terça-feira, 22 de dezembro de 2009

As ONGs e a Netwar

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net

Por Nilder Costa

Dia de março de 1999, o Excelsior, um dos principais jornais mexicanos, publicou uma interessante entrevista com Mário Moya Palencia, ex-Secretário de Justiça e ex-embaixador na Itália, denunciando o trabalho conjunto do Exército Zapatista de Libertação Nacional, grupo guerrilheiro separatista, com ONGs internacionais para desestabilizar o México.

Moya sustenta que o México enfrenta não uma mais duas "descertificações": a primeira é a dos Estados Unidos com o programa antidrogas e a segunda é a buscada pelas ONGs mexicanas e estrangeiras em Genebra, na Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas. Para Moya, foi exatamente para neutralizar este último "bombardeio" que Rosario Green, Secretário de Relações Exteriores, esteve viajando por toda a Europa durante os últimos trinta dias.

Moya declarou que os vínculos entre os zapatistas e as ONGs transnacionais "são mais que evidentes" e cita um trabalho do Grupo de Estudos Internacionais da RAND contendo uma lista de 33 ONGs "especializadas" em direitos humanos, direitos indígenas, desenvolvimento de sistemas cibernéticos (comunicação), ecumênicas ou religiosas.

Dentre estas encontram-se algumas já mencionadas anteriormente pelo Alerta Científico e Ambiental, destacando-se a Anistia Internacional, a International Commission of Jurists, Physicians for Human Rights (transnacionais); a Americas Watch e a Minnesota Advocates for Human Rights (norte-americanas); a Inter-Church Committee on Human Rights in Latin America e a La Ligue de Droit et Libertes (canadenses). Entretanto, um aspecto de especial relevância foi a atuação das ONGs que deram (e dão) suporte logístico de comunicações, principalmente via Internet, e que acabou transformando um obscuro e localizado movimento de cunho maoista em atração internacional.

De fato, recorde-se que foram trocados alguns tiros nos primeiros dez dias de confronto, após o que os zapatistas retraíram-se para seu santuário na selva Lacandona e, a partir daí, metamorfosearam-se nos primeiros guerrilheiros "virtuais" de nossos tempos graças em grande parte à atuação deste enxame de ONGs que encarregavam-se de divulgar mundialmente as "mensagens" e ordens de marcha do subcomandante "Marcos".

A rigor, pode-se afirmar que os zapatistas não teriam resistido mais que algumas semanas não fôra este maciço suporte propagandístico e logístico proporcionado pelo aparato internacional de ONGs, o que levou alguns estudiosos a qualificar a insurgência como a primeira experiência bem sucedida de uma "netwar".

Nesta nova modalidade de guerra irregular, as ONGs utilizam-se de faxes, teleconferências (netmeetings), mensagens eletrônicas (e-mails), pagers e telefones celulares (que, em 1994, já eram operacionais em Chiapas) para coordenar campanhas, divulgar ordens e pronunciamentos, etc.

A forma organizacional destes grupos não é mais hierárquica mas de rede (net), com coordenação de baixa intensidade mas onde todos comunicam-se entre si e sem mostrar uma cabeça visível, o que dificulta sua contra-organização por órgãos governamentais que usualmente possuem estruturas hierarquizadas.

O governo mexicano, por exemplo, precisou adaptar-se a esta nova modalidade de guerra irregular e criou um grupo interagências no CISEN (Centro Nacional de Investigação e Segurança), subordinado à Secretaria de Justiça, que passou a coordenar a estratégia geral de contrainsurgência.

A principal ONG logística que atuou em Chiapas foi a Association for Progressive Communications (APC), secundada pela Peacenet, Conflictnet e a Global Exchange (todas transnacionais), a International Action Center e a InterHemispheric Education Resource Center (norte-americanas), a Action Canada Network e a Mexican Solidarity Network (canadenses) e a mexicana CONPAZ (Coalizão de ONGs para a Paz).

Em 1995, por exemplo, a APC contava com 50 redes em dezesseis países, proporcionando acesso a 20 mil ativistas em 133 países em 15 línguas diferentes (Goss, 1995). No Brasil, quem integrava a rede da APC na época era o IBASE, núcleo de comunicações das ONGs brasileiras. Um dos financiadores da APC foi o International Development Research Center (IDCR), órgão do governo canadense fundado em 1970 pelo indefectível Maurice Strong.

Recorde-se que foi o mesmo IDCR quem financiou a criação de uma rede internacional computadorizada para interligar as lideranças dos movimentos indigenistas no Brasil, México, Peru, Colômbia, Equador, Guatemala e Canadá e financiou também o Segundo Encontro Internacional das Primeiras Nações Indígenas das Américas, realizado no início de junho de 1994 na aldeia de Poianaua, no Acre (ver Alerta Científico e Ambiental vol. 4 no. 13).

No Brasil, não apenas as questões ambientais e indigenistas constituem-se em alvos potenciais para uma possível netwar mas, por suas similaridades operacionais e de propósitos com o zapatismo, o desenvolvimento de uma "guerra civil de baixa intensidade" como anunciada publicamente pelos líderes do Movimento dos Sem-Terra (MST).

Nilder Costa é Engenheiro mecânico, formado em 1969 pela Escola Nacional de Engenharia (atual UFRJ), com especialização em centrais nucleares. Co-autor dos livros "Máfia verde: o ambientalismo a serviço do Governo Mundial", "Máfia Verde 2: ambientalismo, novo colonialismo" e 'A hora das hidrovias'. Membro fundador e diretor do Movimento de Solidariedade Ibero-Americana (MSIa). Artigo originalmente publicado no site Alerta em Rede em 26 de março de 1999 (AER)

Um comentário:

Anônimo disse...

Não deixem de ver o artigo do Nilder Costa, "Raposa Serra do Sol e Monarquia Britânica".