sábado, 26 de dezembro de 2009

Diferenças entre Brasil, Argentina e México

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net

Por Pedro Chaves

Tenho lido tantas incongruências sobre a crise mexicana e seus reflexos na Argentina e no Brasil que acho necessário fazer algumas comparações entre os três países.

Não obstante o fato de ter nascido em uma família radicada no Brasil há mais de 400 anos, deixo de lado o patriotismo ufanista para reconhecer a superioridade do projeto nacional argentino. O chamado ”Plano Cavallo” é apenas uma parte do esforço platino para resgatar o país de uma era desastrosa de sua história, iniciada com a ascensão de Peron ao poder.

Em cerca de 50 anos os burocratas pseudo “nacionalistas” quase reduziram a Argentina à miséria. O presidente Alfonsín – último paradigma de bom-mocismo – pediu para entregar o governo antecipadamente ao seu sucessor já eleito, Menem, porque se considerou impotente diante do caos social e da hiperinflação.

Menem passará para a história argentina em razão da sua melhor qualidade: a coragem. Depois de algumas tentativas fracassadas entregou o Ministério da Economia a Cavallo, que contava com a experiência de ter sido chanceler e o respaldo da Fundação Mediterrânea de Estudos Econômicos e Sociais. O seu plano econômico pode ser resumido na seguinte frase: “O governo é neutro e a moeda é assunto dos cidadãos.”

Em uma analogia de fácil compreensão, o governo argentino age como o dono de um cassino quando troca o dinheiro dos apostadores por fichas coloridas. Ele assim procede para poder ter estatísticas do seu negócio e evitar que os croupiers roubem as notas de papel – moeda caso estivessem postas diretamente sobre os panos verdes.

Ele dá o fichário azul para o cliente A, o vermelho para o B e o amarelo para o C. No fim da noite saberá que o A preferiu a roleta e jogou muito. B, o bacará e jogou moderadamente e C, o black jack e quase não perdeu. Quem quiser parar de jogar, ganhando ou perdendo, pode livremente ir ao caixa e destrocar suas fichas por dinheiro (papel-moeda).

A lei de Conversibilidade argentina funciona do mesmo jeito.

O governo vende um dólar por um peso e compra um dólar por 99 centavos de peso. Esta diferença de 1% em cada ciclo pode ser comparada ao preço da entrada que o dono do cassino cobra dos clientes para pagar os seus custos fixos. Os impostos internos correspondem ao zero da roleta e as tarifas públicas, à consumação de bar e restaurante.

Se o dono do cassino não fugir com o dinheiro do caixa os apostadores têm a certeza de que, a qualquer tempo e sem sustos, poderão destrocar suas fichas. Nas casas de câmbio de Buenos Aires troca-se papel moeda de qualquer país e os bancos e comerciantes podem negociar também em qualquer moeda.

O governo argentino reorganizou-se administrativamente reduzindo o quadro de funcionários a níveis civilizados; já privatizou quase tudo (até a operação do jardim zoológico) e como norma não concede aval aos grupos privados em suas operações de comércio exterior.

Desse modo, o eventual déficit na balança comercial argentina é privado e assim não põe em risco a paridade peso versus dólar. Isto tudo foi possível graças à coragem de Menem ao enfrentar empresários parasitas (defensores da reserva de mercado), burocratas e sindicatos politizados.

Estudando agora o Plano Real, vemos em primeiro lugar a vulnerabilidade do governo por ter tido ministros sem escrúpulos que manipularam dados tão relevantes como o saldo da balança comercial. Se não houve manipulação, houve incompetência porque se cometeu erro de cerca de US$ 1 bilhão e ninguém foi demitido ou pediu demissão.

Com uma política de “cabra-cega” que em apenas três meses reduziu e aumentou as tarifas de importação de veículos, o governo fica sob a suspeita de ser errático ou sugestionável aos apelos das montadoras que por mais de 30 anos nos empurraram”carroças” goela abaixo.

Enquanto a Argentina já privatizou com sucesso a “petrobrás deles” (YPF) e a 'telebrás deles” (Entel), os nossos políticos se outorgam 15 salários anuais e anistia-se um senador considerado pela Justiça culpado de ter se utilizado de recursos públicos como se fossem seus.
Mas o pior dos três casos é o mexicano. Lá não houve abertura política, há guerrilhas e não se privatizou quase nada. A incompetência estatal viu explodir há alguns anos uma enorme refinaria de petróleo e, agora, toda a economia asteca.

Notas do autor:

· O último parágrafo do texto original foi retirado porque me senti traído pela classe política.
· O plano argentino deu no que deu: um confisco e três presidentes numa semana.


Pedro Chaves é Advogado. Extrato do texto publicado no jornal “O Estado de São Paulo” em 08/05/1995 pg. B 2.

3 comentários:

Unknown disse...

é claro que este cara escreveu este artigo em 1995 antes da crise da argentina. Vejam só como o argumento neoliberal é tão incosistente. Veio uma crise na Argentina e todo o seu argumento foi para o ralo. Que pena - da Argentina e destes neoliberais entreguistas.

Unknown disse...

Este é o grande projeto nacional argentino - que levou o país para o buraco.

Unknown disse...

poxa, ele falou mais da argentina, do que do brasil, e eu nem vi ele falar do méxico!! que droga.