e ainda carecem de todo tipo de apoio, do salário à logística, e, estigmatizados pela mídia.

Concluindo: a execução das missões não segue normas técnicas e são baseadas nas improvisações, estendendo e generalizando o conflito.

Na questão dos meios.

Os meios são improvisados e precários (sem uniforme de combate, viaturas, comunicações, etc).

O armamento é impróprio e algumas armas são manipuladas por policiais sem o treinamento necessário.

No confronto, diante das circunstâncias adversas não previstas e do tiroteio irremediável, tombam mortos pelas balas bem dirigidas e pelas balas perdidas.

Nessas condições se conclui que a forma do emprego da Polícia Militar para cumprir esse fim é indevida, e, ainda, por extensão, produz outros abusos: “justiça pelas próprias mãos”, uma forma de justiça não aceita pela Lei brasileira.

O mais grave! O PM acaba envolvido pela síndrome do medo e se mantém predisposto para matar.

Na questão das “balas perdidas”.

O eufemismo criado pela mídia para enganar as pessoas e induzir à idéia da morte pela fatalidade protege funcionários públicos do Estado, culpados diretos pelas perdas de vidas e outros sacrifícios e evita o custo político para o Governador, que em última análise, é o responsável maior pela trágica política de segurança pública.

Por tudo isso e para a redenção da Polícia Militar o Grito dos Barbonos ecoa nos quatro cantos do Brasil.

Humberto Pinto é Coronel reformado da PM do Rio de Janeiro.

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