sábado, 24 de janeiro de 2009

“Tinha um Imenso Talento”

Edição de crônica do Alerta Total http://www.alertatotal.blogspot.com

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Por Eça de Queiroz


Eu casualmente conheci Pacheco. Tenho presente, como num resumo, a sua figura e a sua vida. Pacheco não deu ao seu País nem uma obra, nem uma fundação, nem um livro, nem uma ideia. Pacheco era entre nós superior e ilustre unicamente porque "tinha um imenso talento". Todavia, meu caro sr. Mollinet, esse talento, que duas gerações tão soberbamente aclamaram, nunca deu, da sua força, uma manifestação positiva, expressa, visível.

O talento imenso de Pacheco ficou sempre calado, recolhido, nas profundidades de Pacheco!. Constantemente ele atravessou a vida por sobre eminências sociais; deputado, diretor-geral, ministro, governador de bancos, conselheiro de Estado, par, presidente do Conselho - Pacheco tudo foi, tudo teve, neste País que, de longe e a seus pés, o contemplava, assombrado do seu imenso talento.

(...)Este talento nasceu em Coimbra, na aula de Direito Natural, na manhã em que Pacheco desdenhando a sebenta, assegurou que "o século XIX era um século de progresso e de luz". O curso começou logo a pressentir e a afirmar, nos cafés da Feira, que havia muito talento em Pacheco: e esta admiração cada dia crescente do curso, comunicando-se, como todos os movimento religiosos, das multidões impressionáveis às classes raciocinadoras, dos rapazes aos lentes, levou facilmente Pacheco a um "prêmio" no fim do ano.

(...)Logo na estrelada noite de Dezembro em que ele, em Lisboa, foi ao Martinho tomar chá e torradas, se sussurrou pelas mesas, com curiosidade: "É o Pacheco, rapaz com imenso talento!" E desde que as Câmaras se constituíram, todos os olhares, os do governo e os da oposição, se começaram a voltar com insistência, quase com ansiedade, para Pacheco, que, na ponta de uma bancada, conservava a sua atitude de pensador recluso, os braços cruzados sobre o colete de veludo, a fronte vergada para o lado como sob o peso das riquezas interiores, e os óculos a faiscar...

Finalmente uma tarde, na discussão da resposta ao discurso da Coroa, Pacheco teve um movimento como para atalhar um padre zarolho que arengava sobre a "liberdade". O sacerdote imediatamente estacou com deferência; os taquígrafos apuraram vorazmente a orelha: e toda a Câmara cessou o seu desafogado susssurro, para que, num silêncio condignamente majestoso, se pudesse pela vez primeira produzir o imenso talento de Pacheco. No entanto Pacheco não prodigalizou desde logo os seus tesouros. De pé, com o dedo espetado (jeito que foi sempre muito seu), Pacheco afirmou num tom que traía a segurança do pensar e do saber íntimo: "Que ao lado da liberdade devia sempre existir a autoridade"!

(...)Não volveu a falar a falar durante meses - mas o seu talento inspirava tanto mais respeito quanto mais invisível e inacessível se conservava lá dentro, no fundo, no rico e povoado fundo do seu ser. O único recurso que restou então aos devotos desse imenso talento (que já os tinha, incontáveis) foi contemplar a testa de Pacheco.

(...)A testa de Pacheco oferecia uma superfície escanteada, larga e lustrosa. E muitas vezes, junto dele, conselheiros e diretores-gerais balbuciavam maravilhados:

"Nem é necessário mais! Basta ver aquela testa!"

Eça de Queiroz é um dos maiores gênios da língua portuguesa. “Tinha um Imenso Talento” foi escrita por Eça de Queiroz na “Correspondência de Fradique Mendes”. Este texto é uma homenagem ao presidente que faz muito sucesso, mas que afirma não ler nada. Afinal, Lula tem um imenso talento...

3 comentários:

julio disse...

Serrão, belíssima analogia.
O nosso Pacheco, além do talento, supera aquele do Eça nas imitações que faz dos animais...
Late, e agora deu para ameaçar morder.
E também não pode ver um "osso", que já quer abrir um buraco e sumir com ele...

julio disse...

Em tempo:
posso postar em outro blog?

Marcos F disse...

Que o ôme tá lento, isso tá.