domingo, 13 de setembro de 2009

O contra-marketing no inseguro voto eletrônico

Edição do Alerta Total - www.alertatotal.net
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Por Jorge Serrão


Sabendo perfeitamente que a Comunicação é um exercício coletivo enquanto estratégia de Poder, o Bolcheviquepropagandaminister anda fazendo escola. O Tribunal Superior Eleitoral ultrapassou a fronteira do marketing. O TSE resolveu aplicar avançados conceitos de contra-marketing e anti-marketing para desafiar uma pequena, porém consistente, avaliação de técnicos que criticam a insegurança do processo de votação eletrônica adotado no Brasil. Ao lançar um desafio, com prêmios em dinheiro, a quem quiser testar a segurança das urnas da Diebold, o ministro Ricardo Lewandowski promoveu um lance de venerável mestre da propaganda.

Os conceitos são objetivos. Marketing é a gestão integrada da ação política e estratégica de comunicação para o mercado. Anti-marketing é o emprego deliberado ou não intencional do marketing, com falso impacto negativo, para provocar psicologicamente o público-alvo-consumidor. Mais avançado ainda e ofensivo, o Contra-marketing é a adoção do anti-marketing para neutralizar uma ação mercadológica de concorrente, adversário ou inimigo. O TSE quer provar que as urnas e o sistema são 100% seguros – ao contrário do que já admitiu, reservadamente, a Diebold – fabricante das urnas, que recomendou ao tribunal eleitoral uma troca geral de todo o seu hardware, com aprimoramento do software.

Por isso vai aplicar o contra-marketing em seus críticos. Este é o objetivo político e estratégico dos testes nas urnas e nos softwares de votação das eleições gerais de 2010 - que serão realizados entre 10 e 13 de novembro. O TSE promete que o hacker que der a melhor contribuição para aprimorar a segurança da urna vai ganhar R$ 5 mil. O segundo colocado fica com R$ 3 mil e o terceiro embolsa R$ 2 mil. Até 13 de outubro, quem quiser participar deste “show” pode se inscrever no Tribunal Superior Eleitoral. Nem o mago Sílvio Santos – que já tem gente comentando que pode ser candidato em 2010 – faria um show do milzinho tão perfeito.

O especialista em voto eletrônico, engenheiro Amílcar Brunazo Filho, adverte para que não nos animemos muito com mais este show que o TSE está criando. Brunazo lembra que este processo de testes de segurança (PET 1896/06) se iniciou com um pedido conjunto do PT e do PDT - que depois foi apoiado pelo PR. O especialista critica que o TSE fugiu completamente ao que foi pedido pelos partidos. Brunazo lamenta a criação da Comissão Avaliadora que não é independente do administrador eleitoral - como constava do pedido original. Por isso, os partidos declararam a desistência formal do teste, porque vislumbraram que as regras seriam (e são) limitadoras.

Brunazo deixa claro: “Os autores do pedido conheçem gente capaz de penetrar no software nas urnas e burlá-lo. Foi pensando em usar estes técnicos que fizemos o pedido. Mas diante das limitações impostas aos testes decidimos não "gastar munição" neste momento. Por exemplo: para se ter sucesso numa adulteração do software da urnas é preciso pegar uma máquina pronta e começar a analisá-la, testando algumas alternativas, para descobrir qual o melhor meio de invadir (os hackers não tem sucesso imediato em todas as suas investidas).

Amílcar Brunazo adverte que isso não será permitido no “show” programado, em novembro, pelo TSE. Segundo as regras impostas, o pretendente a atacante deverá descrever o que vai tentar fazer e entregar cópias de seus softwares antes de ter contato com a urna para analisar que caminho seguir. E só terá contato por três dias fora do seu ambiente normal de trabalho.

Brunazo explica que não é assim que atacantes agem: “Eles primeiro ganham acesso ao equipamento pronto, depois o analisam no seu ambiente próprio de "trabalho" usando uma miríade de recursos e softwares, nem sempre "oficiais", muitos desenvolvidos autonomamente. Pedir para eles entregarem suas "ferramentas" já é uma restrição enorme, que vai afastar muita gente boa. Aliás, a própria idéia de estabelecer as regras do teste pela comissão nomeada do TSE, já é um limite artificial ao próprio teste. A ação de hackers é marcada justamente pelo desrespeito a regras.

Em suma, pelo que demonstrou Amílcar Brunazo, o espetáculo do TSE deve apenar reforçar a tese de que todo o sistema e o processo de votação eletrônicos no Brasil são inteiramente seguros. Seria mais simples e barato nomear a Velhinha de Taubaté para o comando do TSE. De preferência, através de um ato secreto do Senado. Se o assessor direto dela for o Mister M, o ilusionismo fica completo.

Brincadeiras sem graça à parte, melhor é acreditar no pensamento quase poético da turma do www.votoseguro.org: “Eu sei em quem votei. Eles também. Mas só eles sabem quem recebeu meu voto”.

Jorge Serrão é Jornalista, Radialista, Publicitário e Professor. Editor-chefe do blog e podcast Alerta Total: www.alertatotal.net. Especialista em Política, Economia, Administração Pública e Assuntos Estratégicos.

© Jorge Serrão. Edição do Blog Alerta Total de 13 de Setembro de 2009.

8 comentários:

Anônimo disse...

Para uma substancial parte dos brasileiros acima da ignorância, o exercício do voto é frustração obrigatória. Perda de tempo e dinheiro. Melhor eles decretarem logo a ditadura do ex operário inaugurando a era do "faz o que mando que faço o que quero".

Ingrid Zamboni disse...

Este teste de segurança que o TSE está propondo serve somente para indicar brechas para ataques externos (por hackers).
Mas não serve para checar a vulnerabilidade das urnas contra ATAQUES INTERNOS, para o que, como disse o prof. Jorge Stolfi (UNICAMP) na audiência no Senado, não existe defesa eficiente nas urnas atuais (sem voto impresso e só com o Registro Digital do Voto)

Anônimo disse...

Fica a sujestão para que os Hackers bem intencionados, esculhambem de vez a próxima eleição...

Anônimo disse...

Fica a sujestão para que os Hackers bem intencionados, esculhambem de vez a próxima eleição...

Paulo Figueiredo disse...

Ridícula a postura do TSE. Se as urnas eletrônicas são seguras e cofiáveis, como apregoam, porque colocá-las à prova?? E ainda propondo como prêmio a quem demonstrar falhas, uma mixaria de no máximo 5 mil reais?

Pura hipocrisia, para não dizer infantilidade e idiotice. Qualquer caramutanje sabe que um segredo deste (saber como fraudar eleições) vale muitos milhões pelo país afora. É muito comum ouvir-se que em eleições municipais, em todo Brasil, políticos corruptos valem-se de hackers para darem uma “mãozinha”, ou até “mãozona”. E o papo é sempre de milhões de reais pelo “servicinho”. Será que só o pessoal da justiça(?) eleitoral nunca ouviu falar disso?

O presidente do TSE deveria também observar sua seara e deixar de “jogar para a platéia”. Prefeitos, corruptos notórios e declarados, estão sendo beneficiados com sucessivos e suspeitos adiamentos de julgamentos, mesmo sendo condenados em 1ª instancia e estando governando com liminares conseguidas nos TER’s, só Deus sabe como.

Não são só as urnas; o sistema está todo corrompido. A justiça(?) eleitoral deveria, ao menos, julgar os políticos acusados de corrupção. O TSE deveria dar uma olhadinha que tipos de negócios o TRE do Rio tem com prefeitos endinheirados com royalties do petróleo, com muitas acusações e nenhuma condenação.

Político corrupto é dádiva de justiça corrupta. Só há político corrupto exercendo mandato porque a justiça é condescendente, ou cúmplice. Urna inconfiável é apenas acessório neste emaranhado de irregularidades.

Anônimo disse...

Mas ninguém duvida que aquelas máquinas sejam capazes de coletar os dados dos eleitores e seria quase que literalmente impossível que alguém possa chegar numa cabine eletrônica e fazer alí uma lambança ou algo assemelhado.

O problema é como eles manipulam os dados depois que são coletados. Nas eleições passadas, por exemplo, o apedeuta apareceu com mais ou iguais votos que no primeiro turno, sendo que menos de um terço voltou às urnas no segundo turno.

Ninguém duvida que um computador possa fazer a distribuição de processos usando um programa para sorteio aleatório, mas todo mundo fica se perguntando como é que o Sarney conseguiu que o recurso do filho dele fosse cair justo nas mãos do apadrinhado que lhe deu a liminar censurando o jornal.

O sistema de urnas eletrônicas é que é fraudelento em si, mas ninguém está discutindo que aquelas maquinas não consigam coletar dados de maneira que não podem ser adulteradas pelo usuário na hora da votação.

Anônimo disse...

Desafio é o TSE me mostrar como posso aferir a votação de uma urna depois que ela é coleta e encerrada.

Poderia hoje recontar os segundo turno das eleições presidenciais passadas?

Não, obviamente. Até hoje eu não vi ninguém pedindo recontagem de votos por aí.

Anônimo disse...

A Máquina coleta os votos e acho que faz isso muito bem, ela não avalia, não tem poder de decião "ainda", o problema todo começa quando "Os incorruptíveis corruptos de plantão, que tem o poder de decisão" assumem o comando do processo.