sábado, 16 de janeiro de 2010

Haiti, o Rio e o início do primeiro ciclo do café

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net

Por Cesar Maia


1. Em 5 de dezembro de 1492, menos de 2 meses depois de ter descoberto a América, Cristóvão Colombo chega a uma grande ilha que chama de La Española. É a primeira ocupação das Américas e com desenho urbano espanhol. A população encontrada era estimada em 300 mil indígenas. Em 1697, espanhóis e franceses celebraram o Tratado de Ryswick e dividem a ilha ao meio. À França coube a parte onde hoje é o Haiti, onde intensificou o sistema escravista. Em 1750, a parte francesa contava com 310 mil pessoas, sendo 300 mil escravos.

2. O Haiti alcançou, na segunda metade do século 18, índices de produtividade agrícola (café, cana, etc.) dos maiores do mundo. A avaliação dos proprietários era que a escravidão explicava a produtividade. Com isso, a população escrava não parou de crescer, atingindo quase o dobro no final do século 18. A aglomeração de escravos produziu, no último quarto desse século, reações, inicialmente de base religiosa. Sob a liderança do escravo Toussaint-Louverture se iniciou a luta a partir de 1790. Declara abolição em 1794 e promulga Constituição em 1801. É capturado em 1802 e morto na França.

3. Em 1803, sob a liderança do escravo Jean Jacques Dessalines se inicia a luta pela independência, que derrota os franceses e em 1804 declara Independência, assumindo o governo como Imperador e nessa condição seus sucessores. É o primeiro país das América Latina a se tornar independente. O temor do exemplo leva a América Hispânica a limitar a entrada de escravos e após as independências, realizar as suas abolições. Em 1822, o Haiti invade a parte oriental e unifica a Ilha de Santo Domingo. Em 1844, Haiti perde o controle da parte oriental e a República Dominicana se declara independente. Em 1915, o exército dos Estados Unidos ocupa o Haiti e o controla até 1934.

4. Mas o ponto que relaciona Haiti ao Rio é a rebelião de 1794. Os proprietários fugiram. Um deles, LOUIS FRANÇOIS LECESNE, grande produtor de café no Haiti, vai para a Cuba e em função das disputas -Espanha e França-, segue para os EUA. Quando D. João IV cria no Brasil um programa de incentivos à lavoura, Lecesne (com 57 anos) e sua esposa norte-americana Frances Mary vêm para o Brasil (1816) e se apresentam. Querem que ele plante trigo. Lecesne lembrou que trigo só em clima temperado.

5. Sem esse apoio e com apoio do embaixador francês, compra 130 HA na Gávea Pequena, Floresta da Tijuca. Em menos de um ano tem 60 mil pés de café plantado, o que é a primeira plantação de café em extensão do Brasil. Chamou suas terras de Fazenda São Luis. A casa central da fazenda é onde hoje está a casa da família M. Lins. E a casa de apoio é hoje a casa do Prefeito do RIO, a Gávea Pequena. A Fazenda São Luis foi desenhada de cima e está no diário de Maria Graham ('Diário de uma viagem ao Brasil').

6. A Fazenda São Luis foi visitada e relatada por Carl von Martius, Rugendas, von Theremin, Príncipe Adalberto da Prússia, Maria Graham... Dois anos depois, o comerciante e médico-militar holandês Charles Alexandre van Mocke comprou as terras ao lado de Lescene e passou a ser o segundo grande produtor com sua Fazenda Nassau. E dessa forma nasceu a grande plantação de café no Brasil e seu caráter exportador. Em 1843 uma praga encerrou o ciclo do café nos altos da Tijuca.

7. Veja o ex-prefeito Cesar Maia em visita às ruínas da Fazenda Nassau, de Alexandre van Mocke.

Cesar Maia é ex-prefeito da Cidade do Rio de Janeiro. Publicado no Ex-blog de ontem.

Nenhum comentário: