sábado, 30 de agosto de 2008

Considerações não-filosóficas de quem não gosta mesmo de filosofar

Edição de Artigos de Sábado do Alerta Total http://www.alertatotal.blogspot.com

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Por Vania Leal Cintra

O homem é um ser criativo. E reflexivo. Isso é de sua natureza. Certas posturas, que apenas podem ser consideradas malucas por inconseqüentes, poderiam ser válidas, se o fossem, no dia em que os homens passassem a vir à luz quebrando as cascas de ovos chocados e piando. E, mesmo assim, como diz Sidónio Muralha, poeta d'além-mar que de lá fugiu e veio a viver por cá, "quebra-se o ovo da rola / sai uma rola do ovo / que bota um ovo de rola / e tudo começa de novo"...

Pois assim é. Enquanto gente nascer como gente e agir como gente, de acordo com sua própria natureza, em nada e para nada aquelas posturas contribuem. Muito menos nos servem como exemplo. Saber delas só nos atrapalha, quando não destrói tudo o que pôde ser, a duras penas, pela natureza construído. Produz o efeito de uma lenta e progressiva queimada criminosa que, a partir do capim seco, leva as chamas às mais altas e verdes copas.

Entre essas posturas está a exaltação ou a reprovação de regimes políticos de culturas estranhas à nossa; a denúncia de feitos, escândalos ou atrocidades cuidadosamente selecionados, segundo nossas preferências, entre os tantos que ocorrem quase todos os dias em quase todas as terras que a nós são igualmente estranhas; a utilização de argumentos que visam apenas a nos deixar horrorizados ou agradavelmente emocionados com o que acontece ou não acontece no mundo e, principalmente, a tentativa de transformar isso tudo, que muito pouco nos atinge e a respeito do que nada podemos fazer, em razão única ou privilegiada de nossas preocupações e de nossa ocupação intelectual.

É preciso atentar, então, a para que e por que tais posturas são consideradas válidas e incentivadas, tendo-se em vista tantos problemas reais que nos cercam em nosso próprio território, que exigem soluções urgentes, aos quais tão pouco damos atenção, soluções essas que seriam tão mais simples que tentar remendar o buraco negro ou resolver a ordem do universo.

Tomo, como permissão para fazer esse comentário, as palavras e as imagens supostamente instrutivas e bem intencionadas que se divulgam em jornais e revistas, que invadem minha casa pelo aparelho de televisão, que entopem minha caixa de correio virtual todos os dias, e, portanto, chegam também livremente a uma multidão de brasileiros de todas as camadas sociais e graus de escolaridade.

São o que poderíamos chamar de um “fogo amigo”, fogo que tenta galvanizar a opinião pública, livrando os terrenos de “ervas daninhas”. Pouco nos importará quem o ateia ou o alastra — observo apenas que, com nossa gente, não contribui, porque só embaraça e destrói a razão nacional.

Um desses “documentos”, por exemplo, um panfleto virtual ilustrado por sucessivas imagens coloridas, mostra o frio assassinato de uma jovem norte-americana cometido pelo condutor de uma escavadeira na Faixa de Gaza, onde ela “lutava” pela paz e pelos direitos palestinos. Para enfrentar uma escavadeira, só se armando até os dentes e, de preferência, estando... em um tanque de guerra. Qualquer um, em sã consciência, sabe disso. A moça, no entanto, não se sabe exatamente quando, enfrentou sozinha, peito aberto, armada apenas de suas grandes idéias, o avanço de uma escavadeira manejada por um operário xucro.

Por quê? Das duas, uma: ou bem sabia o que fazia e pedia para ser esmagada, ou supôs que, tal como ocorreu quando aquele chinês também biruta, em 1989 na Praça da Paz Celestial, enfrentou sozinho uma fileira de tanques, a escavadeira poderia ser desviada por uma ordem superior. Ocorre que ela não enfrentava um tanque de um Exército de um país milenarmente organizado, conduzido por um soldado disciplinado, sob ordens precisas, subordinado a e em contato com um Comando inteligente.

Enfrentava, sim — no meio de uma guerra absurdamente desordenada e violenta, em que todos os gatos são pardos e civis e militares, velhos e crianças, alhos e bugalhos se confundem e todos são combatentes —, "apenas" uma escavadeira conduzida por um xucro operário que se cérebro tinha não se sabe, e que ou antes recebera não se sabe também quais ordens nem de quem, ou agia por conta e interesses próprios. Agravante: a moça já sabia, pois que ela mesma havia denunciado, que as escavadeiras atropelavam casas que continham gente. Cometeu, pois, um ato de insanidade, uma estupidez. Suas idéias lhe permitiam supor-se diferente da totalidade dos mortais?

Mas nos caberia ainda perguntar: não estava ela acompanhada por um grupo? Que fez esse grupo que ali comungava de sua fé? Fotografou, como o faria qualquer turista oriental... Por que não formou ao seu lado para ser igualmente amassado? A fé não era a mesma? O objetivo não era o mesmo? Na “corrente” que me chega, recomendando-me que a divulgue amplamente, está que aquela gente bem que tentara parar a escavadeira.

Como tentava? Assoviando? Pulando no pescoço do condutor? Atirando uma granada? Por que não foi capaz de arrastar a moça dali e livrá-la da morte mesmo à sua revelia? Bem mais fácil, mais inteligente, mais eficaz e mais rápido. Não fez isso por um sacrossanto respeito à sagrada individualidade cidadã? Ou simplesmente acreditou que a fé seria suficiente para remover montanhas, deter escavadeiras, blindar o corpo de um indivíduo?

Alguns dias mais e posso ler em minha tela, também por exemplo, um artigo que denuncia a afronta aos direitos humanos durante as Olimpíadas havidas em Pequim. Eu cá já começo a considerar que os chineses deveriam ter construído, ao lado do Ninho de Pássaro, um imenso Protestódromo, em que toda a segurança e todas as comodidades pudessem ser oferecidas aos participantes de manifestações contra o seu regime político.

Não o construíram. Talvez isso tenha sido um erro na organização do evento de cobertura internacional. Para saná-lo, deveriam, então, ter eles permitido, em plena Olimpíada em que seu País era a sede, que protestos de qualquer natureza se fizessem de qualquer jeito, a qualquer tempo e em qualquer lugar? Simpático, não resta dúvida, isso teria sido considerado, por certo, muito simpático...

O artigo também comenta o sofrimento dos atletas chineses que ficaram durante horas seguidas em seus postos para garantia da beleza e da precisão do espetáculo de abertura. Sofrimento? Sofrimento mesmo? Que tal uma olhadinha na condição dos "atletas" brasileiros mantidos em nossas filas do INSS, nas do SUS, em qualquer dia do ano em que o importante é sobreviver, não competir, ou nas filas das matrículas nas Escolas públicas, ou em tantas outras, para conhecer, mesmo à distância, o que é sofrimento, físico e moral, de verdade?

Traz também como “denúncia” de crime cultural e pedagógico do regime de Pequim o fato de uma menina, considerada feia, ter emprestado sua voz a uma outra menina, considerada bonita, e de fato perfeita em sua mímica. Caramba! Nada mais interessante que isso a denunciar a um maravilhoso e saudável mundo em que Barbie impera? Nada mais sugestivo e comovedor?

Ah, a farsa das razões do escândalo... a farsa dos métodos de "conscientização"... palavras e imagens sem articulação ou conteúdo lógicos, postas para serem aceitas, não para que despertem qualquer reflexão. Alguns parecem crer que somos “ingleses”. O que fazem, dizem e mostram é para que tomemos conhecimento das aparências, em sua superficialidade, para que nos julguemos bem informados e nos ponhamos conformados; crêem que nos basta ver o que nos é mostrado ou ouvir ou ler o que nos é dito para que acreditemos que isso reflete uma verdade absoluta; e que esta verdade, por nos ser dada como absoluta e suficiente, bastar-nos-á como fé, como entretenimento, e para que deixemos de pensar em nós mesmos com um mínimo de responsabilidade e coerência. Ah, mas a liberdade não é um direito, um bem necessário? Deve ser, pois esses pretendem livremente pensar por todos nós...

Hoje sou ainda mais bem informada: tomo conhecimento de que uma editora está lançando a biografia de um indivíduo brasileiro que morreu há alguns anos quando a serviço dos que se encarregam de produzir a harmonia mundial. O texto de propaganda da obra “fundamental aos docentes de Relações Internacionais” diz que ela relata “não apenas a vida apaixonada de um homem fascinante”. E que “... ele, que achava possível transformar situações difíceis à base quase exclusivamente do poder das idéias, passou a considerar também essencial, no limite, o uso de força militar para impor a paz.”

Interessante isso também, ninguém o negará, apesar de que eu preferisse estar sabendo de brasileiros engajados na busca da grandeza do Brasil. Mas, enfim, com isso podemos todos saber, com pouquinho esforço mental, que assim é que se faz a paz que se busca. E que as gentes — que são gentes, nada mais — não conhecem outro caminho para encontrá-la.

Podemos, sim, ter muita simpatia pelos delatores dos abusos contra os direitos de todos os povos e pelos pacifistas e universalistas, achá-los muito interessantes, muito sensíveis, podemos ser também sensíveis às suas demandas, às suas frustrações, à sua delicadeza exposta ou proclamada e sempre afrontada — o que não significa que devamos ter respeito aos métodos com que levam o que chamam de "sua luta" ou os tenhamos, métodos e “luta”, como exemplares.

Essa "luta" não é a nossa luta, a que precisamos travar cotidianamente para sobreviver, e só pode motivar quem não conhece as razões pelas quais ela possa ser incentivada, quem não conhece ou despreza a natureza humana e crê que não é gente como qualquer gente é, ou seja, quem faz questão de fazer de conta que as gentes, e as coisas que as gentes fazem, são diferentes do que são, sempre foram e sempre serão.

Esse faz de conta permite que se tenha, em uma mesma panela, uma sopa pronta, composta de valores vários, mesmo que aparentemente antagônicos, todos indigestos, venenosos, sopa em que cérebros são cozidos em brando “fogo amigo”, em que todos os ingredientes perdem filosoficamente a identidade e assumem um mesmo aroma ácido e um mesmo nulo teor nutritivo, sopa única que emascula e amesquinha, e que, generosamente distribuída à população, vem agindo, gota a gota, colherada a colherada, como uma espécie de antídoto contra o perigo de “infecção” por valores nacionais — contra a ameaça de Brasil, portanto; o que significa contra nós todos, contra nosso presente, nosso passado e nosso futuro, que só tem qualquer razão se amparado em nosso passado.

Isso porque, se não reconhecemos a razão nacional dos outros como um fato e um direito dos outros, quaisquer outros, não importa quem sejam, mesmo que tenhamos que combatê-los por nossa própria razão nacional, fatalmente a nossa história e a nossa luta perderão, por completo, a legitimidade.

Certo, as filosofias são "universais", reduzem os homens a poeira, a insetos, a um zero à esquerda na grandeza do universo que contemplam. E todas elas nos demonstram a “baixeza” do espírito marcial e a total falta de sentido nos nacionalismos e nos sacrifícios que se fazem pela razão nacional. Mas... filosofia é filosofia. Coisa muito bonita e muito pouco prática.

Pois, na prática, as filosofias apenas vingam quando têm, em sua retaguarda, gente muito interessada em que outras gentes as pratiquem. Gente que tenha poder, recursos e força suficientes para propagá-las como adequadas a todos, mas que a elas se sinta, estranhamente, desobrigada. Gente que as utiliza como poder cru e como meio de mais poder. E que muito lucre com elas.

Um grão de areia é bem capaz de correr o mundo ao sabor do vento sem criar raízes. Já os insetos — e os homens — vivem em seus territórios, e têm, em seus instintos, uma espécie de "consciência" de sua fragilidade e efemeridade. Na prática, visando à sobrevivência, sua e dos seus, todos os homens, como certos insetos, seduzem os que lhes são úteis e paralisam os inimigos, lutam, matam e morrem pelo pedaço em que vivem, que tomam como seu, e pela organização que têm como sua. Ou não são homens.

Por isso, exatamente por isso, não por qualquer outra razão, existem internacionalmente a disputa política e os conflitos; e sempre os haverá, como sempre houve. Porque sempre haverá, como sempre houve, homens que ameaçam outros homens, de perto ou de longe, apesar de todas as denúncias, todas as filosofias e todas as muito boas intenções, das quais o Inferno está cheio.

Assim move-se o mundo, e mover-se-á até seu fim, se é que de fato terá fim algum dia, e nada será diferente a menos que os homens deixem de ser homens. Mas até entre os deuses do Olimpo, cobertos de virtudes, a guerra se fazia; mesmo as Igrejas, da mais requintada à menos complexa, da mais antiga à mais moderna, todas elas estão repletas de profetas guerreiros, de memórias de lutas por “seus” povos. E assim para sempre será, a menos que alguém mande no mundo e em todos os homens sem contestação — o que recai na primeira hipótese, a dos homens deixarem de ser homens.

Em todo caso, tente alguém bem intencionado ensinar as formigas a não invadir os açucareiros, a não cortar folhas e flores dos jardins e das hortas, a não fazer um celeiro, a não manter “soldados” para protegê-las em suas tarefas, a permanecer nos limites de seus formigueiros ou a não ser disciplinadas. Ou tente fazer propaganda entre as abelhas para que não ferroem tudo aquilo que se aproxime das colméias etc. etc. etc. etc. Não é por aí...

E eu cá só me pergunto por que diabos não fazemos um esforçozinho, mínimo que seja, nada muito olímpico, para tentar pensar no bem de nós mesmos, sem perder um tempo precioso em querer descobrir e apontar erros em outros bem mais organizados, sejam mais ou menos felizes que nós, erros que não podemos resolver; ou em outros reconhecer, entusiasmados, certas virtudes que não tentamos ou não queremos cultivar por pura preguiça, física ou mental, recusando a reflexão e matando a criatividade que são próprias de nossa natureza.

É... o calor queima; o frio também. O verão é cruel e o inverno é igualmente cruel; a natureza é cruel, e as sociedades e as culturas — que são decorrentes da natureza de alguns animais, não a sua contrapartida ou sua superação, e que, quando esse animal é o homem, são por vezes chamadas de civilizações — também são cruéis. Todas elas, mesmo as mais singelas, as mais bonitas e as mais produtivas, são muito, muito cruéis umas com as outras. E ai daquela que não for. O que apenas nos diz que o melhor é bem saber que bem fazer de nós em nosso, ainda só nosso, pedaço de terra.

Convenhamos que tal esforço nesse sentido não nos trará medalhas de ouro, mas nem por isso será façanha que mereça menosprezo. De ninguém. Aliás, ao que tudo indica, muito pelo contrário.

Vania Leal Cintra é socióloga

2 comentários:

Anônimo disse...

Tenho uma dificuldade danada para entender certos códigos e construções dos que tiveram o privilégio de frequentar escolas superiores. O que sei é que na infância e na juventude entendia como "nos" todos os que nascidos viviam neste pedaço de terra conhecida como Brasil. Mandaram brasileiros para defender a democracia na II Guerra Mundial. Os "nos" brasileiros acreditavam em Deus, acreditavam integrar a civilização cristã. Hoje, a coisa é diferente: defender as proprias crenças parece ridículo! Cada grupinho de "nos" parece isolado e impotente.
Terra so o governo e uns poucos têm e dispõe. Acabou-se o que era doce? Quem comeu regalou-se?
O desespero da menino diante do tanque chinês ou da menina diante da pá carregadeira são sintomáticos da ação suicida de tantos "nos", impotentes diante da bagunça de padrões mentais e solidão imposta ao indivíduo isolado nos currais da ignorância. Fica o dito pelo não dito e tudo continua marchando, os que ainda crêem em filosofias, utopias e humanismo, marcados, sob a mira das armas mais poderosas: tanques, carregadeiras, tv, revistas, bolsa familia, pré sal, obama, democracia chinesa...

Anônimo disse...

Essa daí falou, falou, falou e não chegou a conclusão nenhuma. Como na propaganda daquele velho jornal: tá sobrando conversa e faltando assunto.

Dagoberto de Oliveira Martins