sábado, 17 de maio de 2008

Capimunismo itinerante

Edição de Artigos de Sábado do Alerta Total http://alertatotal.blogspot.com

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Por Arlindo Montenegro

A Democracia defeituosa que praticamos no Brasil tem negado a liberdade à livre iniciativa e atenção superior que o combate à pobreza requer. A eficácia de qualquer governo neste século será medida por sua eficiência democrática. E redução de pobreza consiste em educação e pleno emprego. As soluções paternalistas de caráter socializante são distorções que podem aliviar momentaneamente parte da fome, mas não solucionam a doença endêmica.

Fala-se muito em BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China - países que atuam para transformar força econômica em poder. O problema é que se trata de um poder menos voltado para reforçar a soberania e muito mais presente nas negociatas com bancos, corretoras e seguradoras, bolsas de valores e mercado financeiro. Voltado para negócios internacionais com matérias primas e até fatias do próprio território.

O Brasil tem com a China um relacionamento cheio de favores e compadrios que facilitam as ações do capimunismo – a mistura de economia capitalista com os controles rígidos do estado comunista. Lá na China uma realidade palpável que reduziu a miséria de uns 300 milhões, permitindo o trabalho na produção capitalista, enquanto mais de um bilhão de habitantes continua mergulhada na subsistência medieval. De qualquer modo, um passo, diferente do Brasil, que declinou da educação e dificultou a criação de postos de trabalho para distribuir esmolas e tentar o controle estatal autoritário.

Há muitos anos falava-se em Primeiro Mundo, os ricos; Segundo Mundo, para citar os remediados em ascendência e Terceiro Mundo, o dos miseráveis com mínimas possibilidades de acesso as tecnologias facilitadoras do trabalho produtivo ou organização para experimentar liberdades democráticas.

Os ricos investiam e barbarizavam com os povos do Terceiro Mundo: mão de obra barata em plantações extensivas, coleta e processamento primário de minérios e matérias primas. África do Sul, Índia, América Central e o mundo pobre, todos conheceram o tacão dos civilizadores, alguns extremamente racistas. Era a ação do capitalismo itinerante carreando riquezas para o norte.

Depois da Segunda Guerra Mundial, os ricos do Norte tiveram suas dívidas perdoadas para reconstruir suas cidades arrasadas e puderam desenvolver a civilização fabril, adotando novas tecnologias. As fábricas sucateadas e tecnologias ultrapassadas foram vendidas a preço de ouro para o mundo dos pobres, onde a mão de obra barata e auxiliar poderia desenvolver-se aliviando tensões sociais, com ganhos para as obedientes oligarquias locais.

O comunismo caiu de podre com o Muro de Berlim. E de um “passe de mágica” surgiu o fato consumado: a globalização da economia, fortemente apoiada nas comunicações por satélite e internet de alta velocidade.

Na fatia dita democrática, onde o capitalismo depende da liberdade, mobilidade e competitividade das pessoas, surgiu a válvula de escape das migrações temporariamente para a Europa, EUA, Japão. A dupla nacionalidade facilitava empregos no mesmo nível dos nativos que acolhiam o migrante.

O fenômeno agora é que existem apenas dois Mundos: o Mundo dos ricos e o Mundo dos pobres espalhados em todos os territórios, com suas fábricas e demanda de mão de obra barata. Sensíveis a qualquer oscilação na oferta e demanda de petróleo, minérios estratégicos e alimentos.

Com muito crédito que os banqueiros espalham, adiantando o que cada trabalhador “cliente” vai faturar com sua capacidade produtiva dentro de um ano, dois, três, cinco, para comprar comida, pagar aluguel, comprar roupa, sapato, cosméticos e consumir mais. Pagam depois. Em suaves prestações mensais + os juros... Aí é que a porca torce o rabo!

A China produz tênis, eletro eletrônicos, roupas e quinquilharias diversas. Todos os sonhados, desejados, disputados bens de consumo por preço que arrasavam qualquer concorrência. Os americanos, os alemães, os ingleses... levaram suas fábricas para a China, para lucrar mais e a fonte começa a secar.

A multinacional que fabrica tênis ou a confecção, nem avisa. Se lucra menos aqui, muda pra Índia, Bangladesh ou Vietnam, onde a mão de obra é baratinha. Um operário de produção ganha entre 120 e 180 Reais por mês. Um engenheiro, 4.400 Reais. Na Itália, um grupo empresarial fecha a fábrica e oferece vaga aos empregados na filial do Brasil, ou na Turquia onde vão ser remunerados com 1/3 do que ganhavam.

E o nó está nos operários da China exigindo melhores salários e condições de trabalho. Só pra constar, nos dormitórios coletivos que ocupam não existem banheiros nem chuveiros. Quem quiser um banho tem de buscar água num balde. Assim eles produzem tudo quanto está no hardware dos computadores pelo mundo afora. No Vale do Pérola, perto de Hong Kong, já há uma demanda por 2 milhões de operários. Os fabricantes competem para recrutar mão-de-obra, disputam cada trabalhador. E o Estado está cobrando mais impostos.

Os lucros da fábrica de escovas e secadores de cabelos que estão nas prateleiras com diversas marcas, entre as quais a Revlon, conhecida por aqui, caíram de 15% para 3%. As indústrias Adidas e Timberland já migraram para o Vietnam.

Configura-se mais um capítulo da história da globalização da economia.

A engenharia da globalização já rendeu os melhores lucros. Bancos e empresários de toda parte se beneficiaram. A China foi a principal fornecedora dos consumidores de camisetas, tênis, shorts, lanterninhas, camisas de seda, garrafas térmicas e falsificações de toda espécie. Mas os custos estão subindo. A matéria prima está mais cara. A moeda chinesa valorizada. A inflação já alcançou os 8%.

O fenômeno ultrapassa as questões econômicas. O Brasil, a Índia, a África do Sul e a Nigéria brigam para ter assento permanente no Conselho de Segurança da Onu. A China e a Rússia se aliam e fundam a Organização de Cooperação de Xangai, para alinhar as políticas de negócios, contraterrorismo e narcotráfico na Ásia Central. O Irã, Afeganistão e Paquistão querem fazer parte. A América Latina se une à União Européia. Organismos como a OEA e a Otan ficam mais fracos.

Os EUA, perdem em liderança para o avanço dos três blocos de poder econômico: EUA, União Européia e China, dominam econômica e militarmente uma parte do mundo que dá sinais de enfermidade crônica. E o poder bélico parece dar os primeiros sinais de exaustão. Agora o que vale é buscar maiores lucros em qualquer parte do planeta.

Os planejadores da China sabem que o país não tem futuro confeccionando mercadorias de baixo custo, dizem os analistas do Der Spiegel, Alexander Jung e Wieland Wagner. Os políticos nem se importam com o êxodo dos empresários. E o próximo passo nesta estratégia elevará a produção chinesa aos níveis da alta tecnologia. Estão se garantindo com a compra de terras, madeiras e matéria prima, minérios ainda baratos, aqui no Brasil e pelo mundo afora. A nova economia do capimunismo itinerante é marca registrada da globalização.

Entre nós as políticas impostas pela globalização reduziram uma fração da pobreza absoluta. Os lucros auferidos aqui pelo Primeiro Mundo estão entre os mais elevados. Muitas das famílias que consumiam na classificação A e B, mais ricas, estão agora consumindo os produtos classificados C, mais baratos. O governo predador leva a metade do PIB. Importamos a inflação dos outros na forma de trigo e itens constantes dos acordos de comércio internacional. Quando eles querem aumentam o preço do que produzem e decidem quanto pagam pelo que produzimos. A incompetência e o ideologismo utilizam decretos para impor as regras do jogo.

O Congresso é presa da mais gritante inconseqüência e mercantilismo. Os preços dos produtos aumentam para garantir os lucros do capimunismo. E há quem acredite e repita que está tudo bem.

Arlindo Montenegro é Apicultor.

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