segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Ensinar a Pensar


Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net

Por Arlindo Montenegro


Quando li no Alerta Total Educomunicação contra a Midiotice um palavrão novo desafiando minha ignorância – educomunicação – fui satisfazer a curiosidade, pensando se a nova disciplina produzida pelos cérebros da USP estaria ligada ao pensamento de Edgar Morin (1). Mas, não! A coisa tem raízes no Cariri, sertão do Ceará, Brasil, num ponto do planeta conhecido como Nova Olinda, numa Fundação denominada “Casa Grande”.


A Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri surgiu como um projeto de museu idealizado por Alemberg Quindins e Rosiane Limaverde. Atualmente, é uma Escola de Comunicação e Cultura plantada no Vale do Cariri cearense, com uma vasta produção cultural (programas de rádio e TV e documentários, além da existência de um teatro e do próprio museu) elaborada por crianças e adolescentes.


Fundada em 1992, a Casa Grande é um modelo de entidade que promove a inclusão social e o protagonismo infanto-juvenil. Mudou a realidade de Nova Olinda, cidade com pouco mais de 12 mil habitantes. Funciona na Av. Jeremias Pereira, 444. Devia servir de exemplo para outras iniciativas bem sucedidas no Brasil. A entidade funciona com um orçamento mensal de
R$ 8.500,000. Dinheiro bem aplicado e sem corrupção produz alto lucro social.

Educomunicação! Logo liguei com endo-comunicação, pedindo a Deus que os ilustres acadêmicos marxistas da USP, num contato com a essência aprisionada e censurada pela doutrinação do santo Gramsci, tivessem declarado guerra contra as correntes tradicionais do pensamento acadêmico! Parece. Vamos ver se é. Vão colocar no mercado um produto que, tudo indica, pela primeira vez tem o mérito de ensinar professores a pensar livremente, para ensinar a pensar.

Como diz o ex marxista Morin, Fundador da Escola de Altos Estudos e Ciências Sociais, (financiada pelas Fundações Ford e Rocckfeller), os homens vivem agarrados a mitos e crenças e não se definem somente pelo trabalho e economia (esta “ciência” que mais erra que acerta) mas também pelos jogos. Porque então isolar, compartimentar, especializar, limitar a investigação e preparação para a vida em blocos de conhecimento isolado?

Nos diabólicos laboratórios das mentes acadêmicas, que formam os professores da escola básica, o conhecimento é tradicionalmente fornecido em fragmentos soltos, “cada um no seu quadrado”. Esta modalidade de ensino, como diz textualmente Morin: “ impede a capacidade natural que o espírito tem de contextualizar. E é essa capacidade que deve ser estimulada e desenvolvida pelo ensino, a de ligar as partes ao todo e o todo às partes. Cada um prefere camuflar a parte que lhe é desvantajosa para colocar em relevo a parte criminosa do outro”.

É cristalino esse procedimento em política, a arte da lenga lenga, da esperteza, do desprezo ao outro. A arte do privilégio corporativista. A arte do personalismo que promove ignorantes para a condição de sábios e deuses. A arte de tapar o sol com a peneira. A prática tradicional de manter a ignorância e a pobreza para a exploração e benefício de oligarcas e espertos.

Foi o Professor Ismar de Oliveira Soares quem apresentou o conceito de educomunicação aos sábios da USP e na ocasião leu o texto de um aluno: “Desejo uma escola que, na verdade, eu me identifique e que eu tenha direito de falar e realmente de ser escutado. Quero uma escola que me ajude a encontrar o caminho certo e que me permita opinar no que acho que está errado.” Ou seja, quero uma escola para a vida, para aprender a pensar e me expressar, uma escola em que levem em conta a minha opinião.

Deste modo, como ensina a programação neurolinguística, ninguém vai ficar apenas com um mapa do terreno elaborado por um acadêmico, confundindo o mapa com o território. Matemática, Língua Portuguesa, Filosofia, Historia, Artes se comunicam e se entrelaçam ampliando o saber e formando pessoas livres, conscientes e ativas. Bem o contrário do que desejam os políticos. Tomara que os da USP, aprendam alguma coisa com as crianças do Cariri e calcem as “sandálias da humildade”.

Tomara que a experiência por enquanto enquadrada na disciplina “Comunicação”, se desenvolva como ciência, unindo todos os conhecimentos em todas as cátedras e laboratórios de pesquisa. Tomara que as escolas básicas, fundamentais e superiores possam ensinar a compreender que cada um depende do outro e todos dependemos do planeta em que vivemos, um fragmento do universo cheio de entraves para a compreensão entre as pessoas e para a mesma vida.

Para finalizar, fica o exemplo do resultado da deseducação de uma nação com tantas desigualdades sociais. O resultado da comunicação segundo os parâmetros acadêmicos tradicionais. E os acadêmicos nem coram ao ver a extrema sapiência do condutor mor desta nação! O endereço abaixo fala mais alto, vejam: http://www.youtube.com/watch?v=hOXOsZp8YFo

(1) Edgar Morin, ref. “Os sete saberes necessários à educação do futuro.” Disponível em PDF para download na web.

Arlindo Montenegro é Apicultor.

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