sábado, 2 de maio de 2009

Passado e presente

Edição de Artigos de Sábado do Alerta Total http://www.alertatotal.blogspot.com

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Por Arlindo Montenegro

Aquele passado que os textos escolares e quase totalidade da mídia publicada registra de modo caolho, interpretação unilateral, moeda cujo valor face foi desfigurado, ninguém pode mudar. Aquele passado, passou e deixou marcas indeléveis para os que têm mais de meio século de vida. Talvez alguma memória para os que eram jovens nos anos 80: a visão possível de um país independente.

Desde então com ajuda das tecnologias que se renovam a cada dia, o concreto, a vida material pura e simples, mais próxima do irracional, parece ter borrado da memória a capacidade de abstracionismo, sonhos, cogitações futuras. Talvez porque o pensamento, a vida abstrata acaba impondo renúncias e responsabilidades morais.

Deveres são descartados num ambiente de medo, num ambiente de “salve-se quem puder”. Deste modo, a autoridade familiar, bem como das instituições públicas e privadas que normatizam e cobram procedimentos, são propagandeados como descartáveis. “Viver agora” justifica todos os “excessos”.

O poder concreto da família – espaço material arrumado, história nos utensílios e fotografias, disciplina doméstica, aprovação necessária, castigos conseqüentes de transgressões, pais e parentes presentes com autoridade amorosa – já foi um poder apoiado pela presença da religião familiar. A concepção e veneração a um Deus, limitando os excessos, facilitando a civilização.

A família encontrava a sociabilidade no local de prática dos cultos onde os jovens começavam a interagir e relacionar-se com o abstrato, com a matriz das emoções que estariam presentes orientando as escolhas adultas. O julgamento e a pena a temer ficavam para o encontro com a eternidade. O Juiz interior ditava escolhas e valores para uma vida virtuosa.

Para o mundo concreto estavam as “leis dos homens”, os códigos que eram aperfeiçoados, para que as relações humanas fluíssem com melhor qualidade, para o bem comum. Nos últimos anos parece que a escrita e o foco das leis mudaram para sustentar a permissibilidade total promovida pelo estado total. Os transgressores têm mais direitos que a sociedade dos homens corretos. Os que não crêem em nada agem sem limite, aterrorizando os corretos.

Um dia fomos premidos pelo “pecado original”, pelo “carma”, pelo “destino”, adestrados para respeitar o semelhante. Os juizes julgavam e isolavam os criminosos preservando a segurança da sociedade. Desde que mudaram a história, o valor atribuído aos que trabalham a mais foi igualado ao valor dos que menos trabalham, dos que agem sem limite aterrorizando os corretos. Eis a civilização do que não trabalham e dos que praticam crimes.

Para quem trabalha e estuda, dia a dia, durante anos, economizando e planejando a aquisição de cada bem, são pagos mínimos salários gravados por impostos crescentes. Para quem mostra a bunda ou outras partes anatômicas antes “pudendas”, aplausos! A glória! O prêmio equivalente a uma loteria ou um rendoso assalto a banco. A propaganda fatura com o “artigo de consumo” do momento.

Sexo, luxo, drogas, irresponsabilidade, parecem ocupar hoje todo o espaço cerebral das cogitações. As conseqüências para o equilíbrio entre a vida abstrata (alma) e a vida material (consumo) são desastrosas. Viver agora: de modo animal, inconsciente e inconseqüente. Qualquer conduta é “humana” e como diz um dos governantes, “sem provas evidentes não há crime”.

Para subsistir neste ambiente, vale o deboche, vale a incoerência, vale o crime, vale justificar o roubo apontando outro ladrão, vale subverter todos os valores transcendentais que costumávamos chamar de virtudes. Valores concretos foram sufocados na família, na igreja, na escola e na convivência social.

A conseqüência das imposições do materialismo militante é o caos, este ambiente de vulgaridade e impunidade em que as leis privilegiam os que as transgridem, podendo todos descumprí-las, negar as transgressões ou pagar por uma sentença.

Tenho sido apenas um hospede que por mais de meio século habita este corpo, esta forma de vida, na condição de visitante. Cada dia me aproximo mais da volta à casa, um lugar deletado das cogitações materiais passageiras. Neste momento da vida, neste Brasil amado, agradeço a cada dia por estar no limiar do mergulho no universo abstrato, um retorno ao silêncio ou nada mais que repouso.

Mas enquanto viver, vou dizer NÃO a esta realidade infamante.

Arlinto Montenegro é Apicultor.

8 comentários:

Blog de um Brasileiro disse...

Toda Vez que o senhor Arlinto Montenegro resolve escrever, é para mim um momento sublime de reflexão. Este homem é simplesmente brilhante. Sofro apenas porque os jovens de hoje não tem hábito salutar da leitura para poder apreciar aquilo que esse mestre pode passar.
Meu amigo, fique sabendo que imprimirei este texto aqui em minha casa, para poder ler e refletir com toda a família.
Contnue escrevendo muito e acalente a nossa alma com reflexões belíssimas.

Anônimo disse...

Grande Arlindo Montenegro. Parabéns por essa capacidade unica que tens de entrelaçar palavras e tecer ricos comentários como esse, verdadeira obra prima produzida por um cerebro abençoado.

Zaqueu

Anônimo disse...

Ar... Lindo... Monte... Negro...

E essa gripe, no Brasil, vai deixar tudo mais negro ainda. Não importa se bioterrorismo ou não.

Anônimo disse...

Leio sempre seus textos no ALERTA TOTAL, mas a profundidade do de hoje me tocou fundo. Oxalá mais alguem consiga pensar no que está acontecendo com o que se chama MODERNIDADE: concupiscencia, libertinagem, mais coisas impensáveis há poucos anos. Parabens !

Mario disse...

Caro Arlindo,

Se existe perfeição em algum texto, podemos apontar ser este.

De fato, apesar de toda a tecnologia, em termos morais e espirituais, que são o que interessa, a humanidade está retornando à pré-idade da pedra. A canalhada comunista jogou todo o avanço da humanidade no lixo, destruindo a família, a pedra basilar da sociedade evoluída.

Somos espíritos numa jornada humana. Temo pelo que "ouviremos" quando voltarmos para casa. Só nos resta, como você diz, continuar dizendo NÃO à falsa e infamante realidade.

BRAGA disse...

Boa tarde Arlindo.
Hoje, você está "tocado" por Deus.
Gostaria da sua autorização para divulgá-lo para amigos meus.
Parabéns e que Deus abençõe você.
Braga

Madame Bia C. disse...

Caro Montenegro,
Quando a abominação da desolação chegar aonde não deveria estar, então chegou o fim. É uma paráfrase das palavras de Jesus, a respeito do Apocalipse. Acho que para esclarecer minha mente, vou ler o livro "De Civitate Dei", de Santo Agostinho. Numa pesquisa para fazer um trabalho de História, deparei com suas idéais a respeito da civilização, que tem sido palco de uma constante luta entre a raça de Caim e a de Abel. Acho muito atual a idéia. O que me consola é saber que toda a natureza geme em trabalho de parto a favor de Abel. Tenho certeza de que esse texto seu é uma pequena e ao mesmo tempo grande colaboração para que tenhamos um "re"nascimento. Um grande abraço. O senhor sabe que admiro-o. Acho que o fato de ser apicultor lhe dá diariamente a sabedoria de quem contempla a gestação da salvação.

Simplesmente Sônia Maria disse...

Sr. Arlindo Monternegro, sempre é uma benção ler seus artigos, e o de hoje me faz pensar que o mundo pode mudar,porque pessoas como o sr. são capazes de entrar em contactos com pessoas que tem a mesma percepção que o Sr. A Editroa Bahái do Brasil lançou o livro "A Eterna Busca de Deus" do italiano Julio Savi, membro da Comunidade Bahái da Itália. Acho que o sr. apreciaria esta obra literária ,que tem tudo a ver com a sua maneira de pensar. Sõnia