domingo, 10 de janeiro de 2010

Em torno de uma velha questão

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net

Por Alberto Carlos de Almeida

A fé religiosa é incompatível com a aceitação das verdades, ainda que transitórias, científicas? Faço essa pergunta pensando numa controvérsia corriqueira nos países desenvolvidos, com destaque para os Estados Unidos, que chegará ao Brasil algum dia: a disputa entre os criacionistas e os evolucionistas.

Segundo os criacionistas, o ser humano foi criado por Deus. Aqueles que defendem essa visão de mundo, não um conhecimento científico, afirmam que a Terra é muito mais jovem do que realmente é. Alguns criacionistas dizem que dinossauros e seres humanos coexistiram e outros, mais sofisticados, utilizam a teoria do design inteligente para tentar provar que há estruturas biológicas e fisiológicas que não poderiam ter evoluído de nenhuma estrutura anterior, que para existir, como de fato existem, somente se tivessem sido criadas por um Criador superior e mais inteligente.

Em 2009 comemoraram-se os 200 anos de Charles Darwin. Foi ele quem desenvolveu de forma mais convincente, e em primeiro lugar, a teoria da evolução. Essa comemoração veio recheada de livros, entre eles o que considero o mais interessante e acabou de ser lançado no Brasil: "O Maior Espetáculo da Terra", de Richard Dawkins (trad.: Laura Teixeira Motta, Companhia das Letras, 472 págs., R$ 53,00).

Nesse trabalho Dawkins mostra inúmeras evidências que provam que a evolução aconteceu e continua a ocorrer: o nosso corpo, as moléculas do DNA, a separação dos continentes, os eventos recentes em vários lugares do mundo onde houve o surgimento de novas espécies, as camadas sedimentares da Terra e até mesmo evidências fósseis, que os criacionistas tanto abominam.

A teoria da evolução sustenta que os organismos vivos sobrevivem graças à seleção natural. Como sempre há alguma mutação genética, e também como há um mercado de mutações, isso mesmo, um mercado de mutações, as mutações mais eficientes do ponto de vista da sobrevivência acabam passando adiante a sua herança genética.

Trata-se de uma teoria extremamente parcimoniosa com uma enorme capacidade de explicação. Nas aulas de biologia da escola são mostrados para nós, em geral, exemplos de insetos que no decorrer dos anos mudaram de cor em decorrência de alguma mudança em seu hábitat.

Lembro-me bem de um exemplo, provavelmente de minhas aulas de biologia no primeiro grau, de uma mariposa que era cinza-clara e, no decorrer do tempo, por causa do aumento da poluição e da fuligem depositada nas árvores da área de Manchester, na Inglaterra, acabou resultado em uma outra espécie de mariposa muito escura, quase preta. Afora exemplos desse tipo, destaca-se a velha afirmativa supostamente evolucionista de que o homem descende dos macacos, mais especificamente do chimpanzé.

Aprendi, graças aos livros de Dawkins, que se trata de uma afirmação errada. O homem não descende do macaco nem do chimpanzé. O ser humano descende, sim, de um ancestral comum a nós e ao chimpanzé que provavelmente era mais parecido com os macacos do que conosco. Os macacos, por sua vez, descendem de um ancestral comum aos lêmures. E assim sucessivamente até retrocedermos à primeira forma de vida.

Posto dessa forma, de acordo com o evolucionismo não é preciso recorrer à noção de um Criador para explicar por que o ser humano passou a existir. Não há a necessidade de um ente superior que em algum momento da história da Terra tenha decidido criar o ser humano e o tenha planejado e executado.

Há religiosos na acepção restrita da palavra que também compartilham e aceitam a teoria de Darwin. Para eles, Deus se limitou a criar as leis que regem o funcionamento do universo e do mundo, leis químicas, leis físicas e biológicas, e deixou o universo fazer o restante. Esses religiosos conciliam a nossa origem nada divina com a aceitação da existência de uma divindade. Se Deus existe, provavelmente é bem mais inteligente do que o homem, até porque a nossa capacidade cognitiva derivou de um ancestral comum que tivemos há sete milhões de anos com o chimpanzé.

Sendo Deus muito mais inteligente do que nós, é possível imaginar que ele tenha realmente feito muito pouco, "apenas" todas as leis da física, da química e da biologia. Deixou o homem descobri-las ou desenvolvê-las, um passatempo que resultou, entre outras coisas, na formação das universidades.

Sendo bem mais inteligente do que nós, Deus não teria deixado pistas de sua existência. Ele nos teria dado a chance de descobrir que somos feitos de elementos químicos que passaram a existir em função de grandes processos de liberação de energia no interior das estrelas. Ele nos teria dado a oportunidade de descobrir que há pelo menos 1 bilhão de galáxias e em cada uma bilhões de outros corpos celestes.

A Terra é apenas um deles de uma, e somente uma, de tais galáxias. Aliás, se a Lua for destruída, em razão de algum acidente ou cataclismo, a Terra deixará de existir imediatamente. A órbita da Terra em torno do Sol, que é a fonte de energia que possibilita a vida na Terra, só é possível porque há uma lua girando em torno de nós.

O que tudo isso sugere? Que estamos trabalhando no mundo do improvável. Que o sistema solar é improvável, mas existe; que a vida é improvável, mas existe; que a evolução é improvável, mas existe; que a separação entre os continentes tal como ocorre entre a América do Sul e a África é improvável, mas existe; etc.

Quando se trabalha com números grandes, a improbabilidade acaba acontecendo. Se há 1 bilhão de corpos celestes em nossa galáxia e se a probabilidade de que a vida seja iniciada for de uma em 1 bilhão, então cá estamos, na Terra. Isso sugere que deverá haver vida inteligente em algum outro lugar, porém tão distante que não fará a menor diferença. Considerando-se o tempo necessário para percorrer, na velocidade da luz, as distâncias entre as galáxias, se houver vida inteligente em Andrômeda, a galáxia mais próxima da Via Láctea, nunca saberemos.

Aliás, eu pergunto: você acredita em discos voadores? Em OVINs? Note-se que a pergunta utiliza o verbo acredita. A pergunta poderia ser outra: você tem provas da existência de discos voadores? Você tem alguma prova de que os homens foram criados por um Criador de inteligência superior à nossa?

Você acredita no evolucionismo ou tem uma prova de que o evolucionismo é uma teoria que ainda não foi falseada? Provas de que o evolucionismo explica por que os seres humanos são do jeito que são existem, fartamente. Provas de que os seres humanos foram criados não existem. O que não significa que não possam ser encontradas. Certamente não foram ainda.

A ciência demonstra, por exemplo, e de forma surpreendente, que as baleias (o golfinho é uma baleia pequena) descendem do hipopótamo. Vários bilhões de anos separam as duas espécies. Ela mostra também que o peixe-boi descende do elefante. A propósito, para quem duvidar disso ajuda saber que já existiram elefantes do tamanho de um cachorro de grande porte nas ilhas do Mediterrâneo. Não se trata de acreditar se isso é verdade ou não. Trata-se de avaliar a qualidade das evidências empíricas que demonstram essas linhas de descendência.

Contudo, em que pese a importância da ciência e o seu ensino fortemente disseminado em todos os países, particularmente nos desenvolvidos, a apreensão e "crença" nos ensinamentos da ciência é bem menor do que imaginamos em um primeiro momento.

Em 2005, o Eurobarômetro perguntou em 32 países europeus (em uma visão bastante indulgente do que significa ser país europeu) se era verdadeira ou falsa a afirmação "os seres humanos, como hoje os conhecemos, desenvolveram-se a partir de espécies de animais mais antigas". Os quatro países com as maiores proporções de respostas "verdadeiro" foram Islândia, Dinamarca, Suécia e França, todos com proporções maiores ou iguais a 80%.

Na Turquia muçulmana, somente 27% da população tem essa visão. Nada menos do que 51% dela considera que a afirmação evolucionista é falsa. Excetuando-se a Turquia, os demais seis países que mais disseram que a afirmação acima é falsa foram Grécia, Romênia, Bulgária, Letônia, Lituânia e Chipre, que variaram entre 21 e 36% para esse porcentual.

Em 2007, nos EUA, 44% dos habitantes concordaram com a afirmação "Deus criou os seres humanos praticamente na forma presente em algum momento nos últimos dez mil anos", ao passo que 36% concordaram com "os seres humanos desenvolveram-se ao longo de milhões de anos a partir de formas de vida menos avançadas, mas Deus conduziu esse processo" e somente 14% estiveram de acordo com "os seres humanos desenvolveram-se ao longo de milhões de anos a partir de formas de vida menos avançadas, mas Deus não teve papel nesse processo".

No último capítulo de "O Maior Espetáculo da Terra" há outros dados baseados em pesquisas de opinião que revelam quanto é difícil a aceitação de teorias científicas por parte da população.
Esses resultados indicam que ser informado acerca de um fato ou de uma teoria científica não basta.

Praticamente toda a população adulta desses países teve contato com a teoria da evolução de Darwin quando cursou o primeiro grau. Todavia, isso não bastou. É provável que o contexto social menos racional e científico resulte em mentalidades menos propensas a aceitar, em primeira mão, a veracidade dos argumentos da ciência.

Moral desta historinha: não basta ter acesso a uma determinada informação, ainda que ela seja muito bem fundamentada nas mais variadas evidências empíricas. É preciso haver predisposição para um determinado tipo de raciocínio para que sejam aceitos argumentos racionais e bem fundamentados. Na política, tomara que isso signifique alguma coisa para aqueles que querem basear campanhas eleitorais majoritariamente em raciocínios supostamente bem fundamentados.

Alberto Carlos Almeida, sociólogo e professor universitário, é autor de "A Cabeça do Brasileiro" (Record). E-mail: alberto.almeida@institutoanalise.com www.twitter.com/albertocalmeida

2 comentários:

Marc Aubert disse...

Artigo brilhante e muito bem embasado; pessoalmente sou ateu, más não tenho nenhum preconceito quanto à idéia de que Deus tenha influido de um jeito ou de outro no processo evolutivo, desde que se aceite a teoria da evolução como altamente provável, dentro de sua incomensurável beleza.
E é bom lembrar: é apenas uma teoria; pode ser desbancada amanhã ou daqui a dez anos ou nunca, ao contrário do dogma da Criação Divina, que tem que ser aceito sem discussão; Deus não ia querer isso, afinal nos deu um cérebro que precisa ser utilizado.

Renato disse...

Para vocês saberem como a mídia anti-católica adora os ''sacerdotes'' moderninhos, e que denigrem a imagem da Igreja Católica, leiam aqui:

http://www.catolicismoromano.com.br/content/view/34/26/