sexta-feira, 25 de julho de 2008

Workshop de propina

Edição de Artigos de Quinta-feira do Alerta Total http://www.alertatotal.blogspot.com

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Por Adriana Vandoni

Cansei! Cansei de ver a corrupção ser banalizada. Cansei de ver alguns bradando "contra os corruptos" ou "contra os dinheiristas", e ver que estes mesmos não passam de pessoas corruptíveis a espera de uma boa oportunidade. Cansei de ver homens se dizerem honestos e logo em seguida vê-los compactuando com a desonestidade ou ladeando os desonestos.

O ser corrupto não tem ideologia ou partido político. Não tem relação com Engels ou Marx, nem mesmo com Adam Smith ou Keynes. A corrupção é suprapartidária. No Brasil a corrupção é endêmica e culturalmente aceita.

Dias atrás fui almoçar em uma tradicional cantina italiana em São Paulo. Já era final de tarde e o restaurante que costuma ter enormes filas de espera, estava vazio naquela hora, com muitas mesas vazias e na única ocupada naquela área em que eu estava, um palestrante discursava.

Não, ele não era um palestrante conhecido, mas uma pessoa que imaginei estar dando um curso de corrupção e falcatruas, de como corromper e como dar sinais de que está "aberto" a "relações interpessoais", se é que me entendem.

Rosto longo e pele clara, uma tinta no bem penteado cabelo para esconder o tempo, o homem tinha um ar que misturava o de um cafajeste com a cara da nova elite brasileira: meio sindicalista, meio encarregado de obras, meio sommelier.

No pescoço, para não sujar a camisa cor-de-rosa, um guardanapo usado como babador. Provavelmente se sentiria envergonhado caso uma gota de molho caísse na camisa e a sujasse. O mesmo cuidado não era notado quando se tratava da reputação, por isso, em alto e bom tom, com a voz um timbre acima do normal, e alguns acima do que se espera de uma pessoa que possua um mínimo de vergonha daquilo que está falando, o homem explicava aos outros três que o acompanhava, como crescer na vida dando propina. Explicou algo como vender seguro à uma associação de classe, traçou os próximos passos e quanto faturar em cima. Contou também algumas peculiaridades de um gestor: "Fulano sempre quer mais de 10%, é jogo duro! Ele diz que 10% é coisa de fiscalzinho".

Aquele workshop de propina passou a me interessar e me indignar, estava enojada com a forma como o cara contava sua "arte". Passei a encarar a mesa pra ver se o inibia, mas nada preocupava o expert em propina. Perguntei ao maître se eles eram políticos. Muito discreto, limitou-se a dizer: - "Acho que são lá de cima". Referindo-se à Brasília.
Como a "aula" não dava sinais de que acabaria logo, peguei meus óculos e resolvi escrever o que escutava em uma cadernetinha que sempre carrego comigo. E com a mesma falta de cerimônia com que o homem falava, eu olhava para a mesa e anotava tudo que ouvia.

No Brasil é assim , sem cerimônia, sem pudores, sem constrangimento nem segredos, o país vai sendo corrompido por essa espécie de verme. Um dano que parece institucionalizado e que poucos ainda conseguem se indignar. Os outros? Seguem anestesiados.
Cansei! Cansei deste país amoral que considera retidão um defeito e onde a safadeza é contada em mesas de restaurantes como sabedoria empresarial. Dá vontade apenas de dizer: Brasil, vá se danar!

Adriana Vandoni é Economista e Especialista em Administração Pública. Site: www.adrianavandoni.com.br

3 comentários:

Anônimo disse...

Minha adimirada Adriana, o que se esperar de um povo onde nunca se ver um projeto de cambate a causa da violência da fome e de nada, onde a cada dia que passa surgem mais industrias de combatedores dos efeitos. É isso ai o que voce presenciou, muitas pessoas também já tiveram essa oportunidade desagradavél de presenciar, tanto os "políticos" com os "religiosos"
apostam que quanto pior melhor, geram mais dividendos, ajudam a fomentar a miséria para melhor explora-la, e como os exemplos dados pelos nossos chefes maiores são os piores possíveis e não são punidos, todo contraventor acha também que pode fazer o mesmo, acha também que a ilegalidade é legal e se orgulha
de ser mais um pilantra nesse país.

Unknown disse...

Adriana, ainda não mandei o Brasil se danar
Mas ha muito tempo mandei o brasileiro se danar!
Hoje quando me perguntam, digo apenas que sou brasiliano.
Nasci aqui mas não me identifico com esse povo

Unknown disse...

Adriana, ainda não mandei o Brasil se danar, mas ha muito tempo ja mandei o brasileiro se danar
Hoje quando me perguntam, digo que sou brasiliano.
Nasci aqui mas não me identifico com esse povo