quarta-feira, 5 de março de 2008

Num barril de pólvora

Edição de Artigos de Quarta-feira do Alerta Total http://alertatotal.blogspot.com/

Por Márcio Accioly

A situação na chamada América Latina (que muitos classificam de “Latrina”) está ficando assaz interessante. Trata-se de região que engloba todos os países que falam espanhol, português e francês, abrangendo a quase totalidade da América do Sul.

A crise de agora, em contornos que deixam a todos com a pulga atrás da orelha, foi deflagrada a partir do assassinato de Raúl Reyes (segundo homem da hierarquia das Farc - Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), em ataque efetuado ao território do Equador. Isso aconteceu no último sábado (1º) e ameaça deflagrar sério conflito.

O ataque, determinado por Álvaro Uribe, presidente da Colômbia, matou um total de 17 guerrilheiros e aconteceu com precisão milimétrica. Os dados a respeito da localização dos membros das Farc foram repassados pelos EUA, com todas as coordenadas e levantamento feito por satélites.

As Farc, que vinham perdendo terreno (em função de tratamento desumano dispensado a reféns que detêm já há alguns anos), ganharam, dessa forma, espécie de trégua em setores da opinião pública mundial, especialmente por conta do papel que vinha sendo desempenhado por Raúl Reyes na libertação de alguns de seus prisioneiros.

Tanto pior para Ingrid Betancourt, ex-candidata à Presidência da Colômbia (2002), raptada em fevereiro daquele ano e mantida até hoje como o mais valioso trunfo entre os 45 prisioneiros das Farc. Os guerrilheiros querem trocar tais reféns por 500 de seus membros que se encontram em presídios colombianos.

Os EUA têm especial interesse no desdobramento do conflito, pois o continente é rico em minérios raros, petróleo e outros recursos naturais que lhes têm sido doados por governantes capachos e entreguistas juramentados. Daí, a possibilidade de irromper enfrentamento sem precedentes e solução imprevisível.

Na segunda-feira (3), o senador José Sarney (PMDB-AP), efetuou discurso em que afirmou ser nosso continente “pacífico” e sem necessidade de armar-se da maneira como Hugo Chávez (presidente da Venezuela) tem se armado, pois visa apenas a “desestabilizar” a América do Sul.
Nossas elites, que nada aprendem com os rumos da história, continuam a atuar como marionetes de interesses dos chamados países do primeiro mundo, incapazes de perceberem que a onda de horror que se forma irá nos arrastar a todos num tsunami incontrolável.

Sarney é aquele que ascendeu à Presidência da República (1985-90), com a morte de Tancredo Neves, guindado à condição de vice numa eleição indireta, depois de ter servido prazerosamente ao regime militar (1964-85), coonestando todos os seus atos arbitrários e usufruindo de todas as benesses.

É o mesmo a quem o hoje presidente, Dom Luiz Inácio (PT-SP), chamava de “ladrão” na época de candidato à Presidência, mas que tratou de colocar debaixo da asa e conferir poderes que o transformaram num dos mais influentes aliados nessa gestão permeada de indiciamentos e denúncias de corrupção das mais vergonhosas.

Que continente “pacífico” é esse a que Sarney se refere? Estará nele incluído o Brasil, com o registro de mais de cem mil homicídios anuais? É o mesmo continente no qual o Brasil, na gestão FHC (1998-2003), desejou entregar aos norte-americanos a Base de Lançamento de Alcântara (MA), proibindo inclusive a circulação dos nativos?

Será que esses senhores não percebem que os ditadores contra quem vociferam são gerados nas denúncias comprovadas de corrupção desenfreada jamais punida? Qual a diferença entre uns e outros?

O próprio presidente Sarney só escapou de pedido de impeachment por decisão do então presidente interino da Câmara, Inocêncio Oliveira (então no PFL), que arquivou o documento num dos instantes em que assumiu o cargo.

A América do Sul vai conflagrar, sim, como de resto o mundo inteiro parece prestes a explodir. A ganância, a ladroeira e a mesquinhez são bem maiores do que os esforços dos que pretendem mascarar a realidade com discursos de bom-mocismo.

Triste desfecho para os que velam pela virtude e acreditam piamente em instituições ajustadas ao sabor dos que dominam o Estado.

No final de tudo, os ditadores, e os salafrários ou não, tentarão escapar pela porta da mistificação, jogando as massas numa disputa que eles nunca resolvem pela pacificidade, pois a ambição é sempre além de toda e qualquer medida.

Mas, um dia, quando menos se esperar, a caldeira que mantêm fervendo poderá derramar sobre a própria pele.

Márcio Accioly é Jornalista.

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