domingo, 18 de janeiro de 2009

Armadilhas do Capimunismo

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Por Jorge Serrão


A marolinha é um baita tsunami. Até o apedeuta sabe disso. Só não pode admitir. Mentir e iludir é sempre mais fácil politicamente. Todo mundo vê que a crise tem dimensões econômicas objetivas. A falta de crédito e os problemas de liquidez são evidentes. No entanto, o mais grave é o efeito psicoeconômico. Isto passa despercebido de muita gente que confunde os efeitos com a causa.

O espectro da paranóia assombra o mercado globalitário. Os efeitos psicossociais são danosos. Ainda mais em um mundo (no qual a mentalidade hegemônica) se acostumou a ganhar na especulação – muito mais que na produção. A lógica humana é natural. Quase sempre é defensiva a reação de quem tem os ganhos ameaçados. Eis o motivo das retrações econômicas. Eis a “razão”, por exemplo, das ondas de demissão – que só ajudam a agravar o problema psicossocial.

O experiente ex-ministro da Economia e embaixador Marcílio Marques Moreira – que hoje preside o Conselho Empresarial de Políticas Econômicas da Associação Comercial do Rio de Janeiro – explicou direitinho o mecanismo da crise, em entrevista ao Jornal do Commercio do Rio de Janeiro. Por isso, Marcílio advertiu que são fruto de muita ignorância ou de irresponsabilidade as expectativas de que, ao final de março, o quadro econômico vai melhorar.

“Começa com uma crise financeira, que abate a economia real; a economia real, abatida, repercute negativamente sobre os bancos, cujos resultados pioram e vão mais uma vez influenciar de forma adversa economia real, que por seu turno volta a afetar os bancos e assim por diante”. Pior de tudo, na observação de Marcílio, é que tal processo se retroalimenta.

O irônico da história é a verdadeira gênese da crise. Sua causa principal é o “Capimunismo” - termo que o aprendiz de filósofo e grande artesão-apicultor Arlindo Montenegro batizou aqui neste Alerta Total. A confusão globalitária é causada por um sistema especulativo em que a Oligarquia Financeira Transnacional forma uma “parceria de exploração” com países economicamente periféricos e monta uma sociedade com o capitalismo de Estado chinês, que vende ao mundo a ilusão do comunismo.

A piada é séria. Estados Unidos e China são os centros da confusão global. Ambos formaram uma perigosa simbiose. Quem dá uma aula sobre tal assunto é o ex-ministro Marcílio Marques Moreira. O relato de MMM demonstra, perfeitamente, que a crise passa longe de uma solução satisfatória. Os riscos são maiores ainda para nós, brasileiros da periferia. Ao contrário do que tenta alegar o discurso oficial.

MMM ensina. Os EUA tinham nenhuma poupança, um déficit em conta corrente que chegou a quase US$ 1 trilhão e um consumo muito elevado, pelo qual não podia pagar. A China, dona de uma poupança desproporcional e precisando aplicar tal poupança, passou a financiar os EUA.

Graças aos chineses, os norte-americanos (famílias, empresas e todas as esferas do governo) puderam comprar mais. Enquanto o consumismo corria solto nos EUA, a China jogou a taxa de câmbio para baixo. Os EUA também abaixaram demais as taxas de juros interna, o que aumentou ainda mais o consumo.

Com câmbio baixo, os produtos chineses ficaram baratos e extremamente competitivos. Graças a isso, a inflação norte americana se manteve reduzida, apesar do desequilíbrio nas contas. Assim a China era uma máquina de transformar os déficits dos EUA em liquidez mundial.

Marcílio observa que tal comportamento econômico deu no que deu agora. Os EUA terão de aumentar a poupança e diminuir o consumo. A China, que precisa vender, vai ter problemas. Seu mercado interno “comunista” não absorve a produção. Por ironia, metade das exportações “chinesas” para os EUA é feita por transnacionais norte-americanas – que investiam na China porque produzir lá era mais barato.

Agora, EUA e China vivem o dilema do cachorro correndo atrás do próprio rabo. É muito elevado para o resto do mundo o preço da simbiose econômica entre o Capitalismo e o pragmático Comunismo de mercado. Hoje, as soluções de combate à crise nos EUA detonam a China (e afetam muito os ingleses, cujos banqueiros investem pesado lá). E as soluções chineses complicam ainda mais os problemas econômicos dos EUA, que repercutem, rapidamente, no resto do mundo.

Nessa armadilha do Capimunismo, o medo, a dúvida e a incompreensão teórica (que não consegue explicar o que acontece realmente, e muito menos dá solução aos problemas) contaminam o cenário global. O filme de horror econômico é mera conseqüência.

A tendência é fóbica. Então, o único jeito é agir na proativamente, na contramão. Quem fizer um movimento contrafóbico responsável, bem calculado, tem tudo para se dar bem. Responsabilidade é fundamental.

Em resumo. Não basta ser otimista. O importante é não bancar o otário. O segredo é acertar mais e errar menos. Não se pode perder tempo acreditando nas conversinhas econômicas do Boi Tatá. É preciso empreender. Vence quem souber inverter a lógica criadora da crise.

Jorge Serrão, jornalista radialista e publicitário, é Editor-chefe do blog e podcast Alerta Total. Especialista em Política, Economia, Administração Pública e Assuntos Estratégicos. http://www.alertatotal.blogspot.com

© Jorge Serrão. Edição do Blog Alerta Total de 18 de Janeiro de 2009.

5 comentários:

Anônimo disse...

Magistral Serrão! A porca torce o rabo quando a gente pensa o que fazer. Continuo contra a ideologia e motivações capimunistas. Quem decidiu varrer da face do mercado as economias do trabalho humano, vai aplicá-las para criar novos postos de produção das quinquilharias do consumo, para criar novos exércitos de trabalhadores aptos para a guerra.
A lógica que conheço é a dos dois preguinhos: contas a pagar, créditos a receber. Pegaram os créditos e embolsaram desvalorizando o meu trabalho e valorizando o gogó dos bundões. Vou continuar comendo arroz com feijão antes que decidam distribuir rações de cereais feitos de petróleo do pré sal... já vem salgado!

Anônimo disse...

Ótimo artigo. Há tempos venho pensando de maneira semelhante ao exposto por você, mas não consigo pensar ao contrário para refazer o caminho.
Intelectualmente, sim, penso que é preciso refazer história das idéias a partir do Humanismo. Haverá certamente centenas de autores desprezados pela "máfia oficial das intelectualidades" que traga uma resposta melhor para nosso tempo. Olavo de Carvalho, por exemplo, consegue dissecar a História da Filosofia. No blog CaValeiro do Templo, li um artigo dele sobre Aristóteles, que mostra que o filósofo grego já fez um esquema total do pensamento humano. Segundo o esquema, por exemplo, a dialética é um mero exercício intelectual, anterior à metafísica. E pensar que nossa civilização ainda está aprisionada à dialética... por ignorância e má intenção.
No plano material -social e individual- estamos aprisionados à burocracia oficial. Como nos libertarmos e progredir? Eis a grande pergunta que subjaz à sua análise.

Anônimo disse...

Mas há algo além do arco-íris... Serrão, prestenção! O Plano do Itamar, que Lula aplica e nega, está atrelado ao dólar, como na sua concepção. Ora, se assim é, como baixar a taxa de juros e impedir a alta da moeda sem causar inflação? A China, por sua vez não pode ficar sem vender suas quinquilharias. os EUA não podem mais comprá-las. Nós temos que alimentá-los a todos... Por isso não podemos abaixar os preços dos combustíveis para depois não termos que aumentá-los... Para quem é informado e leu SUn-Tzu e prestou atenção no Governo Reagan, sabe que Bush aplicou um golpe, UM GOLPE DE MESTRE, sem desembainhar a espada... Chavez que o diga... Raul que se submeta a eleições... E o Irã tá pianinho, né? Obama e a democracia americana que colham os louros... Serrão, prestenção!!! Que comentário legal!

Jorge disse...

Comunico-o que repassei este texto aos meus conhecidos por meio de e-mail. Tartufo.

Anônimo disse...

Grande Serrão. Olha só que beleza!!E esses nossos jornais que vivem só para confundir, e não para informar, continuam a enganar os incautos.

A coisa é simples. O problema é não só Brasil mas a America do Sul inteira está nas mãos da Oligarquia.

Antigamente o PT, antes de chegar ao poder dizia que era o FMI o culpado de tudo. Agora eles dizem que é o FHC o responsável.

Não parece Adão dizendo prá Deus que o culpado foi a Eva?

Só quero ver quando eles não forem mais governo, quem vão eleger com culpado.